Cacto
   O pai dos burros

No último sábado (15/8), publiquei uma resenha no caderno Cultura, do jornal Zero Hora, sobre o livro O pai dos burros - dicionário de lugares-comuns e frases feitas, do jornalista e escritor Humberto Werneck. No dia 31 de agosto, segunda-feira, às 19h30min, Werneck faz uma palestra no Auditório da Famecos, na PUCRS, intitulada O lugar do lugar-comum - a qualidade do texto jornalístico.

Reproduzo, abaixo, parte do meu artigo:


Nessa altura dos acontecimentos...

Dicionários costumam gozar de estadas tranquilas nas estantes, ainda mais em tempos de corretores ortográficos, que denunciam diretamente na tela do computador as barbeiragens de escritores incautos ou incultos. Para autores minuciosos, em que o sentido exato da palavra é uma obsessão, os pesados volumes têm serventia ampliada, e com frequência as delgadas páginas de papel-bíblia acabam manuseadas até que o dedo estacione no vocábulo pretendido. Escritores que buscam, além da correção ortográfica e da semântica precisa, um texto elegante e imunizado contra expressões desgastadas pelo uso excessivo, contam a partir de agora com um guia em O pai dos burros – dicionário de lugares-comuns e frases feitas, de Humberto Werneck, mais recente lançamento da editora Arquipélago.

Apesar de ser uma obra de referência que requer lugar na mesa de trabalho, O pai dos burros, ao contrário dos dicionários tradicionais, merece uma leitura intencional, que não fique condicionada a uma necessidade. Dessa forma, surgirão surpresas, pois há expressões que descaradamente se tornaram lugares-comuns, como “a escola da vida”, outras, no entanto, podem pertencer ao repertório mais corriqueiro de quem escreve sem perceber que anda abusando dos clichês, por exemplo: “Nessa altura dos acontecimentos”, “costurar um acordo”, “afirmar categoricamente”, “abrir espaço na sua agenda”, “alimentação saudável”, “amigo pessoal”, “ao longo dos anos”, “apelo dramático”, “sólido argumento”, “ascensão meteórica”, “autoridades competentes”, “uma nova era se inicia”, “ditar moda”, “fonte inesgotável”, “bolsões de miséria”, “liderança isolada”, “ritmo vertiginoso”, “tiro no escuro”, “dar o tom” e “votação expressiva”.

O pai dos burros resulta de uma obsessão de quase quatro décadas. O autor coleciona desde os anos 1970 expressões que, de tanto serem repetidas, tornaram-se lugares-comuns ou frases feitas. Atento e arguto, Werneck se valia de qualquer canto de papel para registrar o flagrante dos maus-tratos impostos à língua portuguesa. O resultado da empreitada soma mais de 4,5 mil expressões agrupadas em 2 mil verbetes. E se não fosse estabelecido um limite, os números cresceriam. A premência do envio do material para a gráfica parece que estimulou ainda mais os radares de Werneck. A cada dia ele mandava para o editor adendos ao dicionário, pois as fontes de abusos linguísticos são abundantes. A começar pela imprensa. A velocidade acelerada que caracteriza a produção de notícias reserva pouco tempo para se pensar na forma e no estilo do que é escrito. Em geral, prevalece a necessidade de se registrar fatos verdadeiros e precisos, em detrimento de um texto mais elaborado. Sendo assim, bastava Werneck abrir um jornal, sintonizar uma rádio ou canal de televisão para logo encontrar potenciais verbetes predestinados a engordar O pai dos burros. Se os cursos de jornalismo e as redações adotassem esse dicionário como obra de referência, seria uma excelente estratégia em prol do capricho textual.

Outro grande manancial de expressões aviltadas pela fala estereotipada e mecanizada de seus protagonistas é o futebol, tanto que esse esporte é mencionado entre parênteses ao final de várias frases listadas. A deferência procede. Nada mais lugar-comum do que declarações de jogadores e locutores: “respeitar o adversário”, “esquentar o banco”, “colocar a bola no ninho da coruja”, “carimbar o poste/travessão”, “empate com sabor de vitória”, “erro fatal”, “confirmar o favoritismo”, “jogar com raça e determinação”, “o jogo só acaba quando termina”, “o juiz ergue os braços”, “partir para o tudo ou nada”, “estufar a rede”, “eterna rivalidade”, “o mérito pela vitória é de todos”… Como o clichê é endêmico no futebol, há um verbete específico para o esporte que rendeu 13 frases, entre elas a campeã inconteste: “o futebol é uma caixinha de surpresas”.

Alguns verbetes inspiraram apenas uma expressão, como adrenalina (“adrenalina pura”), fatídico (“dia/momento fatídico”) e toalha (“jogar a toalha”). Outros, mais torturados pela profusão de recorrências, são seguidos de várias frases. Água, por exemplo, rendeu 15, entre elas “águas passadas não movem moinho”. Das 16 citações de cabeça, emerge “mergulhar de cabeça”. Coração tem 20 entradas do porte de “abrir o coração” e “viverá para sempre em nossos corações”. Nas 20 frases de palavra, as indispensáveis “com o perdão da palavra” e “fazer uso da palavra”. Tempo rendeu 30 espécimes, entre eles “áureos tempos” e “dar tempo ao tempo”. Vida inspirou 35: “a vida estar por um fio”, “a vida imita a arte” e “vida que daria um romance”, entre outros. E o recordista de clichês é mão. No total, 47 casos da estirpe de “com a mão na massa”, “de mãos abanando”, “em primeira mão” e “meter os pés pela mãos”.

A pretensão de Werneck com O pai dos burros não é estabelecer um índex de expressões proscritas. Ele se explica no prefácio: “O que se quer com este livro é apenas recomendar desconfiança de tudo aquilo que, no ato de escrever, saia pelos dedos com demasiada facilidade. Porque nada de verdadeiramente bom costuma vir nesse automatismo”. Para quem se preocupa com todas as dimensões do texto, este peculiar dicionário dá subsídios a fim de se evitar a comodidade de soluções prontas que denunciam o desleixo ou o descuido na hora da escrita.



Escrito por Cacto às 08h24
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