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Um chocolate com pouco cacau
(Uma amiga organiza um evento bem bacana messsssmo chamado Mesa de Cinema, que mistura cinema e gastronomia. Tudo acaba numa grande comilança regada a muito vinho. Imperdível! Neste ano, serei o condutor dos debates que acontecem após o filme e que antecedem o almoço. No próximo sábado, a função toda se inspira no filme "Chocolate". Fiz um texto sobre o filme, que publico aqui. E mais informações sobre o Mesa de Cinema podem ser obtidas no site www.mesadecinema.com.br. Aos amigos interessados, posso conseguir um desconto.)
No filme "Chocolate", o diretor sueco Lasse Hallström acertou na mão, na medida, no tempero… mas não obteve uma fina iguaria. Não produziu um Ferrero Rocher, nem um Hershey's Special Dark – para ficarmos em exemplos facilmente encontráveis por aqui –, mas um Refeição. Vocês sabem do que falo: aqueles chocolatinhos compridos produzidos pela Neugebauer, envoltos em papel branco que, embora sem maiores atributos, são tentadores e convidam a uma comilança em seqüência. Sem falar que estão em qualquer boteco, ao lado do caixa, compráveis com qualquer punhado de moedas. Mas voltemos ao "Chocolate" – o filme, atração do próximo Mesa de Cinema, que trata de liberdade e de moralismo.
A história: Juliette Binoche – sempre linda, sempre adequada, sempre talentosa – dá vida a Vianne, mãe solteira que em 1959 chega com seu rebento de seis anos, a narradora da história, Anouk (Victoire Thivisol), ao vilarejo de Lansquenet-sous-Tannes. A cidadela fica no interior da França e nela tudo parece estar igual há pelo menos um século. A forasteira chega num dia de vento forte, abrigada numa capa vermelha com capuz que de imediato estabelece o clima de contraste presente em todo o filme. Mais do que na vestimenta, é no comportamento, no modo de pensar e nas sensações despertadas na população que Vianne se sobressai. Logo ela aluga uma loja abandonada da rabugenta Armande Voizin (Judi Dench, sempre ótima). Transforma completamente o local, localizado no largo em frente à igreja, e abre uma chocolaterie.
A loja de chocolates foi inaugurada justamente no período em que os moradores começavam a se preparar para o jejum da Quaresma. Isso causou celeuma, claro. Na cidade, todos sabiam o que fazer e, caso esquecessem, alguém prontamente lembraria dos rigorosos ditames morais. O conde Reynaud (Alfred Molina), prefeito caricato de tão zeloso que é pela preservação dos bons costumes, orquestra a vida de todos, a ponto de escrever o sermão do padre novato. Nesse ambiente, a forasteira que tem filha, mas não tem marido e, pra piorar tudo, usa sapatos coloridos, se deleita em adivinhar qual é o chocolate preferido das pessoas. Ato contínuo ao acerto, oferece iguarias em que o cacau, misturado aos ingredientes certos, tem a capacidade de liberar os instintos e os desejos. Em alguns casos, desperta a sensualidade.
Vianne é a guardiã das fórmulas aprendidas com sua mãe, uma índia maia que encantou um francês que participava de uma expedição científica pela América Central. Assim como sua mãe, ela dá ouvidos ao instinto e não se curva a ninguém – apenas ao chamado do vento norte que, quando sopra com força, indica que é hora de partir. E partindo, ela segue os mesmos desígnios de sua ancestralidade: ir de lugar em lugar, ao sabor do vento, praticar sua alquimia com chocolate e transformar as pessoas.
Para dar sentido às tramas desveladas pelo filme, é preciso vê-lo como uma fábula, ou uma história familiar recheada de maniqueísmos e reduções. Só assim se torna possível admitir o exagero do carola, a pulsão repressora da filha que pretende internar a mãe que padece com diabete, o fantástico poder do chocolate que cura desde inapetência sexual até mulher que fica perturbada de tanto levar sopapos do marido, além de transformar criatuas tristes em pessoas mais felizes, mais leves. Mas o sentido de superação e transformação é tanto que por vezes resvala e faz do filme uma espécie de manual audiovisual de auto-ajuda sabor chocolate.
O desejo – e mais do que o desejo, o atendimento aos apelos do desejo – é elemento central na vida de Vianne. E não somente os próprios, mas os alheios também. A amarga e desiludida Armande, por exemplo, queria uma festa de aniversário. Vianne atendeu o pedido da senhoria, mesmo que, àquela altura, já soubesse que ela era diabética e não podia comer doces, nem cometer excessos, mas o desejo imperou e a festa foi feita, dando vazão a toda sorte de conseqüências.
Juliette Binoche está suave. Não lembra as personagens densas, torturadas e atormentadas de outros filmes, como "Perdas e danos" (1992), de Louis Malle, e "A liberdade é azul" (1993), de Krzysztof Kieslowski. E o filme é bom de ver, um bom programa que atiça as papilas – quiçá outras coisas. Mas um olhar mais atento pode evidenciar certas fragilidades da obra. Por exemplo, os clichês: mulher reprimida no casamento, mãe e filha que não se acertam, sujeito rigoroso que em algum momento resvala na tentação, avó impedida de encontrar o neto, aversão à modernidade e ao diferente, heroína que enfrenta diversidades e acaba por transformar a vida de todos.
O diretor, Hallström, nasceu em 2 de junho de 1946. Desde 1994 é casado com a atriz Lena Olin, que atua em "Chocolate". Conquistou o mundo, em particular a América, com um sensível filme sobre a infância, "Minha vida de cachorro" (1985). Hollywood gostou. Tratava-se de um diretor europeu que discutia sentimentos, relações e subjetividades sem hermetismos, com potencial de agradar até mesmo nos Estados Unidos. Desde então conduziu alguns trabalhos com embocadura correta para um estúdio como a Miramax, que vem se especializando em filmes com cara de europeu sem ser europeu. Isso explica, entre outras coisas, porque um longa-metragem francês dirigido por um sueco é falado em inglês. Mais do que isso, explica o abuso de clichês e o clima de otimismo que pauta o final. Desta forma, parece que "Chocolate", o filme, é feito com pouco cacau.
Alguns destaques: a trilha que, além da composição original de Rachel Portman, traz surpresas do porte de Erik Satie, Django Reinhardt, Duke Ellington, Stéphane Grappelli e George Gershwin – compositores sempre bons de encontrar ou reencontrar. Outra boa presença é o charmoso cigano interpretado por Johnny Depp que, embora apareça tardiamente e pontualmente, reforça o acerto que pauta a escolha do elenco.
Chocolate explora os sentidos, as paixões, as pulsões. Mesmo que sem maiores arroubos de originalidade, mesmo que resvalando em algumas previsibilidades, o filme sugere que devemos atender a esses clamores primais. O que não deixa de ser algo sugestivo, e provocativo, em tempos de Quaresma.
Escrito por Cacto às 11h21
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Tudo bem, é a endorfina!
No meio de um bate-papo neste domingo, na casa de uma amiga, um dos interlocutores teceu um pequeno tratado sobre a endorfina. Em dias quentes, muito quentes, daqueles em que qualquer pessoa razoavelmente sensata busca sombra e água fresca, pois bem, nestes dias de canícula ele sai pra correr. Perto do meio-dia. Aham. Aí ele vai ao limite da exaustão, perde cerca de dois quilos de tanto que sua e atinge uma espécie de êxtase, um profundo prazer provocado pela endorfina.
Muitas outras vezes eu já ouvi esse papinho da tal da endorfina, embora ela seja tão desconhecida pra mim quanto a visão da Terra a partir da Lua. Mas fiquei encucado... como deve ser esta sensação prazerosa quando o corpo é eletrocutado pela substância tão aclamada pelos atletas? Munido do meu iPod recheado com 30 gigas de boa música, fui à experimentação.
Aqui perto de casa tem uma pista de atletismo. Como todo patrimônio administrado pela governadora Cruz Credo, está caindo aos pedaços a estrutura deste centro esportivo, mas a pista, embora precária, fica cheia. Tem velho bem disposto e saudável, patricinha rebolante e torneada, garotão musculoso e fogoso, dona de casa compenetrada no ritmo, senhores vetustos até mesmo quando vestem bermudas, rapazes possantes como um cavalo de prova, rapazes velozes como um antílope, moças musculosas, magricelas desengonçados perdidos no meio de roupas largas, renascentistas com ar de que não estão no tempo nem no espaço certos... tem de tudo um pouco, mas, sobretudo, atletas. Eles são irritantes. Eles correm muito e velozmente sem ficarem esbaforidos. Eles têm pose como cachorros galgos. Eles se vestem como atletas. Eles são munidos de reloginhos e pequenos aparelhos que medem até mesmo o número de vezes que as pálpebras piscam. Eles se conhecem. Eles têm treinadores. Eles são irritantes de tão felizes e magros. E eu odeio isso tudo, com toda minha convicção.
Eu caminho no meu passo, despreocupado com os passantes - e como eles passam! Mas hoje resolvi acelerar um pouco mais para descobrir, finalmente, como opera a tal da endorfina. Acelerei, caminhei, caminhei, caminhei, caminhei. Fechou uma hora, mas nada de endorfina. Aí lembrei que o surtado que corre no calor do meio-dia falou em exaustão, em limite. Então fui além, caminhei mais, mais, mais, como se na próxima curva estivesse me esperando o gozo, a volúpia travestida de esporte, e todos nós, atletas e semi-atletas, deuses e mortais, fofos e magros, fortes e fracos, velhos e moços, todos se agarrariam no meio da pista de atletismo do Menino Deus e faríamos uma grande orgia, pele com pele, tendão com tendão, músculo com músculo, suor com suor, tudo em nome da deusa endorfina. Nós nos engalfinharíamos no ritmo dos cronômetros dos treinadores bizarros para, na velocidade do ponteiro, chegar ao clímax, à endorfina. Nossos corpos besuntados de suor deslizariam um no outro, uma mecânica perfeita, azeitada, para que nada emperrasse. E assim, quando todos os atletas de todos os matizes estivessem entregues à luxúria nas pistas 1, 2 e 3 - as reservadas para os velocistas -, aí todos gritaríamos em uníssono, tal qual guerreiros de Esparta: ENDORFINA!
Como nada disso aconteceu, tive que me contentar com o êxtase do meu iPod. Toquei músicas que há muito não escutava e me emocionei muito. Música me emociona de uma forma tão intensa, tão especial que fica difícil de explicar. Ouvi uma, outra, mais... mais... mais... e chorei. Eu sou tão ridículo, tão patético que em plena pista de atletismo esburacada eu chorei por causa de umas músicas. Talvez tenha sido bom. Acho que eu precisava chorar - credo, como estou confessional neste texto. E como eu verti muito suor, as lágrimas se mimetizaram em minhas faces já salgadas. Mas se mesmo assim alguém se espantasse com meus olhos marejados e viesse perguntar se estava tudo bem, eu diria, meio gabola, com ar de bazófia dissimulada:
- Tudo bem, é a endorfina!
Escrito por Cacto às 18h43
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