Cacto
   Bahia + Havana = noite do último sábado

Quando um show é baseado em um disco já lançado, de antemão sabe-se do que se trata, pois há um repertório garantido para o espetáculo. Mesmo assim, sempre fico com expectativa quanto ao que ouvirei. Como o álbum da Maria Bethânia e da Omara Portuondo é curto, pouco mais que 40 minutos, certamente deveria haver mais canções na apresentação das duas neste sábado, se não seria estelionato, ainda mais com os preços cada vez mais polpudos cobrados pelos ingressos. Pois com as cortinas fechadas, a banda formada por brasileiros e cubanos - assim como a nacionalidade das cantoras - deu início às duas horas de beleza e sinais do que seria a noite. Logo em seguida, com os panos ainda cerrados, o vozeirão da baiana ressoou pelo teatro. A boca de cena foi desvelada e surgiu uma sempre vestida de branco Bethânia a cantar "Cio da terra", iluminada por tons azuis. Que imagem! Que voz! Uma celebração.

"Cio da terra"! Caramba... por onde iria a seleção? Além do disco que a dupla gravou, o programa enveredou por belezuras antigas que marcaram a carreira das duas. De Bethânia, teve "Cálix bento", "Gente humilde", "Partido alto", "Negue", "O ciúme", "Doce/A Bahia te espera", "Escandalosa", "O que será?". Omara, chamada de Billie Holiday cubana, trouxe do Buena Vista Social Club delícias como "Dos gardenias". Em cena, elas se alternavam em seqüências individuais e parcerias. A senhora de Havana, pouco afeita as canções brasileiras vertidas para o espanhol, em boa parte da noite se valeu das letras. Sua voz, em alguns momentos, saía como se fosse uma frase emendada na outra, sem parar, sem respirar... um murmúrio, um gorjeio, uma onda... parecia um mantra, um salmo, como fazem desde sempre as velhas negras pelas vielas de Cuba. Das duas, era a mais desenvolta, fora do roteiro. Estava se divertindo e feliz, mesmo que no início parecia que não agüentaria o tranco. Talvez por isso a euforia de todos quando ela ensaiou uns passinhos requebrados e sacudiu os ombros ao som dos músicos.

Bethânia dispensou as letras, menos em "O que será?", mas, mesmo assim, em determinado ponto da música ela desprezou a folha e a largou no ar, num movimento dramático, como boa parte de sua atuação. Ela não canta... ela incorpora. Tanta religiosidade, tanto misticismo, tanta Mãe Menininha pra cá e pra lá, tanto amuleto, é tanta divindade que ela mesma se tornou uma espécie de divindade. Descalça no palco, desliza na ponta dos pés, rasga o vão com movimentos repetidos do braço curvado, arruma a farta cabeleira grisalha e, antes de se retirar, toca o assoalho e fica parada, em algum transe, alguma prece, algum rito particular testemunhado pela platéia lotada e ensandecida pelo bis.


Escrito por Cacto às 18h56
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   Bom dia!

Uma cafeteira fumegando, avisando que a poção está pronta. Um pão crocante. A casca estala quando é rompida, e o miolo denso resiste inteiro quando a faca espalha uma espessa camada de boa manteiga. Cantando pela casa, um disco recém descoberto da Cecilia Bartoli. Lá fora, o sol ilumina esta cidade pós-dilúvio. Só posso dizer para vocês: bom dia! Para completar, logo mais irei na casa da minha vó, que hoje completa 93 anos.

Escrito por Cacto às 10h58
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   Eu transbordava de felicidade com meu amigo Tuio Becker

Quando comecei a trabalhar no Segundo Caderno, de certa forma já era bem conhecido do Tuio. Logo que entrei na Zero Hora, ainda estudante de Jornalismo, eu atuava como auxiliar de pesquisa. Nessa função, eventualmente selecionava material para subsidiar textos do então crítico de cinema do jornal. Depois que viramos colegas de editoria, por algum tempo sentei bem perto dele. Entre uma pauta e outra, era com ele que papeava. Quando eu levava chocolate, era com ele que dividia a barra, e invariavelmente o Tuio tinha que ir para o bar tomar café. Eu ia junto, claro. Quando eu tinha 24 anos – e lá já se vão quase 14 anos... –, resolvi morar sozinho. Comentei com o Tuio, e ele me disse que tinha um apartamento de um quarto para alugar no prédio dele, na rua Sarmento Leite. Acabamos virando vizinhos. O apartamento dele era bem bacana. Todo um lance de escada foi incorporado ao imóvel para maquiar o número de andares, evitando assim que fosse colocado elevador no prédio. O resultado é que, além do apartamento em si, o Tuio tinha uma bela escadaria dentro de casa. Em cada degrau havia livros, mais livros e livros. Alguns objetos de arte e mais livros. Uma escadaria de livros! Achava o máximo aquilo. Quando comecei a me ensaiar de maneira mais pretensiosa no fogão, Tuio foi um dos meus primeiros comensais, sentado à minúscula mesinha que eu tinha na cozinha, já que mobília era o que menos se encontrava na sala. Depois do almoço na Zero Hora, íamos vasculhar o balaio de livros e filmes usados da loja dos Mensageiros da Caridade, na Ipiranga.

 

Eu ficava meio sem jeito de perguntar sobre filmes para ele... imaginava que todo mundo fazia isso e ele deveria achar um saco. Mas como resistir? Principalmente quando se tratavam de obras antigas e clássicos. Ele sabia tudo. Sabia dos bastidores. Sabia das filmagens. Sabia contextualizar, avaliar. Sabia, sabia, sabia. Espécie de oráculo, a ele o pessoal do Segundo Caderno recorria sobre todos os assuntos, já que ele não era homem de uma arte só. Permanentemente bem humorado, mas dono de uma lingüinha ácida e oportuna. Pequenos chicotes verbais irresistíveis.

 

Depois que ele se aposentou do jornal, eu e uma amiga, a Rejane, editávamos uma revista online chamada Redemoinho. Resolvemos convidar o Tuio, o cara que iluminou a cinematografia de muita gente durante anos, para escrever na nossa publicação. E não é que ele aceitou? E ainda ia nos levar o texto no apartamento da Santo Antônio, onde montamos nossa redação improvisada, e nós babávamos a cada história, a cada comentário, a cada estalo se sua língua.

 

Eu não tenho bem certeza quando o Tuio morreu. Se em algum momento qualquer nos últimos anos, quando o Alzheimer lhe tragou para um universo de esquecimento total, ou na noite passada, quando, finalmente, ele descansou. Sempre que eu pensava nele, sempre que lia algum escrito do passado, sempre que contava uma história dele ou sobre ele, sentia um pesar, um arremedo de luto, uma pequena dor que brota quando lembramos de alguém querido que partiu. Hoje, quando soube da morte de fato do Tuio, senti uma angústia, um desconforto, uma tristeza requentada. Soube tarde demais... soube na hora em que já não era mais possível participar do velório, da despedida. Fiquei meio chocado, paralisado, olhando o relógio. Queria reverter o tempo para ainda poder me despedir. Queria reverter o tempo até uma noite qualquer na Sarmento Leite, quando eu transbordava de felicidade com meu amigo Tuio Becker.



Escrito por Cacto às 21h25
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   Algumas coisas sobre fatos das últimas semanas

Quem é amigo de picareta, picareta é. Ou não?

Corrijam-me se estou sendo exagerado, mas vocês não acham meio difícil de engolir esta história de que se a criatura é amiga do cara, mesmo que ele seja um salafrário, mentor de um esquema de roubalheira geral, notório picareta, pouco importa se ele é criminoso? Se é amigo, não há nenhum problema em tomar chope com ele, mesmo que ele seja ladrão? Comparações não costumam ser boa tática, muito menos quando se refere ao próprio autor do texto, mas me intriga isso. Olho para meus amigos e, sinceramente, não tenho criminosos ao meu redor. E por quê? Porque sou seletivo. Pode ser um critério tácito, um mecanismo presumido, quase inconsciente, mas não convivo, não quero me relacionar com gente falcatrua. Se descubro algo deste teor, perco o encanto, me encolho, saio de cena. O resultado é que meus amigos não dão desfalque de R$ 40 milhões, nem estão envolvidos em delitos menores. Por isso, senhora governadora e seu entorno todo de assessores, secretários etc., não me venham com este papinho de que sou amigo dos meus amigos mesmo que eles tenham praticado algum crime e seguirei sempre ao lado deles. O mesmo vale para o senhor do Tribunal de Contas do Estado que vai se solidarizar com outro picareta do esquema do Detran na própria casa do cara e acha que não tem nada demais nisso. Ou algo existe de mais encriminador, ou essa turma precisa escolher melhor os amigos, até mesmo em razão dos comprometimentos assumidos em razão dos cargos e postos que ocupam.

Estou exagerando ou não?

 

1000 balões e um crânio cheios de gás hélio

O cara a essa altura deve estar morto. Se não, coitado, deve estar apavorado, já que o socorro ainda não chegou. Mas francamente: o que tinha na cabeça aquele padre que se pendurou em mil balões em total desatenção aos mínimos critérios de segurança? Na verdade, eram 1000 balões e um crânio cheios de gás hélio. Essa provável morte é um absurdo total. O que leva uma criatura despreparada a se meter numa enrascada dessas? O quê?

 

A fã e o fortão

A governadora da gauchada foi para os Estados Unidos. Conforme ZH, ela estava bem entusiasmada com a possibilidade de se encontrar com o governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger. Acho que será comovente. Fico feliz com esse passeio. Tomara que ela se divirta bastante. Tomara mesmo. Se ela for esperta, trará uma foto autografada para colocar na sua casa nova. Aquela comprada por R$ 700 mil logo depois que se encerrou a campanha, e parece que com o apoio do Lair Ferst, o mesmo do chope que derrubou o secretário competente e querido por todos.

Eta, turminha boa!

 

Os donos da mídia se reuniram

Nesta semana houve uma reunião em Brasília para discutir alterações na Lei de Imprensa e, entre outras coisas, as ações judiciais movidas contra veículos. Falaram de temas importantes pra chuchu, como cerceamento da liberdade dos veículos e autocensura dos profissionais. Participaram os donos da RBS, do Estadão, da Globo, da Folha e da Band. Pelo menos são os que eu me lembro. Não sei se esqueci algum nome... mas que todos eram donos, ah, isso eram. E é justamente isso que considero estranho. Ou sintomático.



Escrito por Cacto às 17h22
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   O dia em que extraterrestres invadiram Porto Alegre

Quem já atuou ou atua em jornal sabe que a sexta-feira pode durar bem mais de 24 horas, e não há Jack Bauer que consiga reverter os ponteiros - até porque o relógio dele é digital. Quando eu trabalhava na edição da Geral, na Zero Hora, a jornada começava lá pelas 13h e nunca terminava antes da meia-noite, podendo entrar madrugada a dentro. Primeiro nos dedicávamos à edição de sábado e depois, à de domingo. Embora houvesse momentos em que os dias se sobrepunham, tantas eram as coisas a se fazer. Na verdade, rolava uma grande loucura. A edição de um jornal é um processo altamente industrial. A cada intervalo de tempo, tantas páginas precisam ser finalizadas na redação para que outros setores dêem continuidade ao processo. Por isso se corre muito, por isso o relógio é crucial, por isso os jornalistas se estressam e se escabelam - o que não é bem o meu caso, se é que me entendem, caros 17 leitores. Se não fosse assim, se não houvesse o chamado fluxo de páginas, o pessoal que faz o parque gráfico funcionar não teria como finalizar uma edição inteira ao mesmo tempo.

Quando se terminava a preparação do jornal de sábado, normalmente o que tem menor número de páginas da semana, se respirava um pouco mais. Alguns iam tomar café no bar ou engolir um sanduíche, até porque jantar é coisa de gente normal. Cinema à noite? Ha-ha-ha! De novo: HA-HA-HA! Festa na casa de amigos? Quando se chegava, ou estavam na sobremesa, ou o avançado nível de alcoolismo evidenciava que se perdeu o melhor da noite. Para quem ficava na redação, lá pelas tantas começava o festival de bobagens. Quase todos na Geral entravam numa catarse e não paravam de falar besteira, rir, contar piada, rir de novo, lembrar infâmias alheias e as próprias também. Se não fizéssemos isso, seria árduo demais aguentar o trabalho em plena noite de sexta-feira ou madrugada de sábado. Às vezes nos empolgávamos tanto com a alopração que os sisudos de outras editorias faziam shhhhhhhhhhhhhh. Mas chegava um momento em que passava a euforia e nos compenetrávamos, talvez um tanto tristes, e percebíamos que o mais sensato era ficar quieto e encerrar logo aquela função toda.

Às vezes eu saía tão cansado do jornal que não sobravam forças pra enfrentar a noite, mesmo que um festão estivesse me esperando. Se fosse pra casa, então, aí mesmo não fazia nada. Houve uma noite em que eu pretendia tomar banho, me perfumar, colocar uma roupa legal e rumar para o pecado. Tolinho... antes do banho, deitei na cama alguns segundos. Acordei um pouco antes das 8h. Se corresse, dava tempo de pegar o início da missa.

Mas voltemos à redação. Quero contar sobre a noite em que os discos voadores atacaram Porto Alegre. Eu já estava naquele momento do mau humor, pós-euforia. Nada mais me interessava, a não ser terminar a edição das duas páginas dominicais sob minha responsabilidade. O telefone tocou, atendi de maneira mecânica, mecanicamente falei alô e ouvi:

- Meu filho, tem um disco voador perto do Iguatemi.

Lembro que baixei a cabeça, apoiei a testa na mão, fechei os olhos e balbuciei:

- Como?

- Tem um disco voador perto do shopping.

Mergulhei num silêncio dramático demais, a ponto de a aflita senhora perguntar, no outro lado da linha:

- Meu filho, está me ouvindo?

Ainda por cima ela me chama de "meu filho"... Vaca! Toda gentil na hora de dar trote.

- Disco voador? - arrisquei confirmar.

- A-ham! Dois, na verdade. Ficam de um lado pra outro. Vocês precisam vir aqui.

Num derradeiro ato de polidez, pedi seu nome e disse que iríamos mandar uma equipe. E boa noite. E obrigado pela informação, minha senhora.

Voltei para minhas duas páginas. Texto pra cortar, legenda da foto pra terminar, título, destaque, linha de apoio... e o telefone tocou de novo. E eu atendi de novo. E um outro terráqueo acometido de um súbito desejo de fazer galhofa com um operário da imprensa disse pra mim:

- Cara, tem disco voador voando aqui nas bandas do Iguatemi.

Estão de sacanagem, justo comigo... Bando de babacas! Qual dos meus amigos, qual colega de jornal que saiu lá pelas cinco da tarde e agora está exercitando sua verve humorista?

- Disco voador, é? Sei...

- Cara, é sério. Tu tem que acreditar, meu...

- Sei...

- Vocês vão vir pra cá?

- É possível... é possível... vou falar com minha chefe.

Nestas horas, sempre é bom empurrar a decisão, ou pelo menos uma suposta decisão, para o chefe. Pelo menos o babaca vê que tu és um chinelo que não manda nada e pára de encher o saco.

Alguns minutos depois, outro telefonema. E mais um. E outro. Puta que pariu! Parem as máquinas! Chamem Orson Welles! Chamem a imprensa: Porto Alegre está sendo atacada por discos voadores. Que uma velha louca ligasse numa sexta-feira para o jornal dizendo que viu um disco voador, tudo bem, dava pra entender, afinal, os carentes gostam de conversar com jornalistas. Se um babaca telefonasse pra dizer a mesma coisa, ele é um imbecil. Mas se mais duas, três, quatro, cinco, seis, vejam bem, SEIS pessoas de diferentes endereços procurassem o jornal pra dizer que viram discos voadores, terráqueos, se preparem: o apocalipse se avizinha! Na boa, algo estava acontecendo. E o jornal precisava averiguar o que era.

Fui conversar com a Rosane Tremea. Ou com o Ricardinho... não estou bem certo. Talvez os meus dois chefes estivessem lá. Claro, riram da situação, mas fazer o quê? E se Porto Alegre estivesse tendo a honra, a prerrogativa de ser invadida por discos voadores? Aí, pela primeira vez na história deste planeta, intrépidos jornalistas poderiam noticiar o ocorrido. Eta, nós!

Havia um repórter de plantão. Fui até ele e disse:

- Cara, tem uns discos voadores lá no Iguatemi... vai ver o que é.

Ele deu um sorrisinho... mas entendi o que ele pensou. Em respeito aos leitores com menos de 18 anos, não reproduzirei.

- É sério, vai lá. Mais de cinco pessoas ligaram dizendo que viram disco voador perto do shopping. Não deve ser, mas vamos lá.

Claro que o "vamos" significava "vai". E hoje, quase dez anos depois, percebo que soou muito trouxa eu dizer "não deve ser...". Óbvio que não era nada. Mas e se fosse? O repórter percebeu que não era piada. Resignado, pegou o bloco, a caneta e saiu. Falei com o fotógrafo de plantão. Ele foi mais entusiasta quanto à possibilidade de flagrar os verdinhos azucrinando a gauchada. Tanto que logo pegou o equipamento e saiu em busca dos extraterrestres.

Pra terminar a história da invasão de discos voadores em Porto Alegre, vamos aos fatos. Naquela época, um dos lugares mais badalados na noite era o Dado Bier, quando o inferninho das gaúchas produzidas em série tal qual catálogo de tintura pra cabelo ainda funcionava na avenida Nilo Peçanha. Naquela noite, eles estavam usando dois holofotes, canhão de luz... sei lá como se chama aquilo. Enfim, eles projetaram os fachos para o céu e ficavam oscilando a luz de um lado pra outro. Tudo muito lindo, tudo muito festivo, tudo muito especial. E nós, jornalistas provincianos de uma cidade provinciana, todos desacostumados com a última moda dos festejos noturnos, fomos fazer uma reportagem sobre a noite em que os ETs saqueariam a capital dos gaúchos.

Acho que publicamos uma pequena foto e algumas linhas sobre o acontecido. Havia um fato. Ok, um fatinho... mas havia. Pelo menos os leitores ficaram sabendo da nova bossa das festas que agitavam a província.

Por último: sim, ok, reconheço que a história do relógio lá no início beirou a infâmia... mas quando pensei nela esbocei um pequeno sorriso feito guri que se acha esperto ao contar uma piada. Sorry.



Escrito por Cacto às 11h22
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   Professor, o que é pênis?

"Professor, o que é pênis?"

O semblante sério e respeitoso do aluno me desconcertou: ele estava falando sério. Ele não sabia o que era pênis e desejava (palavra perigosa neste contexto) ouvir minha explicação. Mas há horas em que o riso, ou melhor, a gargalhada surge como única reação possível. E foi o que aconteceu... eu e toda a turma estouramos os pulmões em uma grande gargalhada na aula. A essas alturas não havia mais decoro e compostura a manter - tinha que rir mesmo da pergunta. Quando consegui articular uma única frase, ressalvei: "Ninguém mostra pra ele!". A turma renovou o estoque de risos exacerbados, ao mesmo tempo em que alguém segredou ao questionador qual era o objeto que correspondia à palavra pênis. Os tons vermelhos que se apoderaram da face morena e imberbe dele evidenciaram que sua dúvida priapesca restava morta.

Para a cena anterior fazer sentido, preciso esclarecer que o aluno desconhecedor das sinuosidades do imenso capítulo fálico da língua portuguesa era chinês. Em 2007, quase 20 universitários procedentes do país que depois de amanhã vai colonizar o mundo todo vieram estudar na PUCRS por conta de um intercâmbio. Um semestre na Faculdade de Letras, outro na Faculdade de Comunicação Social, onde leciono. Nas primeiras aulas, tinha impressão de que eles não entendiam nada do que eu dizia. Para facilitar o entendimento, eu tentava falar mais devagar, escrevia as palavras mais importantes no quadro, repetia as frases... mas algo me dizia que nem tudo era compreendido. Com o tempo, parte do grupo começou a se mostrar mais situado.

Além das dificuldades com o idioma, havia um hiato no repertório. Nomes, obras e situações que aparentemente qualquer universitário do mundo conheceria eram citados e causavam surpresa nos chineses. Numa aula sobre crítica de cinema, comentei sobre Bergman e Woody Allen - e eles nunca tinham ouvido falar. Noutra, lembrei do Frank Sinatra - jamais ouviram a voz dele, muito menos conheciam o perigo dos olhos azuis. E por aí vai. Mais do que serem provenientes de uma cultura distante da ocidental, o que conta para tanto desconhecimento, imagino, é o embargo promovido pelo governo às informações, o controle sobre o ensino e a mídia e, claro, a censura. Mas foi a pouca intimidade com a língua, quero dizer, com o idioma que renderam boas histórias nas aulas. Como o lance do pênis...

Eu falava sobre precisão nos textos jornalísticos e a necessidade de averiguarmos todas as informações. Aí contei uma história do meu tempo de Zero Hora. No lançamento do filme "Boogie Nights" (1997), do Paul Thomas Anderson, o jornal dedicou duas páginas num caderno dominical à saga do ator pornô dono de um instrumento de trabalho beeeeem avantajado. Acho que media 33 centímetros, algo assim, mas tanto faz... qualquer número próximo disso já seria impressionante - para não dizer outra coisa. O fato é que o autor de um dos textos colocou uma medida, e na matéria ao lado o outro jornalista tascou uma dimensão diferente. Uma das editoras que mandava na redação fez um longo e interessante arrazoado sobre precisão jornalística. Legal mesmo, mas pairava um ar bizarro e estranho sobre a história porque o ponto de partida daquele pequeno tratado sobre exatidão era o tamanho do pau de um ator pornô. Foi essa história que eu contei em aula e que levou o chinesinho a proferir, com toda inocência, a surpreendente pergunta: "Professor, o que é pênis?".


Escrito por Cacto às 13h39
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   Já se passaram 11 anos

No meio da conversa trivial do domingo trivial após o almoço trivial, minha mãe comentou um detalhe sobre a ida dela ao cemitério, quando mais uma vez cumpriu o rito de visitar, limpar, arrumar - homenagear - o túmulo do meu vô, pai dela. Não me lembro exatamente o que foi dito a seguir. Paralisei com a constatação de que eu havia esquecido a data da morte do vô. O meu vô. O cara que cumpriu o papel de pai, de vô, de animador, de apoio, de parceiro, de porto. Sim, de porto - por mais clichê que a comparação possa ser -, daqueles totalmente seguros, onde eu podia atracar sem erro, sem dúvida. E eu esqueci o dia quando se completaram 11 anos de sua morte.

Uma das coisas que mais me incomodam é a dificuldade em se poder confiar plenamente, totalmente, incondicionalmente em alguém. Pela minha vida já passaram pessoas em quem eu pensava poder acreditar e confiar para sempre, mas em uma esquina qualquer o encanto se quebrou. Com meu vô era diferente. Hoje, neste momento em especial, percebo que ele era tão iluminado, tão especial, tão meu amigo, tão apaixonado por mim, tão feliz com a minha presença, tão atento, tão zeloso que fico tocado só de pensar nisso tudo. Mais difícil do que amar é querer bem. Meu vô era uma pessoa que queria bem as pessoas. E eu não tenho a menor dúvida e inflamo os dedos para escrever que ele me queria muiiiiito bem. Era uma entrega total, incondicional, recíproca.

Era o vô quem me entregava a mamadeira na cama, pra eu poder ficar mais tempo deitado em dias frios. Era ele quem fazia sardinha com cebola pra eu comer no início da noite. Era no café com leite forte dele que eu molhava meu pão. Ele engraxava todos os dias meus sapatos do colégio. Quando um motorista dormiu no volante, subiu na calçada e me atropelou, foi ele quem agarrou o cara pelo braço e o arrastou até a polícia. Era o vô que levava massinha (um pão meio doce que era vendido na padaria da esquina) para mim e meus amigos no intervalo da sessão dupla do cinema Miramar, nas tardes de domingo. Ele transformou pedaços de madeira em uma cidade miniatura onde eu trafegava com os carrinhos de madeira igualmente construídos por ele. Orientado por ele, eu pesquei 105 sardinhas na ponte que une as margens do rio Tramandaí. Atento ao universo particular dele, aprendi a prestar atenção na voz "colossal" do Nelson Gonçalves. Com ele aprendi que não se rouba. Aprendi sobretudo que se deve ser honesto. Convivendo com meu vô, aprendi a importância de se ser generoso e cordial. Aprendi a tomar chimarrão. Aprendi a ser amado.

Por tudo isso, foi com espanto que percebi o esquecimento da data de sua morte. Fiquei assustado com o distanciamento, com os desígnios da passagem do tempo. Como pude esquecer? Na minha frente, neste momento, neste exato momento de emoção, vejo num porta-retrato a foto que flagrou seu corpo magro assando churrasco na praia e eu, com sete anos, a olhar compenetrado a função toda. Essa foto é plena de memória. Eu sempre rondava meu vô, vivia em torno dele, queria estar com ele. Na imagem, ele está meio de lado, acomodando o espeto. Eu, de costas, baixinho, observando. Ao lado dele. Junto dele.

Em minha casa, existem vestígios do meu vô. Além da foto no porta-retrato, há a foto da parede, a foto em outro porta-retrato, e mais outra. Para muito além das imagens que brotam da emulsão, meu vô vive nas suas ferramentas de marcenaria que recolhi na casa da família e trouxe para a minha. Sobrevive na pasta de documentos, entre eles o atestado de óbito. Mas o Rosauro Necchi sobrevive, sobretudo, num sentimento muito peculiar, muito singular que me sugere cada vez mais, a cada dia, o significado e o sentido de se ter uma família, para bem longe das imperfeições e dos ranços que desfalcam esses grupos. Pensando no meu vô, percebo uma noção de continuidade, de ancestralidade. E isso, de certa forma, me justifica, me explica, me dá sentido e, por último, me acalenta. E o tempo parece menos agreste, menos árido, menos árduo, mesmo que já tenham se passado 11 anos.



Escrito por Cacto às 00h04
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   Leia e passe adiante

Livro não pode ficar parado, nem revista. Ambos nasceram para ser lidos. Se ficarem no armário, mofam. Na prateleira, criam pó. Por isso a Faculdade de Comunicação Social (Famecos) da PUCRS lança no dia 24 de abril o projeto "Leia e passe adiante". A iniciativa começa durante as comemorações da Semana do Livro, mas seu caráter será permanente.

A idéia é simples. Alunos, professores, funcionários ou quem circular pela faculdade leva uma publicação, cola na capa o selo da campanha e deposita o volume numa prateleira instalada no saguão do prédio. Depois, todo o material fica à espera de um futuro leitor. Qualquer pessoa pode pegar. Qualquer pessoa também pode trazer novos livros ou revistas para dar continuidade ao processo. Vai chegar um momento em que os títulos retirados retornarão à estante, confirmando a vocação das publicações: estarem em permanente movimento. Afinal, livros e revistas foram feitos para correr mundo.

Os organizadores pretendem que se que se estabeleça um regime de autogestão, portanto, não haverá controle. A estante abrigará as mais diversas obras. Livro acadêmico, de fotos ou romance. Poesia, ensaio, conto. A revista do último mês, até mesmo a do ano passado - os consultórios médicos são a prova de que revista não fica velha.

O selo traz impressa a frase "Leia e passe adiante" e ficará disponível na própria estante, a fim de que os participantes da campanha o fixem nas publicações na hora em que entregarem o material. O desenvolvimento dessa peça, do cartaz e do folheto que divulgam a iniciativa coube ao Laboratório de Tendências, e o projeto será administrado pelo Laboratório de Eventos, ambos vinculados à Famecos. Informações sobre a campanha serão publicadas neste site.



Escrito por Cacto às 14h10
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   Marlon Brando, rogai por nós!

Tá nos jornais: as empresas que querem cobrir o território gaúcho com lavouras de eucalipto, acácia e pinus, graças ao apoio irrestrito do governo do Estado, ganharam a queda de braço com os ambientalistas. Ontem, o Conselho Estadual do Meio Ambiente aprovou o chamado zoneamento florestal, que define limites (ah?) para o plantio industrial de árvores. Em nome da verdade, é bom que se diga que o documento vai implantar uma espécie de oba-oba com aroma de eucalipto. A proposta original da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) defendia que as plantas exóticas plantadas ocupassem no máximo 50% de uma propriedade. Até o mês passado, discutia-se no Conselho um limite de 30% em cada uma das 45 regiões em que foi dividido o Estado, sem teto por propriedade. Sabem qual o teor da proposta aprovada? Não há percentuais pré-determinados. Assim sendo, Stora Enso, Aracruz e VCP Celulose - as três maiores empresas interessadas na questão, donas de projetos que somam US$ 4,5 bilhões - podem plantar quantas árvores quiserem. O texto aprovado fala que cada caso terá uma avaliação específica... Desta forma, o governo garante que abusos serão coibidos. O documento que defende os interesses da governadora Yeda Crusius ainda menciona que o autor deste blog tem a cara e o corpo do Marlon Brando por ocasião das filmagem de "Um bonde chamado desejo". Interessados em conhecer meu portfolio audiovisual podem passar nas locadoras mais próximas de sua casa ou garimpar no Youtube.

Os ambientalistas alegam que a supressão dos limites libera a expansão das lavouras de árvores exóticas, o que pode causar sérios danos ao ecossistema nativo. O cultivo desenfreado alegra o raciocínio contábil da governadora, mas ameaça a sobrevivência de plantas e espécies animais em razão do elevado consumo de água por parte das árvores usadas na produção de celulose. Também reduz o espaço para circulação dos animais. Mas num Estado falido e governado de maneira arbitrária, de que valem argumentos ecológicos?

Marlon Brando, rogai por nós!



Escrito por Cacto às 12h42
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   A coragem e a importância da entrevista de Mário Corso

Acompanho com interesse o que a imprensa tem publicado sobre o suicídio do garoto Vinícius Gageiro Marques, o Yoñlu, que se matou com a ajuda de internautas quando tinha 16 anos, em 26 de julho de 2006, e transmitiu seu ocaso em tempo real. Minha atenção decorre do absurdo da história e também da curiosidade em saber como a mídia lida com a cobertura de um suicídio, tema tabu e habitualmente sem espaço na cobertura jornalística. A história ganhou visibilidade quando ZH publicou uma primeira reportagem, fruto de um intenso e cuidadoso debate interno para saber se o episódio viria à tona e de que maneira. Mais do que noticiar um suicídio, a idéia era fazer um alerta: atenção, adultos, atenção, pais, vocês sabem o que se passa quando as crianças ficam horas e horas imersas na internet? É claro, a internet não é a vilã, não deve ser satanizada a priori, mas não há dúvida de que ela é o ambiente onde pessoas sacanas, amorais, criminosas e perversas agem. Isto não é papo careta, isto é o mundo real. Por mais que se fale em virtualidade etc., a internet e seus sujeitos são tão reais quanto um pedófilo que age em um apartamento mofado.

Voltando ao Vinícius. Apareceu uma outra leva de material na imprensa quando descobriu-se que o garoto deixou um legado de 60 músicas gravadas que originaram um CD com 23 faixas. Houve cobertura em ZH e nas revistas Rolling Stones, Época e Aplauso (Aliás, não entendo por que o tema foi capa da Aplauso... não vejo problema em darem espaço ao assunto, mas capa, depois que o assunto já foi amplamente noticiado? Parece-me um erro de avaliação.) Fico pensando se não há uma tendência, neste caso, a se criar um mito, um herói, algo do tipo. A morte tem o poder de relativizar feitos da vida, sublimar erros ou dar um tratamento hiperbólico para personalidades e obras. Talvez algo parecido possa estar ocorrendo... Talvez o Gabriel, futuro orientando, responda a isso, já que ele pretende construir sua monografia sobre o tema.

De tudo o que saiu na imprensa, destaco aqui a entrevista que a Eliane Brum fez com o Mário Corso, psicanalista que tratava o garoto, publicada na edição de 11 de fevereiro da revista Época. A seqüência de perguntas e repostas é surpreendente. Revela um profissional lúcido, pesaroso, humano, saudoso e, sobretudo, corajoso por se expor, afinal, ele trata na entrevista sobre um paciente que se matou. Corso aceitou falar porque queria dar amplitude a um crime cometido por meio da internet, porque pretendia fazer um alerta, porque teve valentia e lucidez para dar luz a uma história tão eivada de horror e componentes ainda desconhecidos para boa parte das pessoas. Quem quiser ler a versão expandida da entrevista, no site da Época, clique aqui.



Escrito por Cacto às 12h13
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   Cada um faz o que quer com os dedos

Alguém sabe me explicar por que grande parte dos rapazes fotografados faz pose com os dedos? É, eles projetam a mão para frente, separam alguns dos dedos e esboçam uma cara que sugere "estou fazendo pose pra foto". No fundo, acho meio patético... mas e daí, né? Cada um faz o que quer com os dedos.

Escrito por Cacto às 11h34
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   Apaguem a tocha!

Maravilha: a tocha olímpica teve de ser apagada duas vezes no percurso planejado por Paris em razão das manifestações contrárias ao mando chinês no Tibete. Maravilha! Fala-se muito na força do esporte em unir os povos e tal. Pois sim, Jogos Olímpicos e Copa do Mundo são, na verdade, uma mega-über-hiper-farra dos anunciantes e dos comitês organizadores. Essa praga se espalha até mesmo para as versões mais minguadas. Alguém ainda se lembra da farra de dinheiro do Pan? Alguém sabe me dizer se algo vai ser feito contra os desmandos e as falcatruas do comitê que tramou o Pan no Brasil? A agora ainda vai ter Copa do Mundo por aqui... Consigo imaginar a felicidade dos Teixeiras da vida e sua corja da CBF. Mas voltando às Olimpíadas do chinaredo: já que a tocha é algo meramente simbólico, então que seja apagada, que seja molhada! Quando tudo é uma grande palhaçada, quando o papo de paz mundial soa tão pueril e raso, quero mais é que os símbolos dimensionem um pouco da farsa.

Escrito por Cacto às 12h34
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   Antonieta foi decapitada, e eu quase quase fui demitido

Li em ZH que a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz está completando 30 anos, aí me lembrei de uma reportagem sobre esse grupo de teatro que quase me rendeu uma demissão do jornal. Nunca fui demitido sem querer. Nas ocasiões em que acabei desligado de algum emprego, foi conseqüência da minha vontade de sair, mas naquele longínquo 1993 quase perdi o controle da situação.

Era um domingo de fevereiro. Na época eu trabalhava no Segundo Caderno e estava escalado para cobrir a estréia de Se não têm pão, comam bolo, espetáculo de rua que o Ó Nós Aqui Traveiz apresentou no Parque Farroupilha. A encenação mostrava a penúria na qual o povo vivia no período que antecedeu a Revolução Francesa. A intenção era evidenciar que a situação tinha paralelo com o Brasil de então.

Segunda-feira, dia da publicação do meu texto, quase que também foi a data de minha estréia no time de desempregados. O Augusto Nunes, diretor de redação de ZH na época, odiou o que escrevi. Mais do que tudo, ele detestou o tom, as evocações, as referências. Relendo o texto, confesso que não o faria da mesma forma hoje, mas gosto de saber que enfureci o Augusto por alguns momentos. Acabei não indo pra rua. Acho que, no conjunto, pesou a meu favor o restante de minha atuação no jornal. Mas foi um dia e tanto... eta se foi...

A peça era uma criação coletiva do grupo e nela atuavam Arlete Cunha, Kike Barbosa, Rogério Lauda e Sandra Possani. A Revolução Francesa - quando a rainha Maria Antonieta disse "se não têm pão, comam brioches" ao saber que o povo passava fome e acabou perdendo a cabeça na guilhotina - inspirou o tema da montagem. O espetáculo começava com a identiticação dos personagens. Juvêncio saiu do Nordeste e encontrou no Paraná a trapezista Dorvalina. O casal partiu para São Sebastião do Caí e lá conheceu Formosa e Garaldinho do Chiqueiro. Os quatro então montaram uma trupe que começou a viajar pelas metrópoles contando histórias. Como o causo de "uma tal rainha Antonieta que mora num palácio e o povo, na sarjeta".

Acho que minha quase demissão começou a ser delineada já na abertura do texto: "A tão falada modernidade não conseguiu varrer a fome do Brasil, apenas escondeu-a embaixo de pontes e viadutos. Um de seus atos foi camuflar a miséria que a Tribo de Atuadores Ói Nós Aqui Traveiz escancarou para quem assistiu ao espetáculo de rua Se não têm pão, comam bolo (...)". No meio, escrevi, sobre o andamento do espetáculo: "Os saltimbancos da Terreira, após decidirem pela morte de Antonieta, buscaram na roda formada pelo público um voluntário para desferir o golpe da guilhotina. Antes do surgimento do algoz, um dos muitos meninos de rua, que perambulam pedindo dinheiro ou pão velho, ajudou os saltimbancos a depositarem na guilhotina o real pescoço do boneco que representava Antonieta". E para quem pensasse que a decapitação encerrava a peça, um dos atuadores bradou: 'Mas a história continua. A justiça não se faz com o horror. Esse ato cruel não adianta. A miséria que existia é a mesma de hoje em dia. Liberdade, igualdade, fraternidade'. A cabeça rolou, mas o povo que era pobre, pobre continua".

Agora, mais do que a abertura do texto, o que quase pavimentou meu caminho até o Departamento Pessoal foi este trecho:"Por mais que Marx esteja distante das vitrinas ideológicas ou que o considerem démodé, a Terreira propôs que a luta de classes resiste, principalmente no porão do planeta: o Terceiro Mundo. A miséria não morreu, cada vez engorda mais com a fome de milhões de brasileiros". Escrevi mais algumas coisas... mas admito que são bobagens que não vale a pena transcrever.

Deste episódio, o que mais me marcou, além da quase demissão, foi o silenciamento de quem editou o texto. O editor é uma espécie de cargo de confiança no jornal e tão responsável pelo que se publica quanto o repórter. Mas, em ocasiões como a que descrevi aqui, o erro, ou o que os chefes supõem ser um erro, é atribuído unicamente ao repórter que, quase sempre, acaba responsabilizado. Sozinho! Isso tudo me marcou tanto que, quando virei editor e algo dava errado, eu dividia a responsabilidade com o repórter.



Escrito por Cacto às 16h22
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   Eu devia ter subido o morro de novo

Ando meio nostálgico... ok, perdão pela obviedade. Recomeço: ando meio nostálgico em relação a textos antigos que escrevi quando ainda era repórter da Zero Hora. A responsabilidade é da Júlia Timm, que planejou fazer uma reportagem sobre a procissão do Morro da Cruz, em Porto Alegre. O trabalho será publicado na revista que edito com os alunos do sétimo semestre. Quando ela apresentou a pauta, logo lembrei de uma história que seguidamente aparecia nas reuniões da editoria Geral, da ZH. Um bom repórter precisaria ter feito, pelo menos, três coberturas: motim no Presídio Central, festa de Navegantes e procissão do Morro da Cruz. Naquela época eu era editor. Antes, já havia saído às pressas da redação pra ver que confusão acontecia no maior presídio gaúcho. Também já tinha me esbaldado retratando a fé que, em pleno calor de 2 de fevereiro, tira de casa milhares de pessoas que vão homenagear a padroeira de Porto Alegre. Faltava o Morro da Cruz... então percebi que era uma perfeita oportunidade para voltar à rua. Como ninguém estava muito a fim de fazer a empreitada de subir quase 2 quilômetros morro acima acompanhando os fiéis, me escalei para trabalhar na Sexta-Feira Santa. Fui, tomei um torrão, me cansei, mas no sábado que antecedeu à Pascoa de 1997 o jornal publicou um dos textos que eu mais curti fazer.

Ele começa assim: "A aparição de três anjos montados em pernas-de-pau avisa a comunidade do Morro da Cruz que a mais importante, emocionante e conhecida história do Cristianismo estava para ser encenada num pobre lugar de Porto Alegre. Como ocorre desde 1960, os moradores do morro apresentaram ontem à tarde o espetáculo A Paixão de Cristo - Procissão do Morro da Cruz". Mais adiante, escrevi: "Antes que o diretor de teatro Camilo de Lélis comece a narrar o espetáculo, os arautos angelicais abrem caminho entre o público espalhado à frente do Santuário São José do Murialdo. As crianças se maravilham com os anjos de nariz de palhaço, corpo de boneca de pano, pernas gigantes e asas de querubim". Outro trecho, que se refere ao desenvolvimento da caminhada: "As ruas se agitam com as milhares de pessoas que se espremem entre os cordões das calçadas. Cachorros latem em volta dos atores e dos fiéis. Janelas se abrem, emoldurando rostos que liberam preces inaudíveis. Crianças correm de um lado para o outro e desafiam os fortes homens que isolam com uma corda os atores durante a caminhada. Os chicotes estalam. Parecem de verdade - às vezes machucam mesmo. Os dois prisioneiros condenados junto com Jesus de Nazaré lançam-se contra o público para abrir caminho. A gurizada desafia, avança, recua".

Perto do final, contei: "Na primeira parada, Cristo encontra sua mãe. Maria (a excelente atriz Lígia Rigo) dá o mais silencioso, o mais doloroso, o mais sofrido e o mais derradeiro beijo em seu filho atraiçoado. A despedida é abortada por um legionário romano que puxa os cabelos de Cristo para recomeçar o calvário. Na segunda parada, Verônica se solidariza com a penúria do Mestre e enxuga com um pano o sangue e o suor que tingem a face do condenado. Sua imagem fica gravada no trapo, e Verônica o sustenta como um estandarte do sofrimento".

Aí finalizei: "No alto do morro, Cristo é crucificado. Neste momento, e durante toda a escalada, as cenas chegam turvas aos olhos emocionados de parte das pessoas que foram testemunhas dos últimos momentos do Redentor. Quando o Nazareno ressurge, foguetes estouram no topo do morro. Moradores libertam pombos no pátio dos seus barracos. Todos aplaudem. O padre brada 'Viva Jesus, vida o povo de Deus, viva o Morro da Cruz". Termina fazendo uma elegia à comunidade do morro, que padece com o estigma da violência, mas é autora de um dos mais belos ritos religiosos e culturais de Porto Alegre".

Depois de reler minha reportagem, fiquei com remorso de não ter acompanhado a Júlia na escalada.

(Obrigado, Carol, por ter localizado o texto no arquivo do jornal.)



Escrito por Cacto às 17h08
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   Irritação porto-alegrense

A primeira-dama do município de Porto Alegre cantando "Porto Alegre é demais" nas propagandas da rede Zaffari - que são criadas pela agência de propaganda de um parente dela - durante a semana de comemoração do aniversário da cidade. E não é de agora...

Pode haver algo mais irritante?

Escrito por Cacto às 01h44
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   O mundo transmutado em fábula como possibilidade de redenção

Katarina, em seu blog (palestinadoespetaculo.zip.net) e em sua fala fulgurantes, já havia bradado aos espíritos menos incautos: prestem atenção no filme "O labirinto do Fauno" (2006), de Guillermo Del Toro. Com atraso, apenas ontem assisti ao DVD. O filme se passa na Espanha de 1944, quando o ditador Franco já havia vencido os grupos republicanos de esquerda, embora houvesse focos de resistência encrustados nas matas e cavernas. Conforme escreveu Katarina, a Guerra Civil Espanhola foi a última em que as pessoas lutavam não por dinheiro, petróleo ou território, mas por um mundo livre. Se somente esse mote não fosse suficiente para fazer da obra indispensável, há que se dizer que suas qualidades fílmicas são vastas. Fotografia, roteiro, interpretações, música, montagem, direção de arte... O que se vê é uma criação autoral, singular, elaborada, densa, provocativa, tocante, metafórica, alegórica, fantástica. Cada vez mais devemos prestar muita atenção em obras que tenham a chancela de três mexicanos: o diretor deste filme, Alejandro Gonzáles Iñárritu e Alfonso Cuarón (também produtor de "O labirinto...").

Ofélia é uma garota que acompanha a mãe grávida e fragilizada até o interior, onde encontra o padrasto, um capitão fascista. A missão do militar é eliminar o foco de resistência na região. Na casa, encontra apoio e acolhida com a empregada. Acossada pelos fatos e pela indiferença e hostilidade do homem que era forçada a chamar de pai, Ofélia, uma apaixonada por contos de fada, estabelece uma dupla realidade. Ao vasculhar as redondezas, guiada por um tipo de louva-a-deus que se transforma em fada, descobre um antigo labirinto que conduz, através de uma trilha subterrânea, até um velho Fauno. Ele desvela a ancestralidade da garota: uma princesa que desapareceu do Reino das Fadas. E se antes da lua cheia ela executar três tarefas apresentadas pelo ser mitológico, tem a chance de recuperar sua posição e reinar ao lado do pai. Este universo aparece durante todo o filme de maneira paralela e, por vezes, sobreposta à outra realidade em que Ofélia se encontrava, pautada pela brutalidade das ações do capitão - apoiado pelos ricos e pela Igreja - em exterminar os resistentes. A garota era o ponto de convergência entre os dois mundos, e esse jogo, a tensão entre as distintas esferas, se estende até o final, quando o público mais uma vez, uma derradeira vez, se vê confrontado com duas possibilidades, duas noções de real - afinal, real é o que cada um toma por real, né?

Talvez um dos aspectos mais interessantes do filme sejam os mecanismos emocionais, puramente subjetivos que as pessoas precisam urdir para sobreviver à adversidade, ao arbítrio, ao horror, à guerra, à liberdade podada. E se os sujeitos são crianças, o mundo transmuta-se em fábula como possibilidade de redenção, de sublimação.

Katarina disse em seu blog que, tomada por um ímpeto professoral, queria encher um ônibus de alunos e levar todos a assistir ao filme. Na verdade, ela escreveu muito mais: "(...) me deu um certo instinto de professorinha de colégio, a encher um ônibus escolar e levar todos os meus amigos de esquerda, inclusive os que foram torturados pelas ditaduras, para ver, como uma prova de que não devemos tremer por dentro diante da eternidade da forma da verdade, da liberdade e do compromisso". Como a programação dos cinemas hoje é outra, conclamo, inspirado pela Katarina: peguem na locadora, comprem o DVD. Vejam "O labirinto do Fauno" e descubram os descaminhos de Ofélia/da Espanha em busca da liberdade.

Escrito por Cacto às 12h50
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   Nem uma legítima ilusão à la Martha salvaria o país invadido

Martha, aquela mesma, em crônica recente escreveu que costumava evocar o Tibete como metáfora para tranqüilidade, absoluta paz, introspecção, suavidade, felicidade plena, compreensão mútua etc., enquanto o Timor Leste representaria o oposto. Ha-ha-ha.

No segundo parágrafo, ela avisa que o pequeno território está no noticiário internacional em razão da ofensiva chinesa que tenta abafar os protestos dos tibetanos contra a invasão iniciada em 1950 pelo país que logo mais vai sediar os Jogos Olímpicos. No terceiro, arrisca: "Quem conhece bem a história tumultuada do Tibete sabe que essa ilusão de ele ser um país transcendental é apenas isso, uma ilusão - mas quem de nós não precisa de uma ilusãozinha de que a paz sobrevive em algum lugar? Quando vi as imagens de monges chutando vidraças e atirando pedras em edifícios públicos, pensei: o mundo acabou mesmo. Monges tomados pela raiva! Revoltados! Agindo como estudantes da UNE em 1968! Como dói o desfacelamento de um estereótipo.".

Se ela tenta sugerir que sabia, de fato, o que se passava no Tibete, como manter uma ilusão, um estereótipo em relação a algo tão delicado quanto a invasão de um país por outro, quanto a aniquilação de uma cultura, quanto o silenciamento de um povo na marra, no cacete? A situação é tão delicada, Martha, que os últimos jornalistas estrangeiros que ainda trabalhavam na região foram expulsos do Tibete para que o mundo não saiba o que se passa lá. Milhares de chineses armados se dirigiram ao local para conter os protestos, que brotaram em diversos pontos além de Lhasa, a capital. E a ONU, esta organização tantas vezes protagonista de atitudes risíveis e inócuas, como se estivesse comandada por titereiros transnacionais, não vai conseguir quase nada, pra não dizer nada, pois a China é membro permanente do seu Conselho de Segurança, o que lhe garante veto. Ou seja, nenhuma resolução condenando a repressão chinesa aos protestos tem chances de aprovação. E como o potencial lucrativo oriundo dos 1,3 bilhão de consumidores chineses vale mais do que a agonia dos pouco mais de 1 milhão de tibetanos budistas, qual país está a fim de se indispor contra a economia que mais cresce no mundo? Neste caso, nem uma legítima ilusão à la Martha salvaria o país invadido.

Escrito por Cacto às 18h46
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   Um jornalismo insubordinado aos manuais de instruções

Não quero diminuir o espaço ou a importância do jornalismo praticado conforme modelos tradicionais, embora o empobrecimento dos textos, o nível raso das apurações e a incipiência das pautas sejam mais perceptíveis em redações com experiências mais canônicas, principalmente nas de grande porte. Feita a salvaguarda ao lead, à pirâmide invertida e quejandos, quero enaltecer as múltiplas possibilidades de um jornalismo insubordinado aos manuais de instruções.

Nas várias disciplinas que ministro na universidade, preciso ensinar desde os rudimentos da forma mais elementar de notícia até experiências narrativas mais elaboradas. Na segunda possibilidade, busca-se um olhar menos padronizado e engessado desde a formulação da pauta, a maneira como se lê o mundo e se recorta a realidade, passando por um exercício de reportagem, uma apuração mais atenta, sensível, aprofundada e sem pressa, até chegar a uma escrita que dimensione e contextualize os fatos na grandeza que eles têm e merecem e que também busque nas palavras a amplitude de recursos permitidos pelo idioma. Sem escorregar para pieguices e maneirismos.

Nos últimos semestres, busco sensibilizar os alunos para estas questões, principalmente com a criação, na faculdade onde leciono, de uma disciplina específica para se discutir e praticar jornalismo literário. Tento provocá-los, instigá-los, entusiasmá-los para a diversidade das possibilidades do jornalismo. Fugir da obviedade e da mesmice tão perceptíveis nas pautas. Respeitar as pessoas e a real dimensão dos acontecimentos. Agir sem intolerância e preconceito para com o outro, o diferente, o menor. Tratar o texto não como um formulário, mas como a cartografia de uma vida, de um fato, de um fenômeno, de um pensamento, de uma tendência, de uma lembrança. Às vezes fico em dúvida no acerto das opções que faço, no alcance das aulas e das provocações... mas se tivesse certeza as coisas estariam perdidas.

Ontem, discutindo as pautas da revista feita pelos alunos do 7º semestre, falava da diversidade de maneiras de se contar uma história e lá pelas tantas senti necessidade de prolongar a discussão por outras veredas. O que distingue o jornalismo da literatura? O que faz um texto ser reportagem? A ética! Mais do que formato e suporte, o que distingue o jornalismo de outras formas e experiências narrativas é a relação ética estabelecida com o objeto, com os sujeitos envolvidos, com os acontecimentos. Mesmo que por vezes a palavra ética pareça esvaziada de tão enaltecida e decantada, é de ética que cada vez mais o jornalismo precisa.

Escrito por Cacto às 15h53
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   Um debate que nos aproxima

O celular toca. Um número de São Paulo. Achei que pudesse ser algum banco querendo me infernizar e atendi sem muita convicção. Então ouço um senhor de voz possante e singular me cumprimentando e logo se apresentando: era o Joaquim Palhares, diretor da Agência Carta Maior.

Acho fantástico os mecanismos das relações, das convergências. Há algo maior que aproxima certas pessoas e grupos. Penso neste momento na comunidade de blogs que tentam pensar o mundo em bases dissonantes da dominante - e lembro de imediato o RS Urgente, do Marco Weissheimer, e uma recente descoberta, O biscoito fino e a massa, do Idelber. Penso nos blogs que estão transformando a natureza da indústria fonográfica, um movimento que teria uma análise muito simplista se fosse chamado de pirataria. E no meio disso tudo o Palhares me liga, do nada, em meio a uma tarde morna de Porto Alegre, engatando um monólogo entusiasmado sobre a necessidade de discutirmos a mobilização da mídia alternativa e o quanto é importante envolvermos os estudantes no debate. Enquanto eu o ouvia, tive a certeza de que ele gesticulava em sua sala, em São Paulo. Impossível um homem de esquerda como ele falar sentado ou sem romper o ar com seus movimentos que atendem ao impulso do seu cérebro articulado. Esses caras são empolgados. São emocionantes.

Pois bem, vamos ao que interessa: na próxima quinta-feira, dia 20 de março, às 18h30min, haverá um encontro para discutir a mídia alternativa. A função toda ocorrerá na sede do Diretório Central de Estudantes da UFRGS (Av. João Pessoa, 41). Participará do encontro o próprio Palhares, que vem a Porto Alegre no rastro de um movimento nascido recentemente e cujo relato está no site da Carta Maior.

É feriado na PUC, então felizmente poderei ir. Espero vocês lá, caros e queridos alunos. Não haverá chamada, mas seria bem bacana - pra não dizer importante - que vocês fossem.



Escrito por Cacto às 11h51
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   O Cacto deu fruto

Há alguns meses publiquei neste blog um texto no qual eu fazia uma aproximação entre dois filmes aparentemente distantes: "O segredo de Brokeback Mountain" e "Tropa de elite". Depois disso, um dos atores que viveu o idílio com o outro caubói morreu e o longa-metragem brasileiro ganhou o prêmio máximo no Festival de Berlim. Achei que era um bom mote para estender minha idéia e, no final da história, nasceu um artigo. Pois ele vai ser publicado no próximo número da revista NORTE. A publicação, que chega ao número 3, é uma iniciativa bem bacana do Tito Montenegro e sua editora, a Arquipélago. Está lá no site: "NORTE é resultado de uma idéia, meses de trabalho e a imprescindível colaboração de um time de jornalistas, escritores, ilustradores, fotógrafos e designers. A idéia era criar uma revista que, produzida no extremo sul do Brasil, não tivesse em sua pauta a restrição aos assuntos locais. Nosso ponto de vista é sulista, pode-se dizer, porque é daqui que assistimos o mundo dar suas voltas, mas nem por isso deixaremos de acreditar que a diversidade e o diálogo são fundamentais na busca de um norte".

O lançamento do número 3 da NORTE será na próxima segunda-feira, 24 de março, às 19h, na Palavraria (Rua Vasco da Gama, 165, em Porto Alegre). Eu tenho aula, mas assim que terminar vou para lá. Quem quiser e puder, faça o mesmo. E quem quiser saber o que teve na edição anterior, dá uma olhada no site (www.revistanorte.com.br).




Escrito por Cacto às 21h36
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   Em respeito às sincronias

(Na minha leitura diária de alguns blogs, vi um texto que me lembrou de um outro feito por mim. Fui atrás dele e quase ocorreu uma epifania. Se eu tivesse relido não hoje, mas daqui a uma semana, seria o dia em que se completariam exatamente dois anos da escrita. O que isso significa? Nada, é verdade. Tolice de quem está atento para as sincronias. Mas com sou atento a sincronias, republico aqui o texto.)

A cartografia do passado tem gosto de goiaba

O cheiro é familiar. O mormaço do início da tarde preenche o ar com um cheiro azedo, azedo adocidado, um cheiro de natureza podre. A reação despertada pela minha memória olfativa é tão intensa e inusitada que preciso parar a fim de identificar aquele estímulo. Tiro o protagonismo do nariz e volto a ler o mundo com os olhos, embora o mundo pretérito siga traduzido em cheiro. É uma goiabeira, uma robusta árvore que espalhou seus frutos maduros sob o diâmetro de sua copa. O tecido amarelado rompido pela queda desnuda o miolo rosado que impregna o ar com um aroma acre da minha infância. O ar tornado denso pelo dia de sol tem camadas e mais camadas de odor e distintos níveis de lembranças. Sufocado pela experiência imprevista, afogado na atmosfera emanada do fruto ancestral, me aproximo do campo bordado por esferas imperfeitas e me ajoelho, num ato de contrição ao que fui. O golpe no solo provocado por minhas pernas dobradas estraçalha algumas goiabas. O sumo rugoso faz meus joelhos deslizarem pela grama e, impulsionado pelo movimento, pelo mergulho, pelo reencontro, estiro meu corpo adulto no verde manchado. Fecho os olhos. Tranco a respiração. Respiro. Tranco novamente. Torno a respirar. Paro. E sigo nesta alternância. Bloqueio o ar. Libero o ar. Sim. Não. Sim. Não. E quando me basto apenas com o ar aprisionado nos pulmões, viro um tacho, um tacho em formato de corpo, e transformo em pasta escura o ar que respirei neste frutado campo elíseo. O ar vira goiabada, irriga minha carne e se apodera de mim. E quando me percebo restabelecido, e quando meu sangue assume a cor do conteúdo dos velhos potes adornados por tecido quadriculado, passo a me deslocar. Meu corpo encolhe gradualmente até eu me igualar à estatura das larvas brancas que se confundem com a massa rósea dos frutos tombados. E numa perfeita simbiose com os bichinhos, mergulho na polpa de cheiro forte e percorro uma cartografia do passado.



Escrito por Cacto às 15h25
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   O tempo anestesia a dor

Pessoas que tememos encontrar quando dobramos a esquina. Coisas ouvidas que machucam ao ecoar desde o passado. Coisas ditas que provocam arrependimento cada vez que submergem de tempos pretéritos, mas sempre tão presentes. O silêncio que se fez quando a palavra deveria existir. O ato inadequado, a palavra desastrada, o gesto insuficiente, o sorriso sem sinceridade, a ausência no encontro, o trato desfeito, a urgência da saída, o atraso do retorno, o olhar que foge aos olhos posicionados em frente. A mágoa. A dor. O remorso. A culpa. O desconforto.

Uma das coisas que mais me surpreendem com o passar do tempo é a capacidade de sobreviver. Feito um instinto de preservação, algumas coisas se acomodam, se ajeitam, mesmo que sem resolução. O erro, a ausência, o dolo, sobretudo a dor que de fato sentimos - mais do que presumimos -, a causa disso tudo persiste, não teve reparo, mas aos poucos as tintas vão esmaecendo. Lentamente, muito lentamente, o viço da mágoa perde a tensão. Incapazes ou incompetentes para dar conta das mazelas, acabamos por deixá-las do jeito que sempre estiveram, até o dia em que percebemos o quanto a dor já foi relativizada. É como o vento que dissimula a pegada, a onda que esconde a toca na beira do mar, a sombra que em determinada hora do dia acaba por proteger a flor.

O tempo vence. Ou melhor, o tempo anestesia a dor. Nem sempre - às vezes. O que não deixa de ser um consolo... Mesmo que sejamos fracos ou impotentes, alguns fardos o tempo tira do nosso lombo. E assim vamos em diante. Pode não ser fácil, mas poderia ser mais difícil. E mais do que resignação, isso é o tempo.

Escrito por Cacto às 11h55
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   Um chocolate com pouco cacau

(Uma amiga organiza um evento bem bacana messsssmo chamado Mesa de Cinema, que mistura cinema e gastronomia. Tudo acaba numa grande comilança regada a muito vinho. Imperdível! Neste ano, serei o condutor dos debates que acontecem após o filme e que antecedem o almoço. No próximo sábado, a função toda se inspira no filme "Chocolate". Fiz um texto sobre o filme, que publico aqui. E mais informações sobre o Mesa de Cinema podem ser obtidas no site www.mesadecinema.com.br. Aos amigos interessados, posso conseguir um desconto.)

No filme "Chocolate", o diretor sueco Lasse Hallström acertou na mão, na medida, no tempero… mas não obteve uma fina iguaria. Não produziu um Ferrero Rocher, nem um Hershey's Special Dark – para ficarmos em exemplos facilmente encontráveis por aqui –, mas um Refeição. Vocês sabem do que falo: aqueles chocolatinhos compridos produzidos pela Neugebauer, envoltos em papel branco que, embora sem maiores atributos, são tentadores e convidam a uma comilança em seqüência. Sem falar que estão em qualquer boteco, ao lado do caixa, compráveis com qualquer punhado de moedas. Mas voltemos ao "Chocolate" – o filme, atração do próximo Mesa de Cinema, que trata de liberdade e de moralismo.

A história: Juliette Binoche – sempre linda, sempre adequada, sempre talentosa – dá vida a Vianne, mãe solteira que em 1959 chega com seu rebento de seis anos, a narradora da história, Anouk (Victoire Thivisol), ao vilarejo de Lansquenet-sous-Tannes. A cidadela fica no interior da França e nela tudo parece estar igual há pelo menos um século. A forasteira chega num dia de vento forte, abrigada numa capa vermelha com capuz que de imediato estabelece o clima de contraste presente em todo o filme. Mais do que na vestimenta, é no comportamento, no modo de pensar e nas sensações despertadas na população que Vianne se sobressai. Logo ela aluga uma loja abandonada da rabugenta Armande Voizin (Judi Dench, sempre ótima). Transforma completamente o local, localizado no largo em frente à igreja, e abre uma chocolaterie.

A loja de chocolates foi inaugurada justamente no período em que os moradores começavam a se preparar para o jejum da Quaresma. Isso causou celeuma, claro. Na cidade, todos sabiam o que fazer e, caso esquecessem, alguém prontamente lembraria dos rigorosos ditames morais. O conde Reynaud (Alfred Molina), prefeito caricato de tão zeloso que é pela preservação dos bons costumes, orquestra a vida de todos, a ponto de escrever o sermão do padre novato. Nesse ambiente, a forasteira que tem filha, mas não tem marido e, pra piorar tudo, usa sapatos coloridos, se deleita em adivinhar qual é o chocolate preferido das pessoas. Ato contínuo ao acerto, oferece iguarias em que o cacau, misturado aos ingredientes certos, tem a capacidade de liberar os instintos e os desejos. Em alguns casos, desperta a sensualidade.

Vianne é a guardiã das fórmulas aprendidas com sua mãe, uma índia maia que encantou um francês que participava de uma expedição científica pela América Central. Assim como sua mãe, ela dá ouvidos ao instinto e não se curva a ninguém – apenas ao chamado do vento norte que, quando sopra com força, indica que é hora de partir. E partindo, ela segue os mesmos desígnios de sua ancestralidade: ir de lugar em lugar, ao sabor do vento, praticar sua alquimia com chocolate e transformar as pessoas.

Para dar sentido às tramas desveladas pelo filme, é preciso vê-lo como uma fábula, ou uma história familiar recheada de maniqueísmos e reduções. Só assim se torna possível admitir o exagero do carola, a pulsão repressora da filha que pretende internar a mãe que padece com diabete, o fantástico poder do chocolate que cura desde inapetência sexual até mulher que fica perturbada de tanto levar sopapos do marido, além de transformar criatuas tristes em pessoas mais felizes, mais leves. Mas o sentido de superação e transformação é tanto que por vezes resvala e faz do filme uma espécie de manual audiovisual de auto-ajuda sabor chocolate.

O desejo – e mais do que o desejo, o atendimento aos apelos do desejo – é elemento central na vida de Vianne. E não somente os próprios, mas os alheios também. A amarga e desiludida Armande, por exemplo, queria uma festa de aniversário. Vianne atendeu o pedido da senhoria, mesmo que, àquela altura, já soubesse que ela era diabética e não podia comer doces, nem cometer excessos, mas o desejo imperou e a festa foi feita, dando vazão a toda sorte de conseqüências.

Juliette Binoche está suave. Não lembra as personagens densas, torturadas e atormentadas de outros filmes, como "Perdas e danos" (1992), de Louis Malle, e "A liberdade é azul" (1993), de Krzysztof Kieslowski. E o filme é bom de ver, um bom programa que atiça as papilas – quiçá outras coisas. Mas um olhar mais atento pode evidenciar certas fragilidades da obra. Por exemplo, os clichês: mulher reprimida no casamento, mãe e filha que não se acertam, sujeito rigoroso que em algum momento resvala na tentação, avó impedida de encontrar o neto, aversão à modernidade e ao diferente, heroína que enfrenta diversidades e acaba por transformar a vida de todos.

O diretor, Hallström, nasceu em 2 de junho de 1946. Desde 1994 é casado com a atriz Lena Olin, que atua em "Chocolate". Conquistou o mundo, em particular a América, com um sensível filme sobre a infância, "Minha vida de cachorro" (1985). Hollywood gostou. Tratava-se de um diretor europeu que discutia sentimentos, relações e subjetividades sem hermetismos, com potencial de agradar até mesmo nos Estados Unidos. Desde então conduziu alguns trabalhos com embocadura correta para um estúdio como a Miramax, que vem se especializando em filmes com cara de europeu sem ser europeu. Isso explica, entre outras coisas, porque um longa-metragem francês dirigido por um sueco é falado em inglês. Mais do que isso, explica o abuso de clichês e o clima de otimismo que pauta o final. Desta forma, parece que "Chocolate", o filme, é feito com pouco cacau.

Alguns destaques: a trilha que, além da composição original de Rachel Portman, traz surpresas do porte de Erik Satie, Django Reinhardt, Duke Ellington, Stéphane Grappelli e George Gershwin – compositores sempre bons de encontrar ou reencontrar. Outra boa presença é o charmoso cigano interpretado por Johnny Depp que, embora apareça tardiamente e pontualmente, reforça o acerto que pauta a escolha do elenco.

Chocolate explora os sentidos, as paixões, as pulsões. Mesmo que sem maiores arroubos de originalidade, mesmo que resvalando em algumas previsibilidades, o filme sugere que devemos atender a esses clamores primais. O que não deixa de ser algo sugestivo, e provocativo, em tempos de Quaresma.


Escrito por Cacto às 11h21
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   Tudo bem, é a endorfina!

No meio de um bate-papo neste domingo, na casa de uma amiga, um dos interlocutores teceu um pequeno tratado sobre a endorfina. Em dias quentes, muito quentes, daqueles em que qualquer pessoa razoavelmente sensata busca sombra e água fresca, pois bem, nestes dias de canícula ele sai pra correr. Perto do meio-dia. Aham. Aí ele vai ao limite da exaustão, perde cerca de dois quilos de tanto que sua e atinge uma espécie de êxtase, um profundo prazer provocado pela endorfina.

Muitas outras vezes eu já ouvi esse papinho da tal da endorfina, embora ela seja tão desconhecida pra mim quanto a visão da Terra a partir da Lua. Mas fiquei encucado... como deve ser esta sensação prazerosa quando o corpo é eletrocutado pela substância tão aclamada pelos atletas? Munido do meu iPod recheado com 30 gigas de boa música, fui à experimentação.

Aqui perto de casa tem uma pista de atletismo. Como todo patrimônio administrado pela governadora Cruz Credo, está caindo aos pedaços a estrutura deste centro esportivo, mas a pista, embora precária, fica cheia. Tem velho bem disposto e saudável, patricinha rebolante e torneada, garotão musculoso e fogoso, dona de casa compenetrada no ritmo, senhores vetustos até mesmo quando vestem bermudas, rapazes possantes como um cavalo de prova, rapazes velozes como um antílope, moças musculosas, magricelas desengonçados perdidos no meio de roupas largas, renascentistas com ar de que não estão no tempo nem no espaço certos... tem de tudo um pouco, mas, sobretudo, atletas. Eles são irritantes. Eles correm muito e velozmente sem ficarem esbaforidos. Eles têm pose como cachorros galgos. Eles se vestem como atletas. Eles são munidos de reloginhos e pequenos aparelhos que medem até mesmo o número de vezes que as pálpebras piscam. Eles se conhecem. Eles têm treinadores. Eles são irritantes de tão felizes e magros. E eu odeio isso tudo, com toda minha convicção.

Eu caminho no meu passo, despreocupado com os passantes - e como eles passam! Mas hoje resolvi acelerar um pouco mais para descobrir, finalmente, como opera a tal da endorfina. Acelerei, caminhei, caminhei, caminhei, caminhei. Fechou uma hora, mas nada de endorfina. Aí lembrei que o surtado que corre no calor do meio-dia falou em exaustão, em limite. Então fui além, caminhei mais, mais, mais, como se na próxima curva estivesse me esperando o gozo, a volúpia travestida de esporte, e todos nós, atletas e semi-atletas, deuses e mortais, fofos e magros, fortes e fracos, velhos e moços, todos se agarrariam no meio da pista de atletismo do Menino Deus e faríamos uma grande orgia, pele com pele, tendão com tendão, músculo com músculo, suor com suor, tudo em nome da deusa endorfina. Nós nos engalfinharíamos no ritmo dos cronômetros dos treinadores bizarros para, na velocidade do ponteiro, chegar ao clímax, à endorfina. Nossos corpos besuntados de suor deslizariam um no outro, uma mecânica perfeita, azeitada, para que nada emperrasse. E assim, quando todos os atletas de todos os matizes estivessem entregues à luxúria nas pistas 1, 2 e 3 - as reservadas para os velocistas -, aí todos gritaríamos em uníssono, tal qual guerreiros de Esparta: ENDORFINA!

Como nada disso aconteceu, tive que me contentar com o êxtase do meu iPod. Toquei músicas que há muito não escutava e me emocionei muito. Música me emociona de uma forma tão intensa, tão especial que fica difícil de explicar. Ouvi uma, outra, mais... mais... mais... e chorei. Eu sou tão ridículo, tão patético que em plena pista de atletismo esburacada eu chorei por causa de umas músicas. Talvez tenha sido bom. Acho que eu precisava chorar - credo, como estou confessional neste texto. E como eu verti muito suor, as lágrimas se mimetizaram em minhas faces já salgadas. Mas se mesmo assim alguém se espantasse com meus olhos marejados e viesse perguntar se estava tudo bem, eu diria, meio gabola, com ar de bazófia dissimulada:

- Tudo bem, é a endorfina!


Escrito por Cacto às 18h43
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   Uma dama de anágua

Das palavras que ilustraram e, de certa forma, abreviaram minha infância, anágua era uma delas. A-ná-gua. Custei a decifrar as sílabas, tão sonoras e liquefeitas - embora não tenha nada a ver com água. Minha mãe usava pouco, quase nunca. Minha vó usava mais. Eu associava anágua com recato. Ao vesti-la, a mulher atenuava ou acabava com a transparência da saia ou do vestido. Também impedia que o tecido da roupa ficasse aderente às curvas do corpo. Anágua também me dava uma idéia de capricho, asseio, elegância. Elas eram de tecidos leves e lisos, cores neutras, e no final havia uma pequena renda. Assim, caso a peça saísse do anonimato e viesse à tona, era o acabamento, o ornamento da anágua que seria revelado aos olhos.

Pois hoje de manhã eu caminhava por uma avenida perto de casa e vi uma senhora meio sem destino, meio perdida na calçada. Ela dava uns passos incertos e parava. Olhava o chão, a rua e seguia. Cabelos grisalhos e manchados, como se restos de pinturas ainda resistissem nos fios amarfanhados. Roupas velhas, amarrotadas, sujas. Um aspecto roto. Na mão, uma sacola - todo andarilho tem uma sacola... E embaixo da saia encardida, uma anágua. Sim, a mendiga, a maltrapilha, a louca - ou qualquer outra alcunha que pudesse ser dada a esta senhora - vestia uma anágua. Uma anágua com renda.

Eu fiquei comovido com a cena. Que passado teria esta mulher para, mesmo vivendo na adversidade, numa aparente miséria, ela se dar à minúcia, à delicadeza, ao recato de usar uma anágua? Que vida ela viveu em que havia espaço para uma anágua? Provavelmente a busca por comida e dinheiro, a procura por um lugar pra descansar, tudo isso esteja na prioridade de sua vida. Mesmo assim ela usa anágua. Ela é vaidosa. Ela um dia foi uma garota, e naquele tempo aprendeu que mulheres usam anágua. Por recato, por capricho.

Juro que pensei em lhe fazer um galanteio, um elogio, beijar a mão... mas seria tudo tão inusitado, quase bizarro, que obviamente me contive. Lembro de uma amiga que, ao ver um gari muito gostosinho, juntou os lábios e fez... ah... qual seria a onomatopéia? Fuu, fuu, com o ar sendo puxado pra dentro. Seria isso? Não é fiu-fiu, que isso seria assovio. É aquele som menos sonoro, que homem bagaceiro faz quando vê mulher boazuda na rua. Pois minha amiga queria deixar bem claro para o homem que estava correndo atrás do caminhão de lixo que ele era gostoso. Claro que o cara ficou feliz. Numa sociedade preconceituosa em que certos trabalhadores são estigmatizados, é raro uma moça de dentro de um carro emitir elogios sonoros a um gari. Mas nada que eu fizesse soaria coerente ou com sentido para a senhora de ar vago. Uma abordagem fortuita não conseguiria penetrar na tessitura daquele mundo tão reservado, tão apartado. Então eu segui a caminhada, me afastando cada vez mais da dama de anágua.



Escrito por Cacto às 17h04
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   Jogo de cena - e fora da cena

Cada filme que vejo do Eduardo Coutinho me encanta. Este documentarista de 74 anos consegue, com seu jeito manso típico de quem joga conversa fora num boteco de esquina no subúrbio, extrair a essência dos sujeitos retratados em suas obras. Assim foi com "Edifício Master" (2002), por exemplo. Assim é com "Jogo de cena". Imagino que logo ele entra em cartaz, e quando isso ocorrer, vocês já sabem o que fazer.

No princípio, antes de a luz se fazer, um anúncio convidava para um teste mulheres maiores de 18 anos que quisessem contar suas histórias para um documentário. No total, 83 responderam ao chamado e foram entrevistadas em estúdio. Coutinho e sua equipe selecionaram 23, e a gravação dos depoimentos ocorreu em junho de 2006 no Teatro Glauce Rocha, no Rio. Em setembro, atrizes tiveram que interpretar essas mulheres. Vejam que sacada genial, que consegue tensionar os entendimentos mais tradicionais que se tem sobre documentário e ficção. Havia dois conjuntos interligados de material. Primeiramente, o depoimento de mulheres comuns que contavam partes significativas de suas vidas. Algo muito forte: elas desnudaram suas perdas e traumas, vísceras à mostra, sem pudor frente à câmera - e a maestria como entrevistador é um dos méritos de Coutinho. Passo seguinte, as atrizes se valeram do talento e da técnica para contar a história das primeiras mulheres. Em alguns casos, a mesma frase é, literalmente, repetida. E os fatos colhidos pelas mulheres do seu repertório de dores e sofrimentos passados são reconstituídos numa arguta e sofisticada trama de narrações: ora a mulher que de fato viveu os acontecimentos, ora as atrizes que reinterpretam esses mesmos acontecimentos. Confuso? Às vezes sim. Quando aparecem as atrizes mais conhecidas, como Marília Pêra, Andréa Beltrão e Fernanda Torres, fica mais evidente distinguir quem é quem. A segurança se dilui quando aparecem as atrizes menos conhecidas do grande público. E agora, quem é quem? Quem de fato sofreu a dor contada? E quem simula sofrer a dor alheia? Mas interessa saber? Não.

Por mais que o jogo saia do título e se apodere da platéia, que fica tentando estabelecer as duplas, isso não interessa. O que interessa são as histórias, as intensidades apresentadas, as tramas extraídas da vida, a emoção latente em cada depoimento. Preservadas as histórias, os personagens se tornam secundários, embaçando a fronteira entre real e ficção. Lembro que quando o João Moreira Salles esteve na PUCRS, no ano passado, ele disse em sua palestra para alunos de cinema algo mais ou menos assim: o que define um documentário não é o fato de ele contar uma história que aconteceu, um documentário é definido pela relação ética que se estabelece com o objeto, com o sujeito. Não importa se em cena está a atriz ou a mulher que atendeu ao chamado do anúncio: vale é a história.

Além destas duas vertentes - o depoimento das mulheres... ããã... reais?, e a interpretação das atrizes -, à narrativa se soma uma outra quando algumas atrizes foram provocadas por Coutinho a falar de suas próprias vidas e sobre o processo que viveram no filme. Na edição final, aparecem 13 mulheres. Para descobrir por que o número é ímpar, vá ao cinema.

Escrito por Cacto às 12h18
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