Cacto
   Juízos rasos e equivocados nas páginas esportivas

A minha quase total indiferença ao futebol faz com que meus olhos cruzem numa diagonal rasante e célere pelas páginas que tratam do assunto. Vez que outra, sabe-se lá por que, paro e leio alguma coisa. Hoje, nas últimas páginas de ZH, um colunista escreveu sobre a Brigada Militar e as torcidas e tascou: "Não contem comigo para qualquer forma de pressão sobre a Brigada Militar. É verdade que houve excessos no jogo contra o Cruzeiro. Mas, apesar de eventuais erros, a BM é a única garantia de segurança que resta ao cidadão gaúcho. Em vez de tentar enfraquecer a instituição, a hora é de todos os gaúchos abraçarem a causa da Brigada. Existe uma ameaça real contra nossa polícia militar. Neste país, já tentaram 'regulamentar' a imprensa (censura), mas recuaram diante da reação. Depois, quiseram desarmar a população, mas o povo resistiu e disse não. Agora, tentam acabar as polícias militares dos Estados. Eliminar os tribunais militares e desmilitarizar a BM e outras corporações é acabar com todas, colocando no lugar não se sabe o quê".

Caramba! É impressionante a capacidade de associar situações imiscíveis e regar tudo com juízos rasos e equivocados em sua essência.

Propor uma suposta blindagem à Brigada Militar é algo tão perigoso quanto irresponsável. A estratégia me lembra os tempos de arbítrio, quando um professor que eu tive e era militar dizia que as críticas aos presidentes eram despropositadas, pois devíamos respeito ao chefe da nação. A simples condição de presidente, ou melhor, de general transformado em presidente seria condição para devotarmos respeito. Ora, por que não se pode pressionar a Brigada? Reconheço o papel fundamental que a corporação ocupa na sociedade, mas essa mesma sociedade tem o dever de pressioná-la para que cumpra seu papel com a observância de limites. Para longe de ufanismos e bravatas, os brigadianos inscreveram em seu histórico episódios desabonadores que sugerem a importância de se ficar de olho. E isso, de maneira alguma, significa enfraquecer a instituição.

Sobre a "regulamentação" da imprensa. O simples uso das aspas denota o sentido que o colunista emprega à palavra regulamentação. Por que jornalistas não podem ter parâmetros, critérios e postulados éticos para observar em sua atividade profissional? Tentar sugerir que a regulamentação da imprensa seja o mesmo que censura revela uma visão embaçada sobre a atividade jornalística em uma sociedade democrática e, ao mesmo tempo, ecoa a lógica que as empresas de comunicação defendem e disseminam em seus veículos, estabelecendo uma propaganda em potência máxima.

E quanto à contrariedade à tentativa de desarmar a população... francamente. Defender que o "cidadão de bem" armado seja uma boa estratégia no combate à violência é postular uma lógica de faroeste para a vida que de fato se vive, e não a que se presume viver. Estudos sérios revelam que a posse de arma só aumenta a violência, incha as estatísticas de morte e instaura uma cultura vingativa.



Escrito por Cacto às 11h37
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