Cacto
   A nudez da minha vó

É impressionante como a nudez senil acaba sendo relativizada. Nos últimos dias, em que tenho me dedicado com mais intensidade a alguns cuidados com minha vó, que está hospitalizada, a fragilidade do corpo dela me marcou bastante. Mais do que isso, mais do que vê-la como um passarinho aninhado sobre a cama, perceber a intimidade revelada foi algo que por alguns momentos me tocou. Na hora do banho improvisado, prevendo que ela ficaria nua, me afastei do leito e fiquei parado na porta, esperando, mas como estavam com dificuldade de elevá-la para acomodar a fralda, me chamaram. Prontamente fui, ergui a vó, os auxiliares de enfermagem concluíram a operação, voltei a deitá-la e novamente me afastei. Fiquei encucado: por que me mantive à distância? Não tenho a menor dúvida que por uma simples razão: respeito. Minha vó nunca foi uma mulher carola - embora sempre tivesse fé e vivesse a sua religião - ou moralista ao extremo - embora ostentasse, com convicção, certos preceitos. Mas havia um recato, um pudor muito claro em relação ao corpo desnudo. Lembro de vê-la se vestindo enquanto eu estava no quarto dela, mas no máximo era a troca de um vestido, de uma camisa. O que de fato evidenciaria a nudez ficava sempre preservado. Acho que o distanciamento de nossas gerações também alimentava o recato: uma vó, um neto. Tenho amigos e amigas que comentam que seus pais e mães transitavam pelados em casa, com naturalidade. Sempre achei que com avós, ainda mais com os nascidos perto da alvorada do século passado, isso seria mais difícil. Então, por conta disso tudo é que tenho impregnado naquilo que me faz sujeito um profundo respeito ao que concerne à nudez da minha vó. Menos por mim, mais por ela. Mas como atualmente ao substantivo nudez precisa ser acrescido o adjetivo senil, tudo acaba reconfigurado. Chega um momento em que os outros sabem avaliar o que é melhor ou necessário para o bem estar de alguém. No final das contas, acho que a própria longevidade acaba atenuando o recato, o pudor. Não vejo nenhum esboço de constrangimento em seu rosto sulcado e flácido. Talvez seja uma espécie de resignação, típica de quem acata os desígnios de uma vida longeva que pode não ser eterna na dimensão mais óbvia, mas que segue existindo e ecoando na memória - essa sim, lastro de tudo que é eterno.



Escrito por Cacto às 10h39
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