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Antonieta foi decapitada, e eu quase quase fui demitido
Li em ZH que a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz está completando 30 anos, aí me lembrei de uma reportagem sobre esse grupo de teatro que quase me rendeu uma demissão do jornal. Nunca fui demitido sem querer. Nas ocasiões em que acabei desligado de algum emprego, foi conseqüência da minha vontade de sair, mas naquele longínquo 1993 quase perdi o controle da situação.
Era um domingo de fevereiro. Na época eu trabalhava no Segundo Caderno e estava escalado para cobrir a estréia de Se não têm pão, comam bolo, espetáculo de rua que o Ó Nós Aqui Traveiz apresentou no Parque Farroupilha. A encenação mostrava a penúria na qual o povo vivia no período que antecedeu a Revolução Francesa. A intenção era evidenciar que a situação tinha paralelo com o Brasil de então.
Segunda-feira, dia da publicação do meu texto, quase que também foi a data de minha estréia no time de desempregados. O Augusto Nunes, diretor de redação de ZH na época, odiou o que escrevi. Mais do que tudo, ele detestou o tom, as evocações, as referências. Relendo o texto, confesso que não o faria da mesma forma hoje, mas gosto de saber que enfureci o Augusto por alguns momentos. Acabei não indo pra rua. Acho que, no conjunto, pesou a meu favor o restante de minha atuação no jornal. Mas foi um dia e tanto... eta se foi...
A peça era uma criação coletiva do grupo e nela atuavam Arlete Cunha, Kike Barbosa, Rogério Lauda e Sandra Possani. A Revolução Francesa - quando a rainha Maria Antonieta disse "se não têm pão, comam brioches" ao saber que o povo passava fome e acabou perdendo a cabeça na guilhotina - inspirou o tema da montagem. O espetáculo começava com a identiticação dos personagens. Juvêncio saiu do Nordeste e encontrou no Paraná a trapezista Dorvalina. O casal partiu para São Sebastião do Caí e lá conheceu Formosa e Garaldinho do Chiqueiro. Os quatro então montaram uma trupe que começou a viajar pelas metrópoles contando histórias. Como o causo de "uma tal rainha Antonieta que mora num palácio e o povo, na sarjeta".
Acho que minha quase demissão começou a ser delineada já na abertura do texto: "A tão falada modernidade não conseguiu varrer a fome do Brasil, apenas escondeu-a embaixo de pontes e viadutos. Um de seus atos foi camuflar a miséria que a Tribo de Atuadores Ói Nós Aqui Traveiz escancarou para quem assistiu ao espetáculo de rua Se não têm pão, comam bolo (...)". No meio, escrevi, sobre o andamento do espetáculo: "Os saltimbancos da Terreira, após decidirem pela morte de Antonieta, buscaram na roda formada pelo público um voluntário para desferir o golpe da guilhotina. Antes do surgimento do algoz, um dos muitos meninos de rua, que perambulam pedindo dinheiro ou pão velho, ajudou os saltimbancos a depositarem na guilhotina o real pescoço do boneco que representava Antonieta". E para quem pensasse que a decapitação encerrava a peça, um dos atuadores bradou: 'Mas a história continua. A justiça não se faz com o horror. Esse ato cruel não adianta. A miséria que existia é a mesma de hoje em dia. Liberdade, igualdade, fraternidade'. A cabeça rolou, mas o povo que era pobre, pobre continua".
Agora, mais do que a abertura do texto, o que quase pavimentou meu caminho até o Departamento Pessoal foi este trecho:"Por mais que Marx esteja distante das vitrinas ideológicas ou que o considerem démodé, a Terreira propôs que a luta de classes resiste, principalmente no porão do planeta: o Terceiro Mundo. A miséria não morreu, cada vez engorda mais com a fome de milhões de brasileiros". Escrevi mais algumas coisas... mas admito que são bobagens que não vale a pena transcrever.
Deste episódio, o que mais me marcou, além da quase demissão, foi o silenciamento de quem editou o texto. O editor é uma espécie de cargo de confiança no jornal e tão responsável pelo que se publica quanto o repórter. Mas, em ocasiões como a que descrevi aqui, o erro, ou o que os chefes supõem ser um erro, é atribuído unicamente ao repórter que, quase sempre, acaba responsabilizado. Sozinho! Isso tudo me marcou tanto que, quando virei editor e algo dava errado, eu dividia a responsabilidade com o repórter.
Escrito por Cacto às 16h22
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