Cacto
   Uma dama de anágua

Das palavras que ilustraram e, de certa forma, abreviaram minha infância, anágua era uma delas. A-ná-gua. Custei a decifrar as sílabas, tão sonoras e liquefeitas - embora não tenha nada a ver com água. Minha mãe usava pouco, quase nunca. Minha vó usava mais. Eu associava anágua com recato. Ao vesti-la, a mulher atenuava ou acabava com a transparência da saia ou do vestido. Também impedia que o tecido da roupa ficasse aderente às curvas do corpo. Anágua também me dava uma idéia de capricho, asseio, elegância. Elas eram de tecidos leves e lisos, cores neutras, e no final havia uma pequena renda. Assim, caso a peça saísse do anonimato e viesse à tona, era o acabamento, o ornamento da anágua que seria revelado aos olhos.

Pois hoje de manhã eu caminhava por uma avenida perto de casa e vi uma senhora meio sem destino, meio perdida na calçada. Ela dava uns passos incertos e parava. Olhava o chão, a rua e seguia. Cabelos grisalhos e manchados, como se restos de pinturas ainda resistissem nos fios amarfanhados. Roupas velhas, amarrotadas, sujas. Um aspecto roto. Na mão, uma sacola - todo andarilho tem uma sacola... E embaixo da saia encardida, uma anágua. Sim, a mendiga, a maltrapilha, a louca - ou qualquer outra alcunha que pudesse ser dada a esta senhora - vestia uma anágua. Uma anágua com renda.

Eu fiquei comovido com a cena. Que passado teria esta mulher para, mesmo vivendo na adversidade, numa aparente miséria, ela se dar à minúcia, à delicadeza, ao recato de usar uma anágua? Que vida ela viveu em que havia espaço para uma anágua? Provavelmente a busca por comida e dinheiro, a procura por um lugar pra descansar, tudo isso esteja na prioridade de sua vida. Mesmo assim ela usa anágua. Ela é vaidosa. Ela um dia foi uma garota, e naquele tempo aprendeu que mulheres usam anágua. Por recato, por capricho.

Juro que pensei em lhe fazer um galanteio, um elogio, beijar a mão... mas seria tudo tão inusitado, quase bizarro, que obviamente me contive. Lembro de uma amiga que, ao ver um gari muito gostosinho, juntou os lábios e fez... ah... qual seria a onomatopéia? Fuu, fuu, com o ar sendo puxado pra dentro. Seria isso? Não é fiu-fiu, que isso seria assovio. É aquele som menos sonoro, que homem bagaceiro faz quando vê mulher boazuda na rua. Pois minha amiga queria deixar bem claro para o homem que estava correndo atrás do caminhão de lixo que ele era gostoso. Claro que o cara ficou feliz. Numa sociedade preconceituosa em que certos trabalhadores são estigmatizados, é raro uma moça de dentro de um carro emitir elogios sonoros a um gari. Mas nada que eu fizesse soaria coerente ou com sentido para a senhora de ar vago. Uma abordagem fortuita não conseguiria penetrar na tessitura daquele mundo tão reservado, tão apartado. Então eu segui a caminhada, me afastando cada vez mais da dama de anágua.



Escrito por Cacto às 17h04
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