Cacto
   Em cena, de novo - ainda bem

Estamos em época de Porto Alegre em cena!

Lembro da primeira edição, lá em 1994, quando o século ainda era outro. Foi um susto. A capital da província meridional nunca tinha visto tanta movimentação em torno de teatro. Todas as salas da cidade estavam ocupadas com espetáculos. Filas e mais filas para se comprar ingressos. Depois das apresentações, a função seguia. Afinal, era festa, era noite, era cultura. Naquela época eu trabalhava na Zero Hora. De início, o jornal não deu muita bola para o projeto. Numa reunião de editores, ficou claro: ZH não soube avaliar a força do Em cena e não dimensionou corretamente a cobertura. Rapidamente foi feita uma mobilização na redação para recuperar o tempo e repórteres foram a campo ver o que se passava nos palcos, na cidade.

Como é um festival grande, com produções locais, de outros estados, de outros países, há uma diversidade de portes e qualidades, o que é muito legal. Já vi muita merda, mas muita coisa bacana. Aliás, muita coisa indispensável pude conhecer nesses 15 anos. O Rubem Corrêa assustadoramente gigante no papel do filósofo Althusser em "O futuro dura muito tempo", de Márcio Vianna, e a Vanda Lacerda no papel de Hèlene, a esposa assassinada pelo próprio companheiro. Os mineiros do grupo Galpão, dirigidos por Gabriel Villela, que se apropriou de elementos da cultura popular brasileira para encenar "Romeu e Julieta". "La Ilíada", montagem de um grupo boliviano dirigido por César Brie apresentada num armazém do cais do porto. Eu, com meus preconceitos, não dava nada por esse espetáculo. Foi uma das coisas mais fantásticas e emocionantes que já vi, teatro na pele, visceral, atualizando o poema épico grego com personagens e situações da política latino-americana em tempos de ditadura. A companhia de dança Sankai Juku, de Ushio Amagatsu, do Japão, e seu delicado/vigoroso "Kagemi", expressão contemporânea do Butô. A Pina Bausch. A Norma Aleandro em "La Srta de Tacna". A importante, histórica e merecida vaia que a Denise Stoklos recebeu no Salão de Atos da UFRGS. O show do Goran Bregovic, um compositor ensandecido que eu conheci nas trilhas dos filmes do Kusturica. "Boca de ouro" e "Cacilda!", do Zé Celso. O Madredeus e a voz de Tereza Salgueiro. "Orestea – Uma Commedia Orgánica?", do italiano Romeo Castellucci. A descoberta inolvidável da Maria João, cantando descalça e encabulada no palco do São Pedro, dissimulando uma voz e uma gana descomunais. E tanta coisa mais...

Ontem à noite foi a vez de ver ao vivo Laurie Anderson. Eu tinha um dever cívico-histórico-cultural comigo mesmo de vê-la. Quando eu entrei na faculdade, essa artista multimídia era uma das referências do momento. Performance, aparatos tecnológicos, música eletrônica com vídeo em pleno anos 1980. Não tinha muita noção do que encontraria pela frente. Um monte de aparato? Muita imagem e som? Que nada... foi quase um recital. Laurie e seu violino eletrônico, suas programações e três músicos. Velas no palco. Roupas pretas. Apenas. E um contundente e atualizado discurso político entoado ao longo de quase todo o espetáculo. Ela não critica - de maneira ora sutil, ora irônica - apenas com o patético Bush, mas com os Estados Unidos em si. O governo bélico e invasor, os cidadãos preconceituosos, o corporativismo, o cinismo travestido de discurso de especialista para justificar qualquer tipo de insanidade ou arbitrariedade. Não foi um show de arrebatar platéia. Não teve a catarse de outros inícios de Em cena. Mas foi um discurso que todo americano - e todas as pessoas - deveriam ouvir/ver.


Escrito por Cacto às 12h04
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