Cacto
   A vida como antigamente

Na primeira mordida, ela se desmanchava na boca. Era hora de a mão desocupada correr para acudir a outra que mal conseguia conter os pedacinhos da empada que fazia sucesso nos aniversários da minha infância. Mais do que o cachorro-quente recheado com uma salsicha inteira - nada de rodelas boiando no molho - ou o negrinho feito com leite condensado cozido na panela de pressão, as empadas garantiam o sucesso das festas na casa da minha família.

Minha mãe e a Di eram exageradas, e os convidados sempre levavam para casa uma bandejinha com as delícias que intencionalmente sobravam. A Di é uma lenda que ainda hoje mora na nossa memória. Foi trabalhar lá em casa por um tempo e por lá ficou uma vida toda, a ponto de me ver abandonar as botinhas ortopédicas e virar gente grande. Reza a lenda que, na hora de ir embora, ela tinha que se abaixar para eu não a ver passar na moldura da janela. Caso eu descobrisse a fuga, mirava suas canelas com minhas botinhas de bico ralado, afinal, ela não podia ir embora e me deixar. Duvido que isso seja verdade, embora todos me garantam que sim. Mas não é sobre a minha faceta de carente violento que eu queria escrever, e sim das empadas. A Di, infelizmente, partiu, mas minha mãe seguiu fazendo as empadas. E, acreditem, elas estão cada vez melhor. Nada de gordura hidrogenada na massa, nem recheio sem gosto. O sabor e o capricho seguem os mesmos como se amanhã fosse aniversário, dia em que dezenas de pessoas lotariam a casa habitada pela minha família desde 1950. A diferença agora é que minha mãe resolveu fazer as mitológicas empadas para vender.

Na verdade, não são apenas as empadas. O cardápio das delícias que a partir de agora podem ser encomendadas inclui outras receitas que até então eram servidas apenas em nossa casa. O croquete é feito com carne de panela temperada como se fosse almoço de família e cozida na panela de ferro que pertenceu à minha bisavó. O risoles fica tão bom, mas tão bom que dá vontade de comer escondido. E tem os doces... Para fazer a ambrosia, minha mãe espera a buzina de um Passat soar. O motorista do velho veículo traz leite e ovos direto da chácara que garantem um manjar dos deuses macio e amarelo, beeeeem amarelo. O doce de figo em calda é sazonal. Agora, por exemplo, é época. Um por um ele é descascado. Na base, faz-se uma cruz com a faca para que a calda possa penetrar ao longo das horas sem fim em que ele é cozido no panelão. Neste fim de semana, a mãe resolveu fazer uma pequena - e comovente - experiência: escorreu a calda e banhou as frutas com chocolate derretido, aí pôs na geladeira, aí se criou uma casquinha, e aí... bem, é isso aí. Sem palavras. Sem palavras eu também fico com a casquinha que se forma na superfície do doce de abóbora. Não me perguntem por que, mas reza outra lenda que, durante o preparo, o panelão precisa descansar direto no chão, estabelecendo intervalos para o lento cozimento. Era assim que minha bisa fazia, é assim que minha mãe segue fazendo.

Como é época de Páscoa, a cada dia formas e formas de biscoitos de mel são produzidas. Eles têm carinha de coelho e perfume de infância. O trabalho é lento: depois de a massa estar preparada, ela precisa descansar oito horas! Dia desses, o repouso terminou lá pela meia-noite, e madrugada adentro minha mãe e minha tia ficaram assando os biscoitos.

Talvez mais delícias venham por aí... e uma coisa é certa: tudo tem gosto de casa, de família, de passado. Se a vida como antigamente tinha um sabor melhor, a idéia é trazer esse universo para o presente.

Se alguém quiser provar os salgados ou os doces que a mãe anda aprontando, é só me dizer. 



Escrito por Cacto às 02h51
[] []


 
  [ ver mensagens anteriores ]  
 
 
HISTÓRICO