Cacto
   As lágrimas da Maria Joana

A Maria Joana ficou triste porque o Michael Jackson morreu e eu, ternamente, me comovi com as lágrimas dela. A frase anterior parece verso de canção do Chico, mas, para além da minha tola pretensão, pode ser a síntese, ou um arremedo de crônica breve, do que se passou na noite de quinta-feira, ao final da aula. Levei um susto com a notícia da morte do garoto talentoso que, depois de adulto, mais parecia um ser fraturado emocionalmente, caricato e bizarro que andava pela vida aos trancos e barrancos. Não passou de um susto, embora eu goste de algumas músicas dele e sempre parava para ver quando apareciam na TV as dancinhas do negro que teimava em ser branco. Mas o que mais me marcou foram as lágrimas da Maria Joana. Ela não é uma fã histérica, muito menos uma garota bobinha que se rasga em nome de uma pretensa loucura emanada de algum astro. Por isso suas lágrimas me impressionaram. A dor deveras sentida não era despropositada ou insuflada para câmeras. Era a dor de alguém que se sensibiliza com as pessoas e seus infortúnios, sejam elas distantes ou próximas. Era uma dor delicada, sincera, e, no meio do diálogo que travamos, uma ou outra lágrima brotava a me lembrar que ainda há pessoas doces e atentas à dor dos outros, sensíveis com o entorno. Mais do que zumbis se requebrando em bando durante minutos sem parar na televisão, numa espécie de réquiem pop enviesado, para mim, a imagem indelével da morte de Michael Jackson é o pranto comedido da Maria Joana, tão sincero, natural e suave.



Escrito por Cacto às 18h53
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