Cacto
   Preconceito e exclusão podem ser combatidos com detalhes

Juízes são seres peculiares. Abrigados em togas sóbrias ou acomodados em cadeiras de espaldar alto, operam como senhores do destino alheio. Julgam, arbitram, decidem. Mas entre eles não rola muito esse papo de diversidade, por mais que a sociedade seja diversa. Os magistrados gays, por exemplo, tratam sua vida privada como algo que deva ser escondido. Ao dizer isso, não quero sugerir que usassem uma toga tingida pelas cores do arco-íris, mas bem que poderiam, juntamente com os colegas sensíveis às questões de gênero e outras tantas, aos poucos tensionar a Justiça para garantir direitos mais amplos e igualitários em um mundo onde não deveria haver espaços institucionalizados para a intolerância.

Em relação à falta de diversidade nas mais diversas cortes, me intrigava o fato de que o acesso à magistratura é condicionado a um concurso público, mas não havia vagas reservadas a portadores de deficiência, como ocorre em qualquer processo semelhante para provimento de outros cargos. Eis que agora as coisas mudam. Na última terça-feira (7/10), atendendo a uma provocação do Ministério Público Federal, o Conselho Nacional de Justiça estabeleceu que concursos públicos para juiz deverão reservar de 5% a 20% das vagas a portadores de deficiência. Antes de a decisão vigorar, os tribunais de todo o país precisam aprová-la.

Vai ser bacana de ver cadeiras de rodas deslizando pelos tribunais. Fico imaginando as outras adaptações que ocorrerão em razão dos novos magistrados. Isso é sinal de respeito à diversidade. Se antes raramente se percebiam tantos portadores de deficiência, não é porque eles inexistiam. Muitos eram mantidos em casa por famílias envergonhadas ou sem recursos. À medida em que os preconceitos e os tabus começaram a atenuar, algumas instituições criaram mecanismos para a inclusão. Em um grande evento organizado pela universidade onde eu trabalho destinado a alunos de escolas de Ensino Médio, no meio da correria da gurizada, cadeiras de rodas aumentavam a movimentação daquelas jovens fábricas de hormônios que perambulavam de um lado para o outro. Em outra universidade que atuei, uma vez organizei um evento que se propunha a apresentar o mundo da pesquisa para alunos de escolas. Uma das atividades consistia nos estudantes darem uma volta de lancha em um lago a fim de conhecer algumas das experiências realizadas por biólogos. Mas e o que fazer com o cadeirante que mal movia os braços? Simples: colete salva-vidas - a propósito, todos usaram - e os providenciais braços fortes dos colegas e dos monitores da universidade que trataram de acomodar o garoto na lancha. Lembro até hoje da felicidade dele quando o vento bagunçou seu cabelo durante o deslocamento.

São pequenas atitudes que começam a alterar o cenário em que vigora o preconceito e a exclusão. Basta as pessoas terem sensibilidade ou comprometimento. O famoso Drauzio Varella, recentemente, perdeu uma chance. Diminuta, mas era uma oportunidade de evidenciar que duas pessoas do mesmo sexo também podem iniciar uma relação afetiva, como se fosse algo natural - o que, de fato, é. Era uma série sobre o interior do corpo humano que o Fantástico começava a apresentar e que, naquele dia, abordou o despertar da sexualidade entre adolescentes. Lá pelas tantas, o médico que escreveu de maneira sensível sobre os horrores da penitenciária do Carandiru disse na televisão, para todo o Brasil, algo mais ou menos assim: "E quando um jovem se sente atraído por alguém do sexo oposto...". A frase não foi, literalmente, essa, mas a oposição entre os gêneros ficou clara na fala de Drauzio. Se ele tivesse suprimido o detalhe, estaria garantido na narração - mesmo que sutilmente - o direito de dois garotos ou de duas garotas descobrirem o tenso e intenso universo do sexo e dos sentimentos.

Escrito por Cacto às 11h49
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