Cacto
   Vitorssauro

A Ana Luiza, ex-aluna que trabalha em São Paulo, está escrevendo para uma revista o perfil do novo jornalista. Ela precisava fazer uma linha do tempo e saiu em busca de histórias do período em que a internet chegou às redações. Também queria conhecer um pouco mais da gincana que era fazer jornalismo antes da tecnologia simplificar alguns processos. Eis que ela me procurou, sabedora que eu sou testemunha ocular da história. Em outras palavras: velhice! Mas ok, o tempo não me assusta - pelo contrário. Na hora escrevi algumas coisas que reproduzo abaixo.

- No primeiro momento em que a internet chegou à redação, eram raros os computadores que tinham acesso à rede. O serviço foi disponibilizado apenas em um terminal por área, o do editor. Ninguém sabia muito bem todas as possibilidades, pois a internet ainda engatinhava no que se referia ao público em geral.

- O envio de fotografias, ou telefotos, era um ritual imprevisível. Como não havia câmeras digitais, os fotógrafos precisavam viajar com um pequeno laboratório a fim de revelar o negativo, que depois era colocado em um trambolho para enfim ser transmitido. Aí começava outro capítulo da novela. A engenhoca enviava o material por meio de linha telefônica, isso na primeira metade dos anos 1990, quando a telefonia ainda era um pequeno caos. No meio da transmissão a linha caía, exigindo o recomeço do processo. Se não bastasse, havia ainda a questão das tomadas. Se o hotel do Interior onde a equipe se instalava tivesse o fio do telefone fixado na parede, não servia. Hoje, os telefones são conectados ou desconectados facilmente da parede, bastando um clic. Nem sempre foi assim. O fio entrava pelo espelho da tomada e era fixado dentro da parede. Lembro que os fotógrafos mais tarimbados carregavam na bolsa um adaptador, pois nem sempre havia compatibilidade entre a flecha do aparelho de transmissão de telefotos e a tomada do telefone. Às vezes, tarde da noite, tinha que se procurar uma tomada compatível. Prefeitura, rodoviária, hotel, restaurante, casa de alguém... O envio de fotos parecia uma gincana. Caso houvesse tempo, a equipe do jornal despachava o negativo por ônibus. Normalmente contava-se com a camaradagem de motoristas. O fotógrafo passava alguns dados para a redação (nome do motorista, número do ônibus e horário de chegada) para que um motorista do jornal pudesse localizá-lo e pegar o negativo.

- Para fotografias impressas, o processo de envio mudava um pouco. A imagem era fixada em um cilindro, parecido com aqueles de mimeógrafos (sim, isso também é muito velho e todos filhos de professores conhecem muito bem). O cilindro girava rapidamente, enquanto uma espécie de scaner, parecido com um ponteiro, ia cruzando lentamente no topo, "lendo" a imagem. A transmissão também se dava por linha telefônica. E claro, ela sempre caía, e tudo recomeçava.

- Enviar textos era outra pequena epopéia na era pré-internet. Computadores portáteis, obviamente, também não havia nas redações. O repórter escrevia o texto com caneta ou usava alguma máquina de escrever disponível. Depois telefonava para a redação e ditava o texto para uma pobre digitadora que precisava dar conta da verborragia do repórter.



Escrito por Cacto às 01h23
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   Um grande circuito de diversão e entretenimento

Depois do almoço de sábado, fui à exposição Corpo humano - real e fascinante, montada no centro de eventos do Barra Shopping. Pois então... real até pode ser, mas fascinante, aí são outros quinhentos.

Sabem do que mais gostei? Dos amplos desenhos estampados em grandes panos, como se fossem uma espécie de estandarte. Pareciam desenhos de anatomia do Leonardo da Vinci. Também apreciei muito os efeitos luminosos. Pequenos canhões projetavam no chão ou em paredes contornos que aludem a formas microscópicas do organismo humano, como agrupamentos de células, alvéolos, coisas do tipo. Sendo assim, venci o trajeto da mostra acompanhado por uma mescla de constrangimento, desconforto e curiosidade.

Uma vez um velho professor de literatura, com o qual convivi em um dos meus trabalhos, comentou que se sentia mal em laboratórios clínicos, a ponto de desmaiar, bastando para isso ouvir o barulho emitido pelo contato entre os vidrinhos que receberiam seu sangue. Meu cunhado não é diferente. Mesmo necessitando, retarda ao máximo a realização de exames por conta do pânico em imaginar uma agulha rompendo seu braço. Tem gente que não pode ver sangue. Tem gente que não consegue ver mortos. Mas nada disso inspirou meu desconforto com a tal exposição que já cumpriu agenda internacional e em Porto Alegre foi promovida pelo jornal Zero Hora.

Logo no início, ossos isolados jaziam em caixas de vidro. Depois ossos unidos assumiam a forma de membros e eis que surgiu o esqueleto completo. Nos outros ambientes, o mesmo princípio organizava os... como dizer, restos humanos? Os sistemas nervoso, circulatório, digestivo e reprodutivo eram apresentados em espaços distintos. Havia mais ambientes compondo o roteiro. Em um deles, onde pequenos fetos com diferentes semanas de gestação restavam acomodados em vidros, um aviso antecedia a entrada. O texto informava o que viria pela frente e pedia que cada um avaliasse se prosseguiria ou não. Achei curioso que o alerta estivesse apenas neste ponto da exposição, e não no início. Claro, compreendo, pequenos fetos acondicionados em uma espécie de vidro de compota podem ser mais chocantes do que porções de adultos polimerizados.

Roy Glover, o médico que dirige a exposição, defende que, para se saber sobre corpos e saúde, seria mais eficaz usar corpos humanos de verdade, em vez de se valer de artefatos que os imitassem. Ele acredita que as pessoas precisam conhecer o corpo e as patologias. Talvez isso explique por que, ao lado do esquife envidraçado do pulmão enegrecido pelo fumo, estivessem uma urna de acrílico e um recado pedindo que os fumantes repensassem sobre o vício e deixassem lá seus cigarros. Uau! Quanto esperteza. Que senso de oportunidade. Até agora não entendi, no entanto, a razão de alguns visitantes terem jogado moedas no recipiente.

O que eu mais desejei saber durante a caminhada era sobre a vida dos mortos expostos em pleno shopping center. Que vida tiveram? O que faziam? Como morreram? E seus familiares, vão bem? Que tipo de vida levaram? Eram pobres, muito pobres? Vasculhando no sumário e tímido site do evento, descobri que todos são chineses mortos de causa natural "que escolheram doar seus órgãos em prol da ciência médica para fins de estudo e educação". Até aí, tudo bem. Considero muito nobre que pessoas doem seus corpos para pesquisas. No passado, cadáveres eram roubados para que prosseguissem as investigações médicas. Havendo consentimento dos mortos, quer dizer, das pessoas ainda vivas, o processo fica mais legítimo. Mas aí fazer uma exposição... sei não.

Com toda sinceridade: não creio que meu passeio ou o de qualquer pessoa entre aqueles restos humanos possa ter despertado mais consciência sobre nossos corpos ou sobre a necessidade de preservarmos a vida e a saúde. Aquilo era uma exposição, e ponto final! Não há um propósito educativo estruturado, não há mediadores, não há trabalho dirigido às crianças, não há textos além de meras legendas em cada expositor, não há conversa com especialistas. Não há nada além de um evento, de entretenimento. E é por isso que não considero legítima esta exposição, e foi por isso que um constrangimento me acometeu logo no início da mostra e ao final se acentuou. Tento não me pautar por moralismos e crenças obtusas, mas acredito que uma certa noção de respeito e dignidade seja importante para estabelecermos parâmetros em prol de uma existência coletiva.

Antes de deixar o recinto, um último recado afixado em uma parede, sem maiores destaques, avisava: "Os exemplares desta Exposição foram tratados com a dignidade e respeito que tanto merecem". Agradeço por terem me avisado. A porta de saída da mostra desemboca na praça de alimentação do shopping. Sim, juro, é verdade. Não estou brincando: ao se abandonar o ambiente de penumbra e de barulho contido da capela mortuária de corpos anônimos e insepultos, o público depara com fotos de bifes, batatas fritas e uma variedade de cardápios para todos os gostos. Quando a porta se fechou, vi estampado nela um troço vermelho qualquer... um alvéolo ampliado, um emaranhado de veias... sei lá. Na parede ao lado, a propaganda de uma lanchonete exibia um bifão suculento. À medida em que fui me afastando, aumentava minha curiosidade por saber quem seriam aquelas pessoas e se elas imaginavam que seus corpos, pretensamente doados para experiências, no futuro estariam expostos numa espécie de ante-sala de lanchonetes de um shopping, como se tudo fosse um grande circuito de diversão e entretenimento.



Escrito por Cacto às 16h51
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