Cacto
   A invenção da superioridade – o ufanismo como projeto identitário do gaúcho

"O velho e onipresente ufanismo gaúcho – que muitos tentam legitimar evocando uma noção peculiar de patriotismo – fez parte de alguns debates pautados pelas denúncias de corrupção que nos últimos meses acaloraram a cena política do Rio Grande do Sul. Fosse em segmentos da imprensa tradicional ou numa prosaica roda de chimarrão, percebia-se um lamento acompanhado de espanto: como é possível tanta ladroeira, tanta ilegalidade em um estado reconhecido pela retidão de seus políticos, pela honestidade de seu povo? No desdobramento da lamúria, sobressaía o sentimento de que este estado meridional e seus habitantes são melhores do que os outros. A onipresença deste orgulho excessivo e ornado de bombacha deveria inspirar questionamentos mais recorrentes sobre a identidade gaúcha, a maneira como ela foi forjada e, sobretudo, os efeitos desse processo na sociedade. Seria ingênuo pensar em mudanças, mas seria no mínimo interessante, se não importante, que alguns lampejos de lucidez emergissem da vaga ufanista que cada vez mais se apossa da gauchada."

Este parágrafo inicia um ensaio que escrevi e estampa a capa da mais recente edição da revista Norte, que será lançada nesta sexta-feira (26/9), às 19h, na Palavraria (Vasco da Gama, 165). Na ocasião, eu e o psicanalista Mário Corso iremos debater o tema do texto. Espero vocês lá!

Escrito por Cacto às 23h32
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   Por que silenciei

Sabem por que não tenho escrito? Porque não quero falar da minha vó, dos seus 93 anos e dos dias conturbados que ela e nós andamos vivendo. Filmes que vi, as bobagens da Martha Medeiros, o ufanismo gaúcho em tempos de 20 de setembro, o governo bizarro da Yeda, o jornalismo, coisas prosaicas do dia a dia... nada me inspirava a retornar aqui. Cada vez que pensava em publicar algo, qualquer pulsão criativa era canalizada para algo relacionado à minha vó, como se, ao expor minha vida privada, eu pudesse de alguma forma sublimar o desconforto com o prenúncio de algo que pode acontecer amanhã, em um mês, em dois anos. O que há de novo? Um agravamento do Alzheimer, conforme o neurologista. Mesmo assim, felizmente ela segue reconhecendo a todos de casa. É um detalhe, mas não consigo imaginar quão estranho e doloroso será um dia entrar no quarto da minha vó e não ser reconhecido. Mesmo com a debilidade física e com a ocorrência de momentos de aparente transtorno das idéias, mesmo que ela queira ir para casa - com o detalhe de ela estar na mesma casa que habita desde 1950 -, mesmo que por vezes chame pelos pais, evidenciando que todos somos crianças quando frágeis, mesmo com tudo isso ela sabe muito bem quem nós somos. Numa das duas recentes madrugadas em que minha mãe, sobressaltada, chamou eu e minha irmã, temendo a iminência de algo mais grave e definitivo, minha vó ficou num estado sonolento. Esmorecida, quase inconsciente. Quando esboçou alguma reação, quando conseguiu estabelecer um precário diálogo, minha mãe disse pra ela: "Mãe, olha, o Vitor está aqui... veio lhe ver... vai dormir aqui hoje". E a vó, olhos fechados, com a fala meio enrolada, afirma: "Ah, que bom, gosto muito dele". E é por esta declaração em meio ao torpor da crise, e é por tudo que ela representa em minha vida, e é por causa da oscilação de saúde e humor, e é, sobretudo, pela vida que se equilibra em dias de fragilidade que não consigo pensar em muitas outras coisas para escrever aqui. Posso soar piegas, posso parecer acossado, posso tratar de algo que não diz respeito a vocês...

Para aqueles que têm me questionado sobre o silenciamento deste blog, acho que com esse texto explico. Tentarei voltar mais seguido. E agradeço pelo interesse.


Escrito por Cacto às 01h04
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