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Nada de porão ou machado
Primeiro foi o cara que raptou uma garota e a deixou presa durante anos no porão de sua casa. No mês passado, descobriu-se que Joseph Fritzl manteve uma filha trancafiada, também no porão de sua casa, durante 24 anos. O monstro fez mais: violentou a moça e teve sete filhos com a própria filha, sendo que três também viviam confinados. E nesta quarta-feira, outra revelação proveniente da Áustria, assim como as outras duas atrocidades: um cara foi à polícia e confessou ter assassinado com golpes de machado a mulher, a filha, os pais e o sogro. Alegou que queria poupar a família da vergonha, já que ele faliu.
Não sei quanto a vocês, mas não pretendo visitar nenhum austríaco que tenha porão ou machado em casa.
Escrito por Cacto às 00h54
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Egos inflamados + carroceiro fake + dignidade
Egos inflamados não convivem na mesma fronteira Nunca prestei muita atenção no Fronteiras do Pensamento, evento que desde o ano passado pretende se converter em espaço de estudos avançados por conta dos renomados conferencistas que traz para Porto Alegre. O aparente desprezo deve-se, num primeiro momento, à minha atividade profissional. Sou um professor de várias disciplinas concentradas no turno da noite. Portanto, quase nunca consigo participar de eventos noturnos que não sejam as aulas. Quando é anunciada a realização em Porto Alegre do espetáculo de algum artista que eu aprecie, imediatamente tento descobrir em que dia da semana cairá, num reflexo movido por uma quase sempre vã esperança de poder ir. Se é no fim de semana, comemoro, embora os preços cada vez mais pornográficos dos ingressos acabem por inibir meus impulsos. O mesmo vale para o Fronteiras - o compromisso com os alunos impede qualquer possibilidade de eu participar. Com o desenrolar do megaevento, outros motivos, de natureza totalmente subjetiva, trataram de inibir cada vez mais meu entusiasmo pela função toda. Se, a princípio, era um mecanismo de preservação, já que eu não poderia mesmo participar, a cada edição ia esmaecendo alguma nesga de interesse que pudesse persistir. Os tipos de comentários que os participantes faziam após a noitada, o perfil médio do público, a comoção na mídia - não esqueçamos que há anúncios nas páginas de cobertura do evento... Tudo isso começou a me incomodar. Cansei de ver figuras rasas tecendo comentários empolgados sobre as discussões mas, paradoxalmente, o que menos discutiram foram as idéias, e sim o caráter histórico do evento, a efervescência, a produção, as pessoas... E só. Mais do que o conhecimento, a partir das conferências permanecia a moldura, o holofote. O barraco que rolou entre os egos do Gerald Thomas e do Fernando Arrabal foi mais uma evidência de que algo não faz sentido. A polêmica não emergiu das idéias, do confronto entre dois artistas, dois intelectuais, dois pensadores. A polêmica nasceu do chilique de dois caras. Sintoma de que há algo de equivocado no time escalado, no formato, na pretensão.
A bobagem do colunista travestido de carroceiro Uma das maiores bobagens que já vi na imprensa gaúcha foi a história do Paulo Sant'Ana se travestir de carroceiro. Por quê? Qual a razão? Qual a eficácia? Qual o resultado? Sinceramente, não sei. Consigo entender quando um repórter participa de uma determinada situação, acompanha um processo, testemunha uma tarefa para, depois, criar uma narrativa sobre uma certa noção de realidade. Não gosto de jornalistas que omitem sua identidade, não suporto jornalistas super-heróis que se transformam em notícia, assim como acho câmera oculta e microfone escondido recursos de duvidosa validade ética. Pois o Sant'Ana guiando uma carroça, mais do que uma tentativa de evidenciar a questão dos carroceiros, me pareceu uma aposta equivocada. Sem falar que o enfoque em torno do tema em nada mudou. Muito se fala dos transtornos no trânsito e dos - imperdoáveis - maus-tratos a que são submetidos os animais, mas pouco se evidencia as circunstâncias que impelem milhares de sujeitos a ganhar seu sustento catando lixo com carroças.Ainda o Tuio... No texto publicado pela Zero Hora sobre a morte do Tuio Becker, uma informação bem nas linhas finais dizia que ele deixava irmãs e o Wanderlei, companheiro de mais de 40 anos. Não esperava que o jornal publicasse isso no obituário. Fiquei surpreso e contente. Foi uma manifestação de respeito ao Tuio, ao seu casamento de décadas e, sobretudo, uma evidência de que algumas coisas começam a mudar, mesmo que lentamente.
Escrito por Cacto às 03h35
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Bahia + Havana = noite do último sábado
Quando um show é baseado em um disco já lançado, de antemão sabe-se do que se trata, pois há um repertório garantido para o espetáculo. Mesmo assim, sempre fico com expectativa quanto ao que ouvirei. Como o álbum da Maria Bethânia e da Omara Portuondo é curto, pouco mais que 40 minutos, certamente deveria haver mais canções na apresentação das duas neste sábado, se não seria estelionato, ainda mais com os preços cada vez mais polpudos cobrados pelos ingressos. Pois com as cortinas fechadas, a banda formada por brasileiros e cubanos - assim como a nacionalidade das cantoras - deu início às duas horas de beleza e sinais do que seria a noite. Logo em seguida, com os panos ainda cerrados, o vozeirão da baiana ressoou pelo teatro. A boca de cena foi desvelada e surgiu uma sempre vestida de branco Bethânia a cantar "Cio da terra", iluminada por tons azuis. Que imagem! Que voz! Uma celebração.
"Cio da terra"! Caramba... por onde iria a seleção? Além do disco que a dupla gravou, o programa enveredou por belezuras antigas que marcaram a carreira das duas. De Bethânia, teve "Cálix bento", "Gente humilde", "Partido alto", "Negue", "O ciúme", "Doce/A Bahia te espera", "Escandalosa", "O que será?". Omara, chamada de Billie Holiday cubana, trouxe do Buena Vista Social Club delícias como "Dos gardenias". Em cena, elas se alternavam em seqüências individuais e parcerias. A senhora de Havana, pouco afeita as canções brasileiras vertidas para o espanhol, em boa parte da noite se valeu das letras. Sua voz, em alguns momentos, saía como se fosse uma frase emendada na outra, sem parar, sem respirar... um murmúrio, um gorjeio, uma onda... parecia um mantra, um salmo, como fazem desde sempre as velhas negras pelas vielas de Cuba. Das duas, era a mais desenvolta, fora do roteiro. Estava se divertindo e feliz, mesmo que no início parecia que não agüentaria o tranco. Talvez por isso a euforia de todos quando ela ensaiou uns passinhos requebrados e sacudiu os ombros ao som dos músicos.
Bethânia dispensou as letras, menos em "O que será?", mas, mesmo assim, em determinado ponto da música ela desprezou a folha e a largou no ar, num movimento dramático, como boa parte de sua atuação. Ela não canta... ela incorpora. Tanta religiosidade, tanto misticismo, tanta Mãe Menininha pra cá e pra lá, tanto amuleto, é tanta divindade que ela mesma se tornou uma espécie de divindade. Descalça no palco, desliza na ponta dos pés, rasga o vão com movimentos repetidos do braço curvado, arruma a farta cabeleira grisalha e, antes de se retirar, toca o assoalho e fica parada, em algum transe, alguma prece, algum rito particular testemunhado pela platéia lotada e ensandecida pelo bis.
Escrito por Cacto às 18h56
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