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Jogo de cena - e fora da cena
Cada filme que vejo do Eduardo Coutinho me encanta. Este documentarista de 74 anos consegue, com seu jeito manso típico de quem joga conversa fora num boteco de esquina no subúrbio, extrair a essência dos sujeitos retratados em suas obras. Assim foi com "Edifício Master" (2002), por exemplo. Assim é com "Jogo de cena". Imagino que logo ele entra em cartaz, e quando isso ocorrer, vocês já sabem o que fazer.
No princípio, antes de a luz se fazer, um anúncio convidava para um teste mulheres maiores de 18 anos que quisessem contar suas histórias para um documentário. No total, 83 responderam ao chamado e foram entrevistadas em estúdio. Coutinho e sua equipe selecionaram 23, e a gravação dos depoimentos ocorreu em junho de 2006 no Teatro Glauce Rocha, no Rio. Em setembro, atrizes tiveram que interpretar essas mulheres. Vejam que sacada genial, que consegue tensionar os entendimentos mais tradicionais que se tem sobre documentário e ficção. Havia dois conjuntos interligados de material. Primeiramente, o depoimento de mulheres comuns que contavam partes significativas de suas vidas. Algo muito forte: elas desnudaram suas perdas e traumas, vísceras à mostra, sem pudor frente à câmera - e a maestria como entrevistador é um dos méritos de Coutinho. Passo seguinte, as atrizes se valeram do talento e da técnica para contar a história das primeiras mulheres. Em alguns casos, a mesma frase é, literalmente, repetida. E os fatos colhidos pelas mulheres do seu repertório de dores e sofrimentos passados são reconstituídos numa arguta e sofisticada trama de narrações: ora a mulher que de fato viveu os acontecimentos, ora as atrizes que reinterpretam esses mesmos acontecimentos. Confuso? Às vezes sim. Quando aparecem as atrizes mais conhecidas, como Marília Pêra, Andréa Beltrão e Fernanda Torres, fica mais evidente distinguir quem é quem. A segurança se dilui quando aparecem as atrizes menos conhecidas do grande público. E agora, quem é quem? Quem de fato sofreu a dor contada? E quem simula sofrer a dor alheia? Mas interessa saber? Não.
Por mais que o jogo saia do título e se apodere da platéia, que fica tentando estabelecer as duplas, isso não interessa. O que interessa são as histórias, as intensidades apresentadas, as tramas extraídas da vida, a emoção latente em cada depoimento. Preservadas as histórias, os personagens se tornam secundários, embaçando a fronteira entre real e ficção. Lembro que quando o João Moreira Salles esteve na PUCRS, no ano passado, ele disse em sua palestra para alunos de cinema algo mais ou menos assim: o que define um documentário não é o fato de ele contar uma história que aconteceu, um documentário é definido pela relação ética que se estabelece com o objeto, com o sujeito. Não importa se em cena está a atriz ou a mulher que atendeu ao chamado do anúncio: vale é a história.
Além destas duas vertentes - o depoimento das mulheres... ããã... reais?, e a interpretação das atrizes -, à narrativa se soma uma outra quando algumas atrizes foram provocadas por Coutinho a falar de suas próprias vidas e sobre o processo que viveram no filme. Na edição final, aparecem 13 mulheres. Para descobrir por que o número é ímpar, vá ao cinema.
Escrito por Cacto às 12h18
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A culpa foi das baleias, essas sacanas
(atendendo ao pedido de um leitor)
A missão era simples: testemunhar o acasalamento, fotografar, escrever. No dia seguinte, o Rio Grande saberia que as baleias tinham transformado as águas da praia de Torres em um motel com piscina térmica. Por mais que a gauchada reclame que os balneários do Litoral Norte são frios, as grandalhonas que vêm do Pólo Sul discordam, tanto que se deslocam milhares de quilômetros para acasalar aqui, em temperaturas mais amenas. Algumas nadam até Santa Catarina, onde o motel, além de aquecimento, garante uma boa vista.
Foi por meio de um telefonema que soubemos na redação da Zero Hora que os cetáceos deram partida à temporada do bem-bom. É impressionante como sempre tem alguém que lembra de ligar para o jornal avisando das coisas. Claro, muitas vezes é bobagem ou bizarrice - como o dia em que Porto Alegre foi invadida por discos voadores... mas isso é outra história. Enfim, um repórter e um fotógrafo precisavam se deslocar até Torres para registrar o namoro dos grandalhões, e os escolhidos foram eu e o Júlio Cordeiro. Rumamos direto para a Guarita, lugar alto e, portanto, propício para acompanhar a consumação das núpcias. Eu não tinha muita noção do que iria encontrar pela frente. Consigo imaginar um touro e uma vaca em ação para fazer bezerrinhos. Sei que a louva-a-deus* come (no sentido gastronômico) a cabeça do rapazola que tenta comê-la (naquele sentido) por trás. A gata fica se fazendo, emite grunhidos pavorosos, mas quando o gatão monta nela, ela se derrete toda. Os salmões machos juntam a companheirada e vão em bando rio abaixo em direção ao mar, onde se alimentam. Extenuados, poucos sobrevivem ao caminho de volta. Os que retornam, chegam cansados justamente na hora em que as fêmeas estão no ponto para procriar, mas elas não aceitam desculpas e soltam seus ovos pela boca. Os machos, com as pernocas tremendo, precisam banhar os ovos com uma espécie de esperma. Se eles falham, as espertalhonas chamam uns rapazes que ainda não seguiram o caminho do mar. Consigo ter uma noção até de como pássaros atendem o chamado da natureza, mas baleias? Sinceramente, não faço idéia. Quando tento, o máximo que vejo são dois grandes sabonetes infantis em forma de baleia escorregando a cada tentativa de atraque.
Júlio sacou suas poderosas lentes e se posicionou. Eu e o motorista ficamos ao lado, também a mirar. E olhamos. Olhamos mais um pouco. Um tanto mais. Trocamos de posição e contemplamos mais. Lindo o mar... o céu... o infinito. Ah, a natureza... e nada de baleias, muito menos de sacanagem versão GG. A essa altura já havia alguns moradores em nossa volta. Impressionante como um carro com logotipo do jornal e uma máquina fotográfica são chamarizes. Hora do almoço. E agora? Rapidamente fomos comer algo e voltamos correndo com receio de ter perdido o melhor da festa. Junto chegou um bando de estudantes guiados por um cara de uma ONG ambientalista. Achei que o Conselho Tutelar fosse lá moralizar a história e mandar as crianças embora, mas elas ficaram conosco. Perto do fim da tarde, o mar seguia movimentado apenas pelas ondas. Nada de baleia dando pirueta, fazendo beicinho ou se esfregando na nadadeira do macho. Com tanto anticlímax, voltamos para o jornal sem história, sem foto, sem texto.
Enquanto contava para o meu editor que nada aconteceu, ele se somou a mim no lamento. São mesmo umas caretas estas baleias... Entre um gole e outro de café mencionei que não fomos apenas nós que ficamos a ver navios. Falei dos moradores - e as sobrancelhas dele se ergueram. Quando chegou a vez dos estudantes, meu chefe questionou, hirto: "Tu tá me dizendo que teve toda esta movimentação de curiosos pra ver as baleias e vocês voltaram sem nada, sem uma foto, um texto pequeno sobre a curiosidade em torno das baleias?". Juro que tentei argumentar: "Mas, mas elas nem apareceram...". Tolinho que eu era. Ouvi muito mais coisas, mas poupá-los-ei.
Então é isso: aprendi que repórter não volta sem material para a redação, ainda mais quando o jornal gastou com um deslocamento mais longo.
______________________ (*) A história do acasalamento do louva-a-deus é tão pirada que merece uma nota complementar. O macho, embora seja menor que a fêmea, segura ela com as patinhas e crã, bem no meio do ovopositor. Aí a safada começa, mordida por mordida, a saborear a cabeça do carinha que, quando é removida, permite que a transa se consume. Ao papar a cabeça do macho, a fêmea faz com que os centros nervosos secundários abdominais restantes do macho funcionem de maneira mais eficaz, sem falar que este lanchinho no meio do sexo rende uma dose extra de proteínas para a maturação os ovos. Agora, caros leitores, morram de inveja: a cópula de louva-a-deus pode durar em média seis horas.
Escrito por Cacto às 15h11
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Jornalismo investigativo - ou quando trepamos nas guaritas dos salva-vidas
A Júlia é daquelas alunas que viram amigas. Pois no sábado fui a Imbé comemorar o aniversário dela com uma festa onde comida e bebida brotavam por todos os lados. Um desespero! Quando se fez uma pequena folga na orgia, ou nos atirávamos no gramado e redes, ou corríamos para a praia. Venceu a segunda opção, mas é claro que não houve correria - não se esqueçam que textos podem ser hiperbólicos. Monsieur Lorea, como digno representante que é da Corte dos Gazebos, educado nas longilíneas extensões da praia do Cassino, levou um kit-farofa podre de fino, assim pudemos tomar gin tônica na beira da praia, com a bênção dos frixópis. Paramos perto de uma das casinhas dos salva-vidas e lá fiquei eu, roçando meus pés na areia fofa (permito-me um raro momento de auto-elogio por tabela: Júlia teceu loas aos meus pés...). Lá pelas tantas, lembrei de uma das últimas coberturas que fiz para a Zero Hora da temporada de verão no Litoral Norte gaúcho. Era período de Carnaval e eu, mais um repórter e um fotógrafo resolvemos averiguar como estava, digamos, a ocupação das guaritas dos salva-vidas durante a madrugada. Para os menos afeitos às mais nobres tradições litorâneas, pequena nota explicativa: em tempos de verão, casais mais afoitos ou sem opção transformam a palafita da beira-mar em um leito improvisado. Acho melhor explicar a pauta... Nossa idéia não era chegar no meio da madrugada e interromper a felicidade alheia. A cobertura dos medonhos bailes de Carnaval dos clubes já havia acabado e o sol começava a despontar, portanto, eram remotas as chances de subirmos as escadas em pleno ziriguidum carnal. Queríamos ver se havia evidências do uso de camisinha. Não se tratava de tara - imagino que algum dos meus 17 leitores a essa altura deve estar chocado, me achando um fauno pornográfico... -, mas de interesse jornalístico. Na época, segunda metade dos anos 1990, discutia-se muito mais a questão da aids do que nos últimos tempos. Estatísticas, impacto na sociedade, métodos de prevenção, um certo ar de licenciosidade verificado no Carnaval e a importância do preservativo. Sendo assim, pretendíamos apurar se os foliões se cuidaram na hora de se esbaldar nas guaritas. Então, bloco na mão e caneta em riste, fomos trepando* em várias guaritas a fim de contabilizar o número de camisinhas usadas. Como vocês devem imaginar, caminhamos muito, pois o espaço entre as instalações é grande. Evidentemente que isso não renderia uma notícia ou algo que o valha. Nossa idéia era compor uma espécie de crônica, um texto mais solto e descontraído que, com bom humor, colocasse em evidência a necessidade de se usar camisinha. Afinal, eram dias de Carnaval. E ficou bem bacana. Além disso, nos divertimos horrores fazendo. Pena que os editores em Porto Alegre não quiseram publicar.
(*) O verbo trepar foi usado como sinônimo do ato de subir escada.
Escrito por Cacto às 16h20
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