Cacto
   Como se eu fosse um colecionador da simplicidade

Eu me perco no tempo vasculhando fotos no Orkut. Não é qualquer imagem. Corpos convidativos, cenas de filmes, ícones da música... esse universo não me interessa - pelo menos na maioria das vezes. O que procuro neste paraíso dos voyeures plugados é o bibelô, o quadro com paisagem, a foto do casamento adornando a prateleira, o guardanapo pendendo sobre a borda da televisão, o prato de maionese no centro da mesa do almoço dominical, o dedão sobressaindo-se no chinelo, a gargalhada da tia gorda, o muro descascado a estabelecer os limites do quintal onde a festa acontece, as cerâmicas compradas em promoção que substituíram o assoalho carcomido, os potinhos em cima da geladeira, a vassoura encostada rente à porta, a cortina de plástico com os vestígios do último banho, a cômoda repleta de escovas e perfumes comprados em catálogos distribuídos pela vizinha, a cadeira de plástico na varanda, o lençol estendido no varal, os bonés que promovem qualquer coisa na cabeça de senhores de barba por fazer, a rachadura da parede, as folhas de violeta plantadas em potes de margarina para gerar novas mudas, a umidade que brota do chão e tinge o reboco, as estampas sacras que reafirmam uma noção de fé...

Gosto de admirar a autenticidade, a simplicidade compulsória, a vida sem afetação, a ausência de bom gosto forjado em editoriais de moda, a vigência da criatividade, a cena prosaica. Acho que desenvolvi esta predileção no tempo em que diariamente eu fazia reportagens. Vasculhar a cidade, descobrir o subúrbio, enveredar por ruelas nunca vistas ou sequer imaginadas, ter a permissão de uma pessoa para entrar em sua casa. Eu ficava atento aos detalhes, às marcas, às recorrências do que era visto em comparação com situações pretéritas. O ambiente revela muito do habitante, e o repórter que despreza as geografias particulares acaba por despotencializar sua narrativa.

Também gosto muito da boa acolhida protagonizada por cidadãos mais simples, um traço que vigora quase como um atavismo. Pessoas sem afetação ficam lisonjeadas quando procuradas por um repórter. Algumas, claro, ficam faceiras porque têm a oportunidade de aparecer na televisão ou na foto do jornal, mas há uma outra linhagem de sujeitos que se sentem agradecidos por serem ouvidos. Já entrevistei pessoas que ficaram profundamente agradecidas pelo simples motivo de serem ouvidas. Eu pedi licença, entrei em suas vidas e escutei o que tinham para me dizer. Neste mundo de pressa e impessoalidade, onde a simplicidade está no DNA do anonimato, da quase invisibilidade, os personagens do cotidiano se enobrecem quando podem contar sua história. Aí eles querem nos agradar, tentar uma espécie de agradecimento. Oferecem café, água, um prato de refeição, uma muda, o artesanato que acabaram de fazer, uma fatia de bolo... Cada caso é um caso. Lembro de uma vez em que fui entrevistar uma agricultora. Ela sabia que eu iria, não cheguei de surpresa. Estava bem penteada e vestia uma camisa branca, muito alva. Devia ser a roupa da missa - imaginei. Conversarmos, ela me falou o que eu precisava saber, me mostrou o que me interessava. Ao final, me ofereceu um café. Não havia como recusar. Seria uma ofensa. Quando eu, o fotógrafo e o motorista entramos na cozinha, uma mesa preparada nos esperava. Pão caseiro, nata, schmier e salame feito por ela mesma. "Pode comer, moço, botei bastante alho pra matar os bichinhos..." Adoro essa frase. E o mais fantástico é que nem por um segundo sequer eu cogitei em não comer aquele salame cheio de alho para matar os bichinhos. Sentei à mesa e me refestelei com a oferta da agricultora. E até hoje me lembro dela, assim como das casas onde já me permitiram entrar e das fotos que garimpo por aí, como se eu fosse um colecionador da simplicidade.



Escrito por Cacto às 13h48
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