Cacto
   Nossas vidas adquiriram uma nova configuração

Na hora dolente em que os agentes da funerária saíram da casa da minha família, na madrugada da última segunda, 20 de outubro, o breu era atenuado pela lua ao som de sabiás, que estavam a mil com o prenúncio da manhã. Foi impressionante ouvi-los naquele momento, quando dava vontade de cometer algum desatino para ver se a realidade pudesse adquirir um novo curso. Pode soar meio bobo o que vou dizer, mas me pareceu uma bela homenagem da passarada. Quando uma professora de música deixa definitivamente a morada onde viveu 58 anos e onde montou uma escola que abrigou centenas de alunos de piano e acordeão, nada mais justo que a natureza prestasse uma espécie de tributo derradeiro com alguns dos seus mais afinados e entusiasmados cantores. Eu acompanhei sozinho aquele cortejo enviesado. Disse para todos da minha família saírem, irem para a cozinha. Queria poupá-los, mas não me poupei - até porque alguém tinha que atender aos profissionais contratados. Segui os dois funcionários que acomodaram numa maca o corpo franzino da minha vó protegido por um lençol. Parecia um casulo em trajetória contrária. Nele, a vida já não era mais latente. A crisálida que saiu do quarto e cruzou os cômodos, quando rompida, não teria uma promessa de vida. E eu segui atrás, torcendo para que o médico estivesse enganado, que fosse tudo uma grande confusão. E quando o corpo acabou erguido para desaparecer no vão da caminhonete, no meio daquele disparate, tive meus passos interrompidos no momento em que bati minha cabeça na porta erguida do veículo. Atordoado pela dor e pela outra dor, recuei e vi que minha família, postada na porta da casa, assistia à partida de nossa matriarca.

A vó ficou hospitalizada de domingo até sábado. Na noite de sexta, fui dormir mais uma vez com ela. Dormir, claro, é modo de falar. Grande parte da noite passei acordado, acompanhando o trabalho dos auxiliares de enfermagem ou velando para que as coisas seguissem bem. Se por ventura eu chochilasse, dava um pulo no sofá e me levantava rapidamente, a fim de verificar se ela estava bem, se respirava, se precisava de algo. Lá pelas tantas, acomodei a cadeira próximo à cama e lá permaneci, atento. Houve um momento em que fiquei triste. O contexto todo se mostrava complicado, difícil, pouco promissor. Para relaxar, apoiei os braços na grade do leito. Em seguida, acomodei a cabeça na altura do cotovelo. Olhando para minha vó e sua fragilidade, olhando para nossa história de intenso amor, comecei a chorar. Um choro calmo, quase resignado. Um choro cadenciado pelo soro que tentava revigorar o corpo frágil. Uma gota pingava do frasco, uma outra brotava em meu olho. Nesse momento, percebi que uma lágrima escorria na face de minha vó. Nesse diálogo fluído e ao mesmo tempo sereno, percebi que a lógica de nossa vida se alterava. Instantes depois, me aproximei, comecei a alisar seu rosto e disse: "Vó, eu gosto muito da senhora. Eu amo a senhora". Desconhecia o quanto ela entendeu ou não, se me ouviu, e voltei a sentar. Um pouco depois, ela sussurrou algo inaudívei. Foi preciso posicionar o ouvido bem próximo aos lábios dela para decifrar o que falava. E eu ouvi, claramente, sentindo o calor de sua fala na pele da minha orelha: "Eu te adoro, meu filho". E assim, nutridos pelo afeto declarado, acho que dormimos. E na manhã seguinte, sábado, ela teve alta.

As coisas não seguiram muito bem. No domingo, voltamos para o hospital. Passamos toda a tarde lá. À noite, os médicos disseram que não havia razões para ela ficar internada e retornamos para casa. Acomodada na cama, sua respiração estava pesada. Havia um ronco, um chiado. Chamamos uma amiga da família que é auxiliar de enfermagem e que tentou aspirar aquilo que se acumulava e afetava a respiração. A vó suava. Muito. Trocamos a roupa e os lençóis. E ela foi ficando mais calma. E nós, também. Achamos que ela começava e relaxar e teria uma noite tranqüila. Até fomos à cozinha comer algo, já que passamos o dia todo quase em jejum. Depois da meia-noite, já na segunda-feira, estávamos todos reunidos em torno da cama, quietos. Ela nos olhava. Fechou os olhos. Não sei exatamente em que momento, mas fez-se um silêncio. Cessaram nossas vozes e o ronco do peito. Houve um momento em que todos se olharam, como a esperar que alguém fizesse algo. Sentei na cama. Aproximei minha mão do nariz pra ver se ela respirava. Fiquei confuso. Diagnostiquei que ela ainda respirava. Assustado, enlacei a cabeça da vó com um braço e, com a mão que estava livre, batia repetidamente em seu rosto. "Vó, tudo bem? Vó?" E nada. Pedi que minha mãe fizesse respiração boca a boca, para ver se ela reagiria. Toquei o braço da vó, mas estava frio. Pedi que telefonassem para a equipe de atendimento de emergência. Eles chegaram muito rápido, acho que em cinco minutos, mas antes minha mãe já havia dito: "Pronto, cumpriu a missão". Os médicos só confirmaram aquilo que já sabíamos, aquilo que era previsível, aquilo que não queríamos. À 1h15min, foi atestado o óbito da vó. A partir daquele momento, nossas vidas - a minha e da minha família - adquiriram uma nova configuração. Até agora, não sei bem qual é.



Escrito por Cacto às 01h29
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