Cacto
   Vocês têm Norte?

Eu entrei na faculdade em 1988 sem saber muito do mundo. Até sabia alguma coisa, mas eram impressões pouco organizadas em minha mente juvenil açoitada por hormônios. Noções desconexas e ainda carentes de um maior entendimento me transformavam em um radar. Eu queria descobrir, aprender, experimentar, inaugurar, esboçar, abocanhar, tremer - afinal, a vida é vertigem. Mais do que vertigem, a vida é processo, e eu vivia em um redemoinho. Mesmo - ou principalmente quando - parado, minha cabeça tratava de definir um eixo para iniciar a rotação, estabelecendo um ciclo de dias e noites que pouco tinham a ver com o relógio.

Naquele período, um dos meus ancoradouros preferidos eram as livrarias e as bancas de revista. A excitação chegava a tal nível quando eu via as lombadas e as capas que eu acalmava. Efeito curioso - tamanha era a vibração que um torpor amainava minha vida. A promessa da palavra impressa nunca me traiu. O legado de Gutenberg me movia, me atraía. Mais do que ser jornalista, eu queria ter uma livraria. Viver de livros, viver com livros, viver pelos livros. E, se possível, ganhar grana com isso. E assim se passavam as tardes, quando o carimbo do jornal ainda não havia borrado minha carteira de trabalho. Aliás, não queiram ver minha foto neste documento...

Eu batia ponto na Globo da Rua da Praia, nas várias Sulinas espalhadas por distintos endereços, na Palmarinca, na Terceiro Mundo, nos sebos da Marechal Floriano e da Jerônimo Coelho. Também circulava por outras lojas de livros espalhadas por diversos quadrantes do Centro que ainda era o epicentro de uma certa noção de vida antes dos shoppings, sempre barulhentos e insossos. Eu também me perdia no tempo nas bancas de revistas. Na Praça da Alfândega - o que houve com aquela fantástica banca? -, naquelas estruturas redondas que brotavam de tanto em tanto na Rua da Praia, nas esquinas do Bom Fim e da Cidade Baixa, na tabacaria Dunga, que ficava perto da casa da minha vó. E no aeroporto! Quando chegou a época de dar adeus e receber amigos voadores, as revisterias do Salgado Filho acolhiam o meu pouso.

Desde aquele tempo, e já se vão um pouco mais de 20 anos, eu acredito na prevalência da palavra impressa. Não faço pouco caso da internet ou de suportes digitais - muito pelo contrário -, mas eu ainda acredito veementemente no vigor da leitura que emana do papel. Sigo lendo e empilhando livros e revistas, sigo comprando livros e revistas, sigo presenteando livros e revistas. Decorrência natural, busco publicar em livros e revistas. Assim começou minha história com a Norte, uma revista bacana que o jornalista Tito Montenegro bravamente lançou há um ano e que se propõe a discutir livros, artes e ideias (ainda que sem acento, seguem sendo idéias). O texto de apresentação diz: "A Revista NORTE nasceu a partir de uma idéia: criar uma publicação que, produzida no sul do Brasil, não tivesse em sua pauta restrições aos assuntos locais. Nosso ponto de vista é sulista, mas nem por isso deixaremos de acreditar que a diversidade e o diálogo são fundamentais na busca de um norte". A frase seguinte salienta que o time de colaboradores é de primeira linha, mas o decoro e a modéstia me impedem de reproduzi-la.
Brincaideras à parte, escrevo para convidá-los a conhecer e assinar a Norte. A partir deste mês, o projeto ganha mais envergadura. Aumenta o númro de páginas e surgem algumas seções fixas. Então, caros desnorteados, é isso. Se quiserem saber um pouco mais da revista, o link está aqui. E se quiserem assiná-la, o link é este. A reprodução da capa da edição que será lançada em breve está aí embaixo. A imagem que foi trabalhada é uma cena de Santiago, do João Moreira Salles, documentário sobre o qual escrevi.



Escrito por Cacto às 12h34
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