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Eu transbordava de felicidade com meu amigo Tuio Becker
Quando comecei a trabalhar no Segundo Caderno, de certa forma já era bem conhecido do Tuio. Logo que entrei na Zero Hora, ainda estudante de Jornalismo, eu atuava como auxiliar de pesquisa. Nessa função, eventualmente selecionava material para subsidiar textos do então crítico de cinema do jornal. Depois que viramos colegas de editoria, por algum tempo sentei bem perto dele. Entre uma pauta e outra, era com ele que papeava. Quando eu levava chocolate, era com ele que dividia a barra, e invariavelmente o Tuio tinha que ir para o bar tomar café. Eu ia junto, claro. Quando eu tinha 24 anos – e lá já se vão quase 14 anos... –, resolvi morar sozinho. Comentei com o Tuio, e ele me disse que tinha um apartamento de um quarto para alugar no prédio dele, na rua Sarmento Leite. Acabamos virando vizinhos. O apartamento dele era bem bacana. Todo um lance de escada foi incorporado ao imóvel para maquiar o número de andares, evitando assim que fosse colocado elevador no prédio. O resultado é que, além do apartamento em si, o Tuio tinha uma bela escadaria dentro de casa. Em cada degrau havia livros, mais livros e livros. Alguns objetos de arte e mais livros. Uma escadaria de livros! Achava o máximo aquilo. Quando comecei a me ensaiar de maneira mais pretensiosa no fogão, Tuio foi um dos meus primeiros comensais, sentado à minúscula mesinha que eu tinha na cozinha, já que mobília era o que menos se encontrava na sala. Depois do almoço na Zero Hora, íamos vasculhar o balaio de livros e filmes usados da loja dos Mensageiros da Caridade, na Ipiranga.
Eu ficava meio sem jeito de perguntar sobre filmes para ele... imaginava que todo mundo fazia isso e ele deveria achar um saco. Mas como resistir? Principalmente quando se tratavam de obras antigas e clássicos. Ele sabia tudo. Sabia dos bastidores. Sabia das filmagens. Sabia contextualizar, avaliar. Sabia, sabia, sabia. Espécie de oráculo, a ele o pessoal do Segundo Caderno recorria sobre todos os assuntos, já que ele não era homem de uma arte só. Permanentemente bem humorado, mas dono de uma lingüinha ácida e oportuna. Pequenos chicotes verbais irresistíveis.
Depois que ele se aposentou do jornal, eu e uma amiga, a Rejane, editávamos uma revista online chamada Redemoinho. Resolvemos convidar o Tuio, o cara que iluminou a cinematografia de muita gente durante anos, para escrever na nossa publicação. E não é que ele aceitou? E ainda ia nos levar o texto no apartamento da Santo Antônio, onde montamos nossa redação improvisada, e nós babávamos a cada história, a cada comentário, a cada estalo se sua língua.
Eu não tenho bem certeza quando o Tuio morreu. Se em algum momento qualquer nos últimos anos, quando o Alzheimer lhe tragou para um universo de esquecimento total, ou na noite passada, quando, finalmente, ele descansou. Sempre que eu pensava nele, sempre que lia algum escrito do passado, sempre que contava uma história dele ou sobre ele, sentia um pesar, um arremedo de luto, uma pequena dor que brota quando lembramos de alguém querido que partiu. Hoje, quando soube da morte de fato do Tuio, senti uma angústia, um desconforto, uma tristeza requentada. Soube tarde demais... soube na hora em que já não era mais possível participar do velório, da despedida. Fiquei meio chocado, paralisado, olhando o relógio. Queria reverter o tempo para ainda poder me despedir. Queria reverter o tempo até uma noite qualquer na Sarmento Leite, quando eu transbordava de felicidade com meu amigo Tuio Becker.
Escrito por Cacto às 21h25
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Algumas coisas sobre fatos das últimas semanas
Quem é amigo de picareta, picareta é. Ou não?
Corrijam-me se estou sendo exagerado, mas vocês não acham meio difícil de engolir esta história de que se a criatura é amiga do cara, mesmo que ele seja um salafrário, mentor de um esquema de roubalheira geral, notório picareta, pouco importa se ele é criminoso? Se é amigo, não há nenhum problema em tomar chope com ele, mesmo que ele seja ladrão? Comparações não costumam ser boa tática, muito menos quando se refere ao próprio autor do texto, mas me intriga isso. Olho para meus amigos e, sinceramente, não tenho criminosos ao meu redor. E por quê? Porque sou seletivo. Pode ser um critério tácito, um mecanismo presumido, quase inconsciente, mas não convivo, não quero me relacionar com gente falcatrua. Se descubro algo deste teor, perco o encanto, me encolho, saio de cena. O resultado é que meus amigos não dão desfalque de R$ 40 milhões, nem estão envolvidos em delitos menores. Por isso, senhora governadora e seu entorno todo de assessores, secretários etc., não me venham com este papinho de que sou amigo dos meus amigos mesmo que eles tenham praticado algum crime e seguirei sempre ao lado deles. O mesmo vale para o senhor do Tribunal de Contas do Estado que vai se solidarizar com outro picareta do esquema do Detran na própria casa do cara e acha que não tem nada demais nisso. Ou algo existe de mais encriminador, ou essa turma precisa escolher melhor os amigos, até mesmo em razão dos comprometimentos assumidos em razão dos cargos e postos que ocupam.
Estou exagerando ou não?
1000 balões e um crânio cheios de gás hélio
O cara a essa altura deve estar morto. Se não, coitado, deve estar apavorado, já que o socorro ainda não chegou. Mas francamente: o que tinha na cabeça aquele padre que se pendurou em mil balões em total desatenção aos mínimos critérios de segurança? Na verdade, eram 1000 balões e um crânio cheios de gás hélio. Essa provável morte é um absurdo total. O que leva uma criatura despreparada a se meter numa enrascada dessas? O quê?
A fã e o fortão
A governadora da gauchada foi para os Estados Unidos. Conforme ZH, ela estava bem entusiasmada com a possibilidade de se encontrar com o governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger. Acho que será comovente. Fico feliz com esse passeio. Tomara que ela se divirta bastante. Tomara mesmo. Se ela for esperta, trará uma foto autografada para colocar na sua casa nova. Aquela comprada por R$ 700 mil logo depois que se encerrou a campanha, e parece que com o apoio do Lair Ferst, o mesmo do chope que derrubou o secretário competente e querido por todos.
Eta, turminha boa!
Os donos da mídia se reuniram
Nesta semana houve uma reunião em Brasília para discutir alterações na Lei de Imprensa e, entre outras coisas, as ações judiciais movidas contra veículos. Falaram de temas importantes pra chuchu, como cerceamento da liberdade dos veículos e autocensura dos profissionais. Participaram os donos da RBS, do Estadão, da Globo, da Folha e da Band. Pelo menos são os que eu me lembro. Não sei se esqueci algum nome... mas que todos eram donos, ah, isso eram. E é justamente isso que considero estranho. Ou sintomático.
Escrito por Cacto às 17h22
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