Cacto
   Já se passaram 11 anos

No meio da conversa trivial do domingo trivial após o almoço trivial, minha mãe comentou um detalhe sobre a ida dela ao cemitério, quando mais uma vez cumpriu o rito de visitar, limpar, arrumar - homenagear - o túmulo do meu vô, pai dela. Não me lembro exatamente o que foi dito a seguir. Paralisei com a constatação de que eu havia esquecido a data da morte do vô. O meu vô. O cara que cumpriu o papel de pai, de vô, de animador, de apoio, de parceiro, de porto. Sim, de porto - por mais clichê que a comparação possa ser -, daqueles totalmente seguros, onde eu podia atracar sem erro, sem dúvida. E eu esqueci o dia quando se completaram 11 anos de sua morte.

Uma das coisas que mais me incomodam é a dificuldade em se poder confiar plenamente, totalmente, incondicionalmente em alguém. Pela minha vida já passaram pessoas em quem eu pensava poder acreditar e confiar para sempre, mas em uma esquina qualquer o encanto se quebrou. Com meu vô era diferente. Hoje, neste momento em especial, percebo que ele era tão iluminado, tão especial, tão meu amigo, tão apaixonado por mim, tão feliz com a minha presença, tão atento, tão zeloso que fico tocado só de pensar nisso tudo. Mais difícil do que amar é querer bem. Meu vô era uma pessoa que queria bem as pessoas. E eu não tenho a menor dúvida e inflamo os dedos para escrever que ele me queria muiiiiito bem. Era uma entrega total, incondicional, recíproca.

Era o vô quem me entregava a mamadeira na cama, pra eu poder ficar mais tempo deitado em dias frios. Era ele quem fazia sardinha com cebola pra eu comer no início da noite. Era no café com leite forte dele que eu molhava meu pão. Ele engraxava todos os dias meus sapatos do colégio. Quando um motorista dormiu no volante, subiu na calçada e me atropelou, foi ele quem agarrou o cara pelo braço e o arrastou até a polícia. Era o vô que levava massinha (um pão meio doce que era vendido na padaria da esquina) para mim e meus amigos no intervalo da sessão dupla do cinema Miramar, nas tardes de domingo. Ele transformou pedaços de madeira em uma cidade miniatura onde eu trafegava com os carrinhos de madeira igualmente construídos por ele. Orientado por ele, eu pesquei 105 sardinhas na ponte que une as margens do rio Tramandaí. Atento ao universo particular dele, aprendi a prestar atenção na voz "colossal" do Nelson Gonçalves. Com ele aprendi que não se rouba. Aprendi sobretudo que se deve ser honesto. Convivendo com meu vô, aprendi a importância de se ser generoso e cordial. Aprendi a tomar chimarrão. Aprendi a ser amado.

Por tudo isso, foi com espanto que percebi o esquecimento da data de sua morte. Fiquei assustado com o distanciamento, com os desígnios da passagem do tempo. Como pude esquecer? Na minha frente, neste momento, neste exato momento de emoção, vejo num porta-retrato a foto que flagrou seu corpo magro assando churrasco na praia e eu, com sete anos, a olhar compenetrado a função toda. Essa foto é plena de memória. Eu sempre rondava meu vô, vivia em torno dele, queria estar com ele. Na imagem, ele está meio de lado, acomodando o espeto. Eu, de costas, baixinho, observando. Ao lado dele. Junto dele.

Em minha casa, existem vestígios do meu vô. Além da foto no porta-retrato, há a foto da parede, a foto em outro porta-retrato, e mais outra. Para muito além das imagens que brotam da emulsão, meu vô vive nas suas ferramentas de marcenaria que recolhi na casa da família e trouxe para a minha. Sobrevive na pasta de documentos, entre eles o atestado de óbito. Mas o Rosauro Necchi sobrevive, sobretudo, num sentimento muito peculiar, muito singular que me sugere cada vez mais, a cada dia, o significado e o sentido de se ter uma família, para bem longe das imperfeições e dos ranços que desfalcam esses grupos. Pensando no meu vô, percebo uma noção de continuidade, de ancestralidade. E isso, de certa forma, me justifica, me explica, me dá sentido e, por último, me acalenta. E o tempo parece menos agreste, menos árido, menos árduo, mesmo que já tenham se passado 11 anos.



Escrito por Cacto às 00h04
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   Leia e passe adiante

Livro não pode ficar parado, nem revista. Ambos nasceram para ser lidos. Se ficarem no armário, mofam. Na prateleira, criam pó. Por isso a Faculdade de Comunicação Social (Famecos) da PUCRS lança no dia 24 de abril o projeto "Leia e passe adiante". A iniciativa começa durante as comemorações da Semana do Livro, mas seu caráter será permanente.

A idéia é simples. Alunos, professores, funcionários ou quem circular pela faculdade leva uma publicação, cola na capa o selo da campanha e deposita o volume numa prateleira instalada no saguão do prédio. Depois, todo o material fica à espera de um futuro leitor. Qualquer pessoa pode pegar. Qualquer pessoa também pode trazer novos livros ou revistas para dar continuidade ao processo. Vai chegar um momento em que os títulos retirados retornarão à estante, confirmando a vocação das publicações: estarem em permanente movimento. Afinal, livros e revistas foram feitos para correr mundo.

Os organizadores pretendem que se que se estabeleça um regime de autogestão, portanto, não haverá controle. A estante abrigará as mais diversas obras. Livro acadêmico, de fotos ou romance. Poesia, ensaio, conto. A revista do último mês, até mesmo a do ano passado - os consultórios médicos são a prova de que revista não fica velha.

O selo traz impressa a frase "Leia e passe adiante" e ficará disponível na própria estante, a fim de que os participantes da campanha o fixem nas publicações na hora em que entregarem o material. O desenvolvimento dessa peça, do cartaz e do folheto que divulgam a iniciativa coube ao Laboratório de Tendências, e o projeto será administrado pelo Laboratório de Eventos, ambos vinculados à Famecos. Informações sobre a campanha serão publicadas neste site.



Escrito por Cacto às 14h10
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