Cacto
   O dia em que extraterrestres invadiram Porto Alegre

Quem já atuou ou atua em jornal sabe que a sexta-feira pode durar bem mais de 24 horas, e não há Jack Bauer que consiga reverter os ponteiros - até porque o relógio dele é digital. Quando eu trabalhava na edição da Geral, na Zero Hora, a jornada começava lá pelas 13h e nunca terminava antes da meia-noite, podendo entrar madrugada a dentro. Primeiro nos dedicávamos à edição de sábado e depois, à de domingo. Embora houvesse momentos em que os dias se sobrepunham, tantas eram as coisas a se fazer. Na verdade, rolava uma grande loucura. A edição de um jornal é um processo altamente industrial. A cada intervalo de tempo, tantas páginas precisam ser finalizadas na redação para que outros setores dêem continuidade ao processo. Por isso se corre muito, por isso o relógio é crucial, por isso os jornalistas se estressam e se escabelam - o que não é bem o meu caso, se é que me entendem, caros 17 leitores. Se não fosse assim, se não houvesse o chamado fluxo de páginas, o pessoal que faz o parque gráfico funcionar não teria como finalizar uma edição inteira ao mesmo tempo.

Quando se terminava a preparação do jornal de sábado, normalmente o que tem menor número de páginas da semana, se respirava um pouco mais. Alguns iam tomar café no bar ou engolir um sanduíche, até porque jantar é coisa de gente normal. Cinema à noite? Ha-ha-ha! De novo: HA-HA-HA! Festa na casa de amigos? Quando se chegava, ou estavam na sobremesa, ou o avançado nível de alcoolismo evidenciava que se perdeu o melhor da noite. Para quem ficava na redação, lá pelas tantas começava o festival de bobagens. Quase todos na Geral entravam numa catarse e não paravam de falar besteira, rir, contar piada, rir de novo, lembrar infâmias alheias e as próprias também. Se não fizéssemos isso, seria árduo demais aguentar o trabalho em plena noite de sexta-feira ou madrugada de sábado. Às vezes nos empolgávamos tanto com a alopração que os sisudos de outras editorias faziam shhhhhhhhhhhhhh. Mas chegava um momento em que passava a euforia e nos compenetrávamos, talvez um tanto tristes, e percebíamos que o mais sensato era ficar quieto e encerrar logo aquela função toda.

Às vezes eu saía tão cansado do jornal que não sobravam forças pra enfrentar a noite, mesmo que um festão estivesse me esperando. Se fosse pra casa, então, aí mesmo não fazia nada. Houve uma noite em que eu pretendia tomar banho, me perfumar, colocar uma roupa legal e rumar para o pecado. Tolinho... antes do banho, deitei na cama alguns segundos. Acordei um pouco antes das 8h. Se corresse, dava tempo de pegar o início da missa.

Mas voltemos à redação. Quero contar sobre a noite em que os discos voadores atacaram Porto Alegre. Eu já estava naquele momento do mau humor, pós-euforia. Nada mais me interessava, a não ser terminar a edição das duas páginas dominicais sob minha responsabilidade. O telefone tocou, atendi de maneira mecânica, mecanicamente falei alô e ouvi:

- Meu filho, tem um disco voador perto do Iguatemi.

Lembro que baixei a cabeça, apoiei a testa na mão, fechei os olhos e balbuciei:

- Como?

- Tem um disco voador perto do shopping.

Mergulhei num silêncio dramático demais, a ponto de a aflita senhora perguntar, no outro lado da linha:

- Meu filho, está me ouvindo?

Ainda por cima ela me chama de "meu filho"... Vaca! Toda gentil na hora de dar trote.

- Disco voador? - arrisquei confirmar.

- A-ham! Dois, na verdade. Ficam de um lado pra outro. Vocês precisam vir aqui.

Num derradeiro ato de polidez, pedi seu nome e disse que iríamos mandar uma equipe. E boa noite. E obrigado pela informação, minha senhora.

Voltei para minhas duas páginas. Texto pra cortar, legenda da foto pra terminar, título, destaque, linha de apoio... e o telefone tocou de novo. E eu atendi de novo. E um outro terráqueo acometido de um súbito desejo de fazer galhofa com um operário da imprensa disse pra mim:

- Cara, tem disco voador voando aqui nas bandas do Iguatemi.

Estão de sacanagem, justo comigo... Bando de babacas! Qual dos meus amigos, qual colega de jornal que saiu lá pelas cinco da tarde e agora está exercitando sua verve humorista?

- Disco voador, é? Sei...

- Cara, é sério. Tu tem que acreditar, meu...

- Sei...

- Vocês vão vir pra cá?

- É possível... é possível... vou falar com minha chefe.

Nestas horas, sempre é bom empurrar a decisão, ou pelo menos uma suposta decisão, para o chefe. Pelo menos o babaca vê que tu és um chinelo que não manda nada e pára de encher o saco.

Alguns minutos depois, outro telefonema. E mais um. E outro. Puta que pariu! Parem as máquinas! Chamem Orson Welles! Chamem a imprensa: Porto Alegre está sendo atacada por discos voadores. Que uma velha louca ligasse numa sexta-feira para o jornal dizendo que viu um disco voador, tudo bem, dava pra entender, afinal, os carentes gostam de conversar com jornalistas. Se um babaca telefonasse pra dizer a mesma coisa, ele é um imbecil. Mas se mais duas, três, quatro, cinco, seis, vejam bem, SEIS pessoas de diferentes endereços procurassem o jornal pra dizer que viram discos voadores, terráqueos, se preparem: o apocalipse se avizinha! Na boa, algo estava acontecendo. E o jornal precisava averiguar o que era.

Fui conversar com a Rosane Tremea. Ou com o Ricardinho... não estou bem certo. Talvez os meus dois chefes estivessem lá. Claro, riram da situação, mas fazer o quê? E se Porto Alegre estivesse tendo a honra, a prerrogativa de ser invadida por discos voadores? Aí, pela primeira vez na história deste planeta, intrépidos jornalistas poderiam noticiar o ocorrido. Eta, nós!

Havia um repórter de plantão. Fui até ele e disse:

- Cara, tem uns discos voadores lá no Iguatemi... vai ver o que é.

Ele deu um sorrisinho... mas entendi o que ele pensou. Em respeito aos leitores com menos de 18 anos, não reproduzirei.

- É sério, vai lá. Mais de cinco pessoas ligaram dizendo que viram disco voador perto do shopping. Não deve ser, mas vamos lá.

Claro que o "vamos" significava "vai". E hoje, quase dez anos depois, percebo que soou muito trouxa eu dizer "não deve ser...". Óbvio que não era nada. Mas e se fosse? O repórter percebeu que não era piada. Resignado, pegou o bloco, a caneta e saiu. Falei com o fotógrafo de plantão. Ele foi mais entusiasta quanto à possibilidade de flagrar os verdinhos azucrinando a gauchada. Tanto que logo pegou o equipamento e saiu em busca dos extraterrestres.

Pra terminar a história da invasão de discos voadores em Porto Alegre, vamos aos fatos. Naquela época, um dos lugares mais badalados na noite era o Dado Bier, quando o inferninho das gaúchas produzidas em série tal qual catálogo de tintura pra cabelo ainda funcionava na avenida Nilo Peçanha. Naquela noite, eles estavam usando dois holofotes, canhão de luz... sei lá como se chama aquilo. Enfim, eles projetaram os fachos para o céu e ficavam oscilando a luz de um lado pra outro. Tudo muito lindo, tudo muito festivo, tudo muito especial. E nós, jornalistas provincianos de uma cidade provinciana, todos desacostumados com a última moda dos festejos noturnos, fomos fazer uma reportagem sobre a noite em que os ETs saqueariam a capital dos gaúchos.

Acho que publicamos uma pequena foto e algumas linhas sobre o acontecido. Havia um fato. Ok, um fatinho... mas havia. Pelo menos os leitores ficaram sabendo da nova bossa das festas que agitavam a província.

Por último: sim, ok, reconheço que a história do relógio lá no início beirou a infâmia... mas quando pensei nela esbocei um pequeno sorriso feito guri que se acha esperto ao contar uma piada. Sorry.



Escrito por Cacto às 11h22
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   Professor, o que é pênis?

"Professor, o que é pênis?"

O semblante sério e respeitoso do aluno me desconcertou: ele estava falando sério. Ele não sabia o que era pênis e desejava (palavra perigosa neste contexto) ouvir minha explicação. Mas há horas em que o riso, ou melhor, a gargalhada surge como única reação possível. E foi o que aconteceu... eu e toda a turma estouramos os pulmões em uma grande gargalhada na aula. A essas alturas não havia mais decoro e compostura a manter - tinha que rir mesmo da pergunta. Quando consegui articular uma única frase, ressalvei: "Ninguém mostra pra ele!". A turma renovou o estoque de risos exacerbados, ao mesmo tempo em que alguém segredou ao questionador qual era o objeto que correspondia à palavra pênis. Os tons vermelhos que se apoderaram da face morena e imberbe dele evidenciaram que sua dúvida priapesca restava morta.

Para a cena anterior fazer sentido, preciso esclarecer que o aluno desconhecedor das sinuosidades do imenso capítulo fálico da língua portuguesa era chinês. Em 2007, quase 20 universitários procedentes do país que depois de amanhã vai colonizar o mundo todo vieram estudar na PUCRS por conta de um intercâmbio. Um semestre na Faculdade de Letras, outro na Faculdade de Comunicação Social, onde leciono. Nas primeiras aulas, tinha impressão de que eles não entendiam nada do que eu dizia. Para facilitar o entendimento, eu tentava falar mais devagar, escrevia as palavras mais importantes no quadro, repetia as frases... mas algo me dizia que nem tudo era compreendido. Com o tempo, parte do grupo começou a se mostrar mais situado.

Além das dificuldades com o idioma, havia um hiato no repertório. Nomes, obras e situações que aparentemente qualquer universitário do mundo conheceria eram citados e causavam surpresa nos chineses. Numa aula sobre crítica de cinema, comentei sobre Bergman e Woody Allen - e eles nunca tinham ouvido falar. Noutra, lembrei do Frank Sinatra - jamais ouviram a voz dele, muito menos conheciam o perigo dos olhos azuis. E por aí vai. Mais do que serem provenientes de uma cultura distante da ocidental, o que conta para tanto desconhecimento, imagino, é o embargo promovido pelo governo às informações, o controle sobre o ensino e a mídia e, claro, a censura. Mas foi a pouca intimidade com a língua, quero dizer, com o idioma que renderam boas histórias nas aulas. Como o lance do pênis...

Eu falava sobre precisão nos textos jornalísticos e a necessidade de averiguarmos todas as informações. Aí contei uma história do meu tempo de Zero Hora. No lançamento do filme "Boogie Nights" (1997), do Paul Thomas Anderson, o jornal dedicou duas páginas num caderno dominical à saga do ator pornô dono de um instrumento de trabalho beeeeem avantajado. Acho que media 33 centímetros, algo assim, mas tanto faz... qualquer número próximo disso já seria impressionante - para não dizer outra coisa. O fato é que o autor de um dos textos colocou uma medida, e na matéria ao lado o outro jornalista tascou uma dimensão diferente. Uma das editoras que mandava na redação fez um longo e interessante arrazoado sobre precisão jornalística. Legal mesmo, mas pairava um ar bizarro e estranho sobre a história porque o ponto de partida daquele pequeno tratado sobre exatidão era o tamanho do pau de um ator pornô. Foi essa história que eu contei em aula e que levou o chinesinho a proferir, com toda inocência, a surpreendente pergunta: "Professor, o que é pênis?".


Escrito por Cacto às 13h39
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