Cacto
   Nem uma legítima ilusão à la Martha salvaria o país invadido

Martha, aquela mesma, em crônica recente escreveu que costumava evocar o Tibete como metáfora para tranqüilidade, absoluta paz, introspecção, suavidade, felicidade plena, compreensão mútua etc., enquanto o Timor Leste representaria o oposto. Ha-ha-ha.

No segundo parágrafo, ela avisa que o pequeno território está no noticiário internacional em razão da ofensiva chinesa que tenta abafar os protestos dos tibetanos contra a invasão iniciada em 1950 pelo país que logo mais vai sediar os Jogos Olímpicos. No terceiro, arrisca: "Quem conhece bem a história tumultuada do Tibete sabe que essa ilusão de ele ser um país transcendental é apenas isso, uma ilusão - mas quem de nós não precisa de uma ilusãozinha de que a paz sobrevive em algum lugar? Quando vi as imagens de monges chutando vidraças e atirando pedras em edifícios públicos, pensei: o mundo acabou mesmo. Monges tomados pela raiva! Revoltados! Agindo como estudantes da UNE em 1968! Como dói o desfacelamento de um estereótipo.".

Se ela tenta sugerir que sabia, de fato, o que se passava no Tibete, como manter uma ilusão, um estereótipo em relação a algo tão delicado quanto a invasão de um país por outro, quanto a aniquilação de uma cultura, quanto o silenciamento de um povo na marra, no cacete? A situação é tão delicada, Martha, que os últimos jornalistas estrangeiros que ainda trabalhavam na região foram expulsos do Tibete para que o mundo não saiba o que se passa lá. Milhares de chineses armados se dirigiram ao local para conter os protestos, que brotaram em diversos pontos além de Lhasa, a capital. E a ONU, esta organização tantas vezes protagonista de atitudes risíveis e inócuas, como se estivesse comandada por titereiros transnacionais, não vai conseguir quase nada, pra não dizer nada, pois a China é membro permanente do seu Conselho de Segurança, o que lhe garante veto. Ou seja, nenhuma resolução condenando a repressão chinesa aos protestos tem chances de aprovação. E como o potencial lucrativo oriundo dos 1,3 bilhão de consumidores chineses vale mais do que a agonia dos pouco mais de 1 milhão de tibetanos budistas, qual país está a fim de se indispor contra a economia que mais cresce no mundo? Neste caso, nem uma legítima ilusão à la Martha salvaria o país invadido.

Escrito por Cacto às 18h46
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   Um jornalismo insubordinado aos manuais de instruções

Não quero diminuir o espaço ou a importância do jornalismo praticado conforme modelos tradicionais, embora o empobrecimento dos textos, o nível raso das apurações e a incipiência das pautas sejam mais perceptíveis em redações com experiências mais canônicas, principalmente nas de grande porte. Feita a salvaguarda ao lead, à pirâmide invertida e quejandos, quero enaltecer as múltiplas possibilidades de um jornalismo insubordinado aos manuais de instruções.

Nas várias disciplinas que ministro na universidade, preciso ensinar desde os rudimentos da forma mais elementar de notícia até experiências narrativas mais elaboradas. Na segunda possibilidade, busca-se um olhar menos padronizado e engessado desde a formulação da pauta, a maneira como se lê o mundo e se recorta a realidade, passando por um exercício de reportagem, uma apuração mais atenta, sensível, aprofundada e sem pressa, até chegar a uma escrita que dimensione e contextualize os fatos na grandeza que eles têm e merecem e que também busque nas palavras a amplitude de recursos permitidos pelo idioma. Sem escorregar para pieguices e maneirismos.

Nos últimos semestres, busco sensibilizar os alunos para estas questões, principalmente com a criação, na faculdade onde leciono, de uma disciplina específica para se discutir e praticar jornalismo literário. Tento provocá-los, instigá-los, entusiasmá-los para a diversidade das possibilidades do jornalismo. Fugir da obviedade e da mesmice tão perceptíveis nas pautas. Respeitar as pessoas e a real dimensão dos acontecimentos. Agir sem intolerância e preconceito para com o outro, o diferente, o menor. Tratar o texto não como um formulário, mas como a cartografia de uma vida, de um fato, de um fenômeno, de um pensamento, de uma tendência, de uma lembrança. Às vezes fico em dúvida no acerto das opções que faço, no alcance das aulas e das provocações... mas se tivesse certeza as coisas estariam perdidas.

Ontem, discutindo as pautas da revista feita pelos alunos do 7º semestre, falava da diversidade de maneiras de se contar uma história e lá pelas tantas senti necessidade de prolongar a discussão por outras veredas. O que distingue o jornalismo da literatura? O que faz um texto ser reportagem? A ética! Mais do que formato e suporte, o que distingue o jornalismo de outras formas e experiências narrativas é a relação ética estabelecida com o objeto, com os sujeitos envolvidos, com os acontecimentos. Mesmo que por vezes a palavra ética pareça esvaziada de tão enaltecida e decantada, é de ética que cada vez mais o jornalismo precisa.

Escrito por Cacto às 15h53
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   Um debate que nos aproxima

O celular toca. Um número de São Paulo. Achei que pudesse ser algum banco querendo me infernizar e atendi sem muita convicção. Então ouço um senhor de voz possante e singular me cumprimentando e logo se apresentando: era o Joaquim Palhares, diretor da Agência Carta Maior.

Acho fantástico os mecanismos das relações, das convergências. Há algo maior que aproxima certas pessoas e grupos. Penso neste momento na comunidade de blogs que tentam pensar o mundo em bases dissonantes da dominante - e lembro de imediato o RS Urgente, do Marco Weissheimer, e uma recente descoberta, O biscoito fino e a massa, do Idelber. Penso nos blogs que estão transformando a natureza da indústria fonográfica, um movimento que teria uma análise muito simplista se fosse chamado de pirataria. E no meio disso tudo o Palhares me liga, do nada, em meio a uma tarde morna de Porto Alegre, engatando um monólogo entusiasmado sobre a necessidade de discutirmos a mobilização da mídia alternativa e o quanto é importante envolvermos os estudantes no debate. Enquanto eu o ouvia, tive a certeza de que ele gesticulava em sua sala, em São Paulo. Impossível um homem de esquerda como ele falar sentado ou sem romper o ar com seus movimentos que atendem ao impulso do seu cérebro articulado. Esses caras são empolgados. São emocionantes.

Pois bem, vamos ao que interessa: na próxima quinta-feira, dia 20 de março, às 18h30min, haverá um encontro para discutir a mídia alternativa. A função toda ocorrerá na sede do Diretório Central de Estudantes da UFRGS (Av. João Pessoa, 41). Participará do encontro o próprio Palhares, que vem a Porto Alegre no rastro de um movimento nascido recentemente e cujo relato está no site da Carta Maior.

É feriado na PUC, então felizmente poderei ir. Espero vocês lá, caros e queridos alunos. Não haverá chamada, mas seria bem bacana - pra não dizer importante - que vocês fossem.



Escrito por Cacto às 11h51
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   O Cacto deu fruto

Há alguns meses publiquei neste blog um texto no qual eu fazia uma aproximação entre dois filmes aparentemente distantes: "O segredo de Brokeback Mountain" e "Tropa de elite". Depois disso, um dos atores que viveu o idílio com o outro caubói morreu e o longa-metragem brasileiro ganhou o prêmio máximo no Festival de Berlim. Achei que era um bom mote para estender minha idéia e, no final da história, nasceu um artigo. Pois ele vai ser publicado no próximo número da revista NORTE. A publicação, que chega ao número 3, é uma iniciativa bem bacana do Tito Montenegro e sua editora, a Arquipélago. Está lá no site: "NORTE é resultado de uma idéia, meses de trabalho e a imprescindível colaboração de um time de jornalistas, escritores, ilustradores, fotógrafos e designers. A idéia era criar uma revista que, produzida no extremo sul do Brasil, não tivesse em sua pauta a restrição aos assuntos locais. Nosso ponto de vista é sulista, pode-se dizer, porque é daqui que assistimos o mundo dar suas voltas, mas nem por isso deixaremos de acreditar que a diversidade e o diálogo são fundamentais na busca de um norte".

O lançamento do número 3 da NORTE será na próxima segunda-feira, 24 de março, às 19h, na Palavraria (Rua Vasco da Gama, 165, em Porto Alegre). Eu tenho aula, mas assim que terminar vou para lá. Quem quiser e puder, faça o mesmo. E quem quiser saber o que teve na edição anterior, dá uma olhada no site (www.revistanorte.com.br).




Escrito por Cacto às 21h36
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   Em respeito às sincronias

(Na minha leitura diária de alguns blogs, vi um texto que me lembrou de um outro feito por mim. Fui atrás dele e quase ocorreu uma epifania. Se eu tivesse relido não hoje, mas daqui a uma semana, seria o dia em que se completariam exatamente dois anos da escrita. O que isso significa? Nada, é verdade. Tolice de quem está atento para as sincronias. Mas com sou atento a sincronias, republico aqui o texto.)

A cartografia do passado tem gosto de goiaba

O cheiro é familiar. O mormaço do início da tarde preenche o ar com um cheiro azedo, azedo adocidado, um cheiro de natureza podre. A reação despertada pela minha memória olfativa é tão intensa e inusitada que preciso parar a fim de identificar aquele estímulo. Tiro o protagonismo do nariz e volto a ler o mundo com os olhos, embora o mundo pretérito siga traduzido em cheiro. É uma goiabeira, uma robusta árvore que espalhou seus frutos maduros sob o diâmetro de sua copa. O tecido amarelado rompido pela queda desnuda o miolo rosado que impregna o ar com um aroma acre da minha infância. O ar tornado denso pelo dia de sol tem camadas e mais camadas de odor e distintos níveis de lembranças. Sufocado pela experiência imprevista, afogado na atmosfera emanada do fruto ancestral, me aproximo do campo bordado por esferas imperfeitas e me ajoelho, num ato de contrição ao que fui. O golpe no solo provocado por minhas pernas dobradas estraçalha algumas goiabas. O sumo rugoso faz meus joelhos deslizarem pela grama e, impulsionado pelo movimento, pelo mergulho, pelo reencontro, estiro meu corpo adulto no verde manchado. Fecho os olhos. Tranco a respiração. Respiro. Tranco novamente. Torno a respirar. Paro. E sigo nesta alternância. Bloqueio o ar. Libero o ar. Sim. Não. Sim. Não. E quando me basto apenas com o ar aprisionado nos pulmões, viro um tacho, um tacho em formato de corpo, e transformo em pasta escura o ar que respirei neste frutado campo elíseo. O ar vira goiabada, irriga minha carne e se apodera de mim. E quando me percebo restabelecido, e quando meu sangue assume a cor do conteúdo dos velhos potes adornados por tecido quadriculado, passo a me deslocar. Meu corpo encolhe gradualmente até eu me igualar à estatura das larvas brancas que se confundem com a massa rósea dos frutos tombados. E numa perfeita simbiose com os bichinhos, mergulho na polpa de cheiro forte e percorro uma cartografia do passado.



Escrito por Cacto às 15h25
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   O tempo anestesia a dor

Pessoas que tememos encontrar quando dobramos a esquina. Coisas ouvidas que machucam ao ecoar desde o passado. Coisas ditas que provocam arrependimento cada vez que submergem de tempos pretéritos, mas sempre tão presentes. O silêncio que se fez quando a palavra deveria existir. O ato inadequado, a palavra desastrada, o gesto insuficiente, o sorriso sem sinceridade, a ausência no encontro, o trato desfeito, a urgência da saída, o atraso do retorno, o olhar que foge aos olhos posicionados em frente. A mágoa. A dor. O remorso. A culpa. O desconforto.

Uma das coisas que mais me surpreendem com o passar do tempo é a capacidade de sobreviver. Feito um instinto de preservação, algumas coisas se acomodam, se ajeitam, mesmo que sem resolução. O erro, a ausência, o dolo, sobretudo a dor que de fato sentimos - mais do que presumimos -, a causa disso tudo persiste, não teve reparo, mas aos poucos as tintas vão esmaecendo. Lentamente, muito lentamente, o viço da mágoa perde a tensão. Incapazes ou incompetentes para dar conta das mazelas, acabamos por deixá-las do jeito que sempre estiveram, até o dia em que percebemos o quanto a dor já foi relativizada. É como o vento que dissimula a pegada, a onda que esconde a toca na beira do mar, a sombra que em determinada hora do dia acaba por proteger a flor.

O tempo vence. Ou melhor, o tempo anestesia a dor. Nem sempre - às vezes. O que não deixa de ser um consolo... Mesmo que sejamos fracos ou impotentes, alguns fardos o tempo tira do nosso lombo. E assim vamos em diante. Pode não ser fácil, mas poderia ser mais difícil. E mais do que resignação, isso é o tempo.

Escrito por Cacto às 11h55
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