Cacto
   Eu devia ter subido o morro de novo

Ando meio nostálgico... ok, perdão pela obviedade. Recomeço: ando meio nostálgico em relação a textos antigos que escrevi quando ainda era repórter da Zero Hora. A responsabilidade é da Júlia Timm, que planejou fazer uma reportagem sobre a procissão do Morro da Cruz, em Porto Alegre. O trabalho será publicado na revista que edito com os alunos do sétimo semestre. Quando ela apresentou a pauta, logo lembrei de uma história que seguidamente aparecia nas reuniões da editoria Geral, da ZH. Um bom repórter precisaria ter feito, pelo menos, três coberturas: motim no Presídio Central, festa de Navegantes e procissão do Morro da Cruz. Naquela época eu era editor. Antes, já havia saído às pressas da redação pra ver que confusão acontecia no maior presídio gaúcho. Também já tinha me esbaldado retratando a fé que, em pleno calor de 2 de fevereiro, tira de casa milhares de pessoas que vão homenagear a padroeira de Porto Alegre. Faltava o Morro da Cruz... então percebi que era uma perfeita oportunidade para voltar à rua. Como ninguém estava muito a fim de fazer a empreitada de subir quase 2 quilômetros morro acima acompanhando os fiéis, me escalei para trabalhar na Sexta-Feira Santa. Fui, tomei um torrão, me cansei, mas no sábado que antecedeu à Pascoa de 1997 o jornal publicou um dos textos que eu mais curti fazer.

Ele começa assim: "A aparição de três anjos montados em pernas-de-pau avisa a comunidade do Morro da Cruz que a mais importante, emocionante e conhecida história do Cristianismo estava para ser encenada num pobre lugar de Porto Alegre. Como ocorre desde 1960, os moradores do morro apresentaram ontem à tarde o espetáculo A Paixão de Cristo - Procissão do Morro da Cruz". Mais adiante, escrevi: "Antes que o diretor de teatro Camilo de Lélis comece a narrar o espetáculo, os arautos angelicais abrem caminho entre o público espalhado à frente do Santuário São José do Murialdo. As crianças se maravilham com os anjos de nariz de palhaço, corpo de boneca de pano, pernas gigantes e asas de querubim". Outro trecho, que se refere ao desenvolvimento da caminhada: "As ruas se agitam com as milhares de pessoas que se espremem entre os cordões das calçadas. Cachorros latem em volta dos atores e dos fiéis. Janelas se abrem, emoldurando rostos que liberam preces inaudíveis. Crianças correm de um lado para o outro e desafiam os fortes homens que isolam com uma corda os atores durante a caminhada. Os chicotes estalam. Parecem de verdade - às vezes machucam mesmo. Os dois prisioneiros condenados junto com Jesus de Nazaré lançam-se contra o público para abrir caminho. A gurizada desafia, avança, recua".

Perto do final, contei: "Na primeira parada, Cristo encontra sua mãe. Maria (a excelente atriz Lígia Rigo) dá o mais silencioso, o mais doloroso, o mais sofrido e o mais derradeiro beijo em seu filho atraiçoado. A despedida é abortada por um legionário romano que puxa os cabelos de Cristo para recomeçar o calvário. Na segunda parada, Verônica se solidariza com a penúria do Mestre e enxuga com um pano o sangue e o suor que tingem a face do condenado. Sua imagem fica gravada no trapo, e Verônica o sustenta como um estandarte do sofrimento".

Aí finalizei: "No alto do morro, Cristo é crucificado. Neste momento, e durante toda a escalada, as cenas chegam turvas aos olhos emocionados de parte das pessoas que foram testemunhas dos últimos momentos do Redentor. Quando o Nazareno ressurge, foguetes estouram no topo do morro. Moradores libertam pombos no pátio dos seus barracos. Todos aplaudem. O padre brada 'Viva Jesus, vida o povo de Deus, viva o Morro da Cruz". Termina fazendo uma elegia à comunidade do morro, que padece com o estigma da violência, mas é autora de um dos mais belos ritos religiosos e culturais de Porto Alegre".

Depois de reler minha reportagem, fiquei com remorso de não ter acompanhado a Júlia na escalada.

(Obrigado, Carol, por ter localizado o texto no arquivo do jornal.)



Escrito por Cacto às 17h08
[] []


 
   Irritação porto-alegrense

A primeira-dama do município de Porto Alegre cantando "Porto Alegre é demais" nas propagandas da rede Zaffari - que são criadas pela agência de propaganda de um parente dela - durante a semana de comemoração do aniversário da cidade. E não é de agora...

Pode haver algo mais irritante?

Escrito por Cacto às 01h44
[] []


 
   O mundo transmutado em fábula como possibilidade de redenção

Katarina, em seu blog (palestinadoespetaculo.zip.net) e em sua fala fulgurantes, já havia bradado aos espíritos menos incautos: prestem atenção no filme "O labirinto do Fauno" (2006), de Guillermo Del Toro. Com atraso, apenas ontem assisti ao DVD. O filme se passa na Espanha de 1944, quando o ditador Franco já havia vencido os grupos republicanos de esquerda, embora houvesse focos de resistência encrustados nas matas e cavernas. Conforme escreveu Katarina, a Guerra Civil Espanhola foi a última em que as pessoas lutavam não por dinheiro, petróleo ou território, mas por um mundo livre. Se somente esse mote não fosse suficiente para fazer da obra indispensável, há que se dizer que suas qualidades fílmicas são vastas. Fotografia, roteiro, interpretações, música, montagem, direção de arte... O que se vê é uma criação autoral, singular, elaborada, densa, provocativa, tocante, metafórica, alegórica, fantástica. Cada vez mais devemos prestar muita atenção em obras que tenham a chancela de três mexicanos: o diretor deste filme, Alejandro Gonzáles Iñárritu e Alfonso Cuarón (também produtor de "O labirinto...").

Ofélia é uma garota que acompanha a mãe grávida e fragilizada até o interior, onde encontra o padrasto, um capitão fascista. A missão do militar é eliminar o foco de resistência na região. Na casa, encontra apoio e acolhida com a empregada. Acossada pelos fatos e pela indiferença e hostilidade do homem que era forçada a chamar de pai, Ofélia, uma apaixonada por contos de fada, estabelece uma dupla realidade. Ao vasculhar as redondezas, guiada por um tipo de louva-a-deus que se transforma em fada, descobre um antigo labirinto que conduz, através de uma trilha subterrânea, até um velho Fauno. Ele desvela a ancestralidade da garota: uma princesa que desapareceu do Reino das Fadas. E se antes da lua cheia ela executar três tarefas apresentadas pelo ser mitológico, tem a chance de recuperar sua posição e reinar ao lado do pai. Este universo aparece durante todo o filme de maneira paralela e, por vezes, sobreposta à outra realidade em que Ofélia se encontrava, pautada pela brutalidade das ações do capitão - apoiado pelos ricos e pela Igreja - em exterminar os resistentes. A garota era o ponto de convergência entre os dois mundos, e esse jogo, a tensão entre as distintas esferas, se estende até o final, quando o público mais uma vez, uma derradeira vez, se vê confrontado com duas possibilidades, duas noções de real - afinal, real é o que cada um toma por real, né?

Talvez um dos aspectos mais interessantes do filme sejam os mecanismos emocionais, puramente subjetivos que as pessoas precisam urdir para sobreviver à adversidade, ao arbítrio, ao horror, à guerra, à liberdade podada. E se os sujeitos são crianças, o mundo transmuta-se em fábula como possibilidade de redenção, de sublimação.

Katarina disse em seu blog que, tomada por um ímpeto professoral, queria encher um ônibus de alunos e levar todos a assistir ao filme. Na verdade, ela escreveu muito mais: "(...) me deu um certo instinto de professorinha de colégio, a encher um ônibus escolar e levar todos os meus amigos de esquerda, inclusive os que foram torturados pelas ditaduras, para ver, como uma prova de que não devemos tremer por dentro diante da eternidade da forma da verdade, da liberdade e do compromisso". Como a programação dos cinemas hoje é outra, conclamo, inspirado pela Katarina: peguem na locadora, comprem o DVD. Vejam "O labirinto do Fauno" e descubram os descaminhos de Ofélia/da Espanha em busca da liberdade.

Escrito por Cacto às 12h50
[] []


 
  [ ver mensagens anteriores ]  
 
 
HISTÓRICO