Cacto
   Um semestre num fim de tarde

Neste sábado, às 17h, tentarei condensar um semestre da disciplina de Jornalismo Literário numa conversa que ocorrerá no Botequim das Letras (Félix da Cunha, 1.143, perto do Moinhos Shopping), um café/bar legal que tem em Porto Alegre e onde pode se encontrar livros bacanas. Pensando bem, não é nada disso. Vai ser um bate-papo sobre coisas que todos gostamos: jornalismo, literatura, livros, revistas e o que resulta da aproximação disso tudo. Abaixo, o convite feito pela Giovana Villanova Maciel, que é a responsável pelos livros do espaço e pela programação. A imagem ficou pequena aí... mas dá pra ter uma idéia do que se trata.



Escrito por Cacto às 16h21
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   Um pouco de humor, um pouco de poesia - acho

O humor
Tem dias que minha vó não quer comer, muito menos tomar os remédios. Haja paciência! Numa noite, horas avançadas, minha mãe me telefonou. Exaurida, sem mais argumentos ou forças, pediu que eu fosse lá tentar dar os medicamentos que são necessários. Fui e demorou uma meia hora até ela consentir. Ficou evidente que resolveu tomar o comprimido para se ver livre do chato que a importunava. Antes de eu prosseguir com a história, é importante frisar que as vidas da minha mãe e da minha tia estão concentradas nos cuidados com a matriarca nonagenária. Por mais dedicação e zelo que encontram para seguir na maratona, existem momentos em que tensão e impaciência pairam no quarto. Pois num dia desses, em meio ao tumulto e à recusa da vó em se medicar, minha mãe se ajoelhou e enfileirou algumas lamúrias, pedindo, por favor, que minha vó ajudasse e tomasse o remédio. Então, como se nada estivesse acontecendo, a senhora da casa se vira para minha tia e sentencia: "É tudo teatro" - e apontou para a filha impotente e cansada. Antes que o acesso de riso estourasse na minha mãe, ela teve que sair do quarto. E a família desde então conta com mais uma história para seu repertório.

A poesia
Um colega me contou que a avó dele também teve Alzheimer. Natural do Líbano, aos 20 e poucos anos se mudou para a Argentina, onde permaneceu uns 30 anos, até se radicar no Brasil. Uma das características da doença é que a memória recente vai desaparecendo, restando as lembranças mais pretéritas. Então primeiro ela parou de falar português. Comunicava-se apenas em espanhol. E um dia o castelhano saiu de cena e deu lugar ao árabe. No estágio avançado da doença, era no Líbano, na pátria primeva, na infância e na adolescência que a memória encontrava alguma conexão possível, algum sentido.



Escrito por Cacto às 17h12
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   Prefiro os vira-latas

Não entendo pessoas que devotam aos seus cachorros tratamentos excessivos, como se humanos fossem. Até entendo, mas acho estranho, exagerado. E alguém poderia dizer: o que tu tens a ver com isso? É verdade, cada um faz o que quer e eu não tenho nada que me meter na vida dos outros. Mas da última vez que estive em São Paulo, não pude deixar de achar ridículo uma dondoca empurrando um carrinho de nenê no shopping Higienópolis com seu quadrúpede dentro vestindo uma fralda - aliás, é impressionante que naquele shopping o acesso aos animais seja liberado. Não vou chegar a bradar o panfleto musicado do Eduardo Dusek - "troque seu cachorro por uma criança pobre" -, mas há algo de estranho, ou sintomático, na humanização dos animais promovida por algumas pessoas.

Essas parcas linhas aí em cima talvez foram escritas apenas para dizer que eu adoro cachorro vira-lata e que acho muito bacana quando, na ponta da guia de um transeunte qualquer, está um cusco. Ontem mesmo passei por um cara bem vestido, trajes esportivos, provavelmente aproveitando a folga para passear. Ao seu lado, faceiro, bonito e bem tratado, um cão sem raça definida. Outra coisa que me deixa contente é ver um catador de lixo para reciclagem empurrando seu carrinho e, atado ao veículo, um guaipeca. Não tão cuidado, porque o dinheiro mal dá para tratar o próprio sujeito, mas não é um animal solto, largado. O dono é tão preocupado com seu companheiro que o mantém atado ao carrinho, para que não se perca, para que não fuja, para que fique sempre por perto.

Cachorro vira-lata é mais simpático do que os irritantes poodles, por exemplo. Essa raça sempre me irritou, e é claro que minha sobrinha tem um espécime deste ser complicado. Cada vez que eu vejo ele tendo seu chiliques me dá uma baita saudade do Jujuba, do Cyborg e do Rex, os cães de raça não definida que viveram tanto tempo que bastaram eles para acompanhar minha infância e minha adolescência.

Escrito por Cacto às 11h57
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