Cacto
   O pai dos burros

No último sábado (15/8), publiquei uma resenha no caderno Cultura, do jornal Zero Hora, sobre o livro O pai dos burros - dicionário de lugares-comuns e frases feitas, do jornalista e escritor Humberto Werneck. No dia 31 de agosto, segunda-feira, às 19h30min, Werneck faz uma palestra no Auditório da Famecos, na PUCRS, intitulada O lugar do lugar-comum - a qualidade do texto jornalístico.

Reproduzo, abaixo, parte do meu artigo:


Nessa altura dos acontecimentos...

Dicionários costumam gozar de estadas tranquilas nas estantes, ainda mais em tempos de corretores ortográficos, que denunciam diretamente na tela do computador as barbeiragens de escritores incautos ou incultos. Para autores minuciosos, em que o sentido exato da palavra é uma obsessão, os pesados volumes têm serventia ampliada, e com frequência as delgadas páginas de papel-bíblia acabam manuseadas até que o dedo estacione no vocábulo pretendido. Escritores que buscam, além da correção ortográfica e da semântica precisa, um texto elegante e imunizado contra expressões desgastadas pelo uso excessivo, contam a partir de agora com um guia em O pai dos burros – dicionário de lugares-comuns e frases feitas, de Humberto Werneck, mais recente lançamento da editora Arquipélago.

Apesar de ser uma obra de referência que requer lugar na mesa de trabalho, O pai dos burros, ao contrário dos dicionários tradicionais, merece uma leitura intencional, que não fique condicionada a uma necessidade. Dessa forma, surgirão surpresas, pois há expressões que descaradamente se tornaram lugares-comuns, como “a escola da vida”, outras, no entanto, podem pertencer ao repertório mais corriqueiro de quem escreve sem perceber que anda abusando dos clichês, por exemplo: “Nessa altura dos acontecimentos”, “costurar um acordo”, “afirmar categoricamente”, “abrir espaço na sua agenda”, “alimentação saudável”, “amigo pessoal”, “ao longo dos anos”, “apelo dramático”, “sólido argumento”, “ascensão meteórica”, “autoridades competentes”, “uma nova era se inicia”, “ditar moda”, “fonte inesgotável”, “bolsões de miséria”, “liderança isolada”, “ritmo vertiginoso”, “tiro no escuro”, “dar o tom” e “votação expressiva”.

O pai dos burros resulta de uma obsessão de quase quatro décadas. O autor coleciona desde os anos 1970 expressões que, de tanto serem repetidas, tornaram-se lugares-comuns ou frases feitas. Atento e arguto, Werneck se valia de qualquer canto de papel para registrar o flagrante dos maus-tratos impostos à língua portuguesa. O resultado da empreitada soma mais de 4,5 mil expressões agrupadas em 2 mil verbetes. E se não fosse estabelecido um limite, os números cresceriam. A premência do envio do material para a gráfica parece que estimulou ainda mais os radares de Werneck. A cada dia ele mandava para o editor adendos ao dicionário, pois as fontes de abusos linguísticos são abundantes. A começar pela imprensa. A velocidade acelerada que caracteriza a produção de notícias reserva pouco tempo para se pensar na forma e no estilo do que é escrito. Em geral, prevalece a necessidade de se registrar fatos verdadeiros e precisos, em detrimento de um texto mais elaborado. Sendo assim, bastava Werneck abrir um jornal, sintonizar uma rádio ou canal de televisão para logo encontrar potenciais verbetes predestinados a engordar O pai dos burros. Se os cursos de jornalismo e as redações adotassem esse dicionário como obra de referência, seria uma excelente estratégia em prol do capricho textual.

Outro grande manancial de expressões aviltadas pela fala estereotipada e mecanizada de seus protagonistas é o futebol, tanto que esse esporte é mencionado entre parênteses ao final de várias frases listadas. A deferência procede. Nada mais lugar-comum do que declarações de jogadores e locutores: “respeitar o adversário”, “esquentar o banco”, “colocar a bola no ninho da coruja”, “carimbar o poste/travessão”, “empate com sabor de vitória”, “erro fatal”, “confirmar o favoritismo”, “jogar com raça e determinação”, “o jogo só acaba quando termina”, “o juiz ergue os braços”, “partir para o tudo ou nada”, “estufar a rede”, “eterna rivalidade”, “o mérito pela vitória é de todos”… Como o clichê é endêmico no futebol, há um verbete específico para o esporte que rendeu 13 frases, entre elas a campeã inconteste: “o futebol é uma caixinha de surpresas”.

Alguns verbetes inspiraram apenas uma expressão, como adrenalina (“adrenalina pura”), fatídico (“dia/momento fatídico”) e toalha (“jogar a toalha”). Outros, mais torturados pela profusão de recorrências, são seguidos de várias frases. Água, por exemplo, rendeu 15, entre elas “águas passadas não movem moinho”. Das 16 citações de cabeça, emerge “mergulhar de cabeça”. Coração tem 20 entradas do porte de “abrir o coração” e “viverá para sempre em nossos corações”. Nas 20 frases de palavra, as indispensáveis “com o perdão da palavra” e “fazer uso da palavra”. Tempo rendeu 30 espécimes, entre eles “áureos tempos” e “dar tempo ao tempo”. Vida inspirou 35: “a vida estar por um fio”, “a vida imita a arte” e “vida que daria um romance”, entre outros. E o recordista de clichês é mão. No total, 47 casos da estirpe de “com a mão na massa”, “de mãos abanando”, “em primeira mão” e “meter os pés pela mãos”.

A pretensão de Werneck com O pai dos burros não é estabelecer um índex de expressões proscritas. Ele se explica no prefácio: “O que se quer com este livro é apenas recomendar desconfiança de tudo aquilo que, no ato de escrever, saia pelos dedos com demasiada facilidade. Porque nada de verdadeiramente bom costuma vir nesse automatismo”. Para quem se preocupa com todas as dimensões do texto, este peculiar dicionário dá subsídios a fim de se evitar a comodidade de soluções prontas que denunciam o desleixo ou o descuido na hora da escrita.



Escrito por Cacto às 08h24
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   Juízos rasos e equivocados nas páginas esportivas

A minha quase total indiferença ao futebol faz com que meus olhos cruzem numa diagonal rasante e célere pelas páginas que tratam do assunto. Vez que outra, sabe-se lá por que, paro e leio alguma coisa. Hoje, nas últimas páginas de ZH, um colunista escreveu sobre a Brigada Militar e as torcidas e tascou: "Não contem comigo para qualquer forma de pressão sobre a Brigada Militar. É verdade que houve excessos no jogo contra o Cruzeiro. Mas, apesar de eventuais erros, a BM é a única garantia de segurança que resta ao cidadão gaúcho. Em vez de tentar enfraquecer a instituição, a hora é de todos os gaúchos abraçarem a causa da Brigada. Existe uma ameaça real contra nossa polícia militar. Neste país, já tentaram 'regulamentar' a imprensa (censura), mas recuaram diante da reação. Depois, quiseram desarmar a população, mas o povo resistiu e disse não. Agora, tentam acabar as polícias militares dos Estados. Eliminar os tribunais militares e desmilitarizar a BM e outras corporações é acabar com todas, colocando no lugar não se sabe o quê".

Caramba! É impressionante a capacidade de associar situações imiscíveis e regar tudo com juízos rasos e equivocados em sua essência.

Propor uma suposta blindagem à Brigada Militar é algo tão perigoso quanto irresponsável. A estratégia me lembra os tempos de arbítrio, quando um professor que eu tive e era militar dizia que as críticas aos presidentes eram despropositadas, pois devíamos respeito ao chefe da nação. A simples condição de presidente, ou melhor, de general transformado em presidente seria condição para devotarmos respeito. Ora, por que não se pode pressionar a Brigada? Reconheço o papel fundamental que a corporação ocupa na sociedade, mas essa mesma sociedade tem o dever de pressioná-la para que cumpra seu papel com a observância de limites. Para longe de ufanismos e bravatas, os brigadianos inscreveram em seu histórico episódios desabonadores que sugerem a importância de se ficar de olho. E isso, de maneira alguma, significa enfraquecer a instituição.

Sobre a "regulamentação" da imprensa. O simples uso das aspas denota o sentido que o colunista emprega à palavra regulamentação. Por que jornalistas não podem ter parâmetros, critérios e postulados éticos para observar em sua atividade profissional? Tentar sugerir que a regulamentação da imprensa seja o mesmo que censura revela uma visão embaçada sobre a atividade jornalística em uma sociedade democrática e, ao mesmo tempo, ecoa a lógica que as empresas de comunicação defendem e disseminam em seus veículos, estabelecendo uma propaganda em potência máxima.

E quanto à contrariedade à tentativa de desarmar a população... francamente. Defender que o "cidadão de bem" armado seja uma boa estratégia no combate à violência é postular uma lógica de faroeste para a vida que de fato se vive, e não a que se presume viver. Estudos sérios revelam que a posse de arma só aumenta a violência, incha as estatísticas de morte e instaura uma cultura vingativa.



Escrito por Cacto às 11h37
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   As lágrimas da Maria Joana

A Maria Joana ficou triste porque o Michael Jackson morreu e eu, ternamente, me comovi com as lágrimas dela. A frase anterior parece verso de canção do Chico, mas, para além da minha tola pretensão, pode ser a síntese, ou um arremedo de crônica breve, do que se passou na noite de quinta-feira, ao final da aula. Levei um susto com a notícia da morte do garoto talentoso que, depois de adulto, mais parecia um ser fraturado emocionalmente, caricato e bizarro que andava pela vida aos trancos e barrancos. Não passou de um susto, embora eu goste de algumas músicas dele e sempre parava para ver quando apareciam na TV as dancinhas do negro que teimava em ser branco. Mas o que mais me marcou foram as lágrimas da Maria Joana. Ela não é uma fã histérica, muito menos uma garota bobinha que se rasga em nome de uma pretensa loucura emanada de algum astro. Por isso suas lágrimas me impressionaram. A dor deveras sentida não era despropositada ou insuflada para câmeras. Era a dor de alguém que se sensibiliza com as pessoas e seus infortúnios, sejam elas distantes ou próximas. Era uma dor delicada, sincera, e, no meio do diálogo que travamos, uma ou outra lágrima brotava a me lembrar que ainda há pessoas doces e atentas à dor dos outros, sensíveis com o entorno. Mais do que zumbis se requebrando em bando durante minutos sem parar na televisão, numa espécie de réquiem pop enviesado, para mim, a imagem indelével da morte de Michael Jackson é o pranto comedido da Maria Joana, tão sincero, natural e suave.



Escrito por Cacto às 18h53
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   A importância do último dia

Tentei publicar o texto abaixo na Zero Hora, em resposta ao que o David Coimbra escreveu no dia 26/6, mas me informaram que, caso veiculassem uma resposta direta a um colunista, estariam abrindo um precedente que complicaria tudo. O David tem um espaço potente, o que torna o debate desigual. Pois bem, 17 leitores, apresento aqui o artigo que enviei para ZH, mas não foi publicado.

 

David Coimbra sentenciou em seu texto “O primeiro dia”, publicado por Zero Hora (26/6): “Conteúdo não é exatamente o forte da faculdade de Jornalismo”. Mais adiante, ao comentar sobre temas previstos nas ementas das disciplinas, tentou formar um juízo: “É que tudo isso consta no currículo do curso. Só que nada disso é de fato ensinado. As faculdades de Jornalismo são um quase logro. Como, aliás, diversas outras fora das áreas técnica e científica”.

Leciono desde 1994, e o convívio diário com universitários me dá uma relativa experiência sobre o que se passa na vida deles. Se não bastasse, há a minha própria vivência como aluno de Jornalismo. Resultado: li o texto do David sem encontrar eco de suas palavras na realidade.

O texto dele se soma a uma série de manifestações motivadas pela decisão do Supremo Tribunal Federal que, recentemente, acabou com a exigência do diploma de Jornalismo para o exercício da profissão. Esse debate é fundamental e ainda deve render outros capítulos, mas neste texto pretendo discutir o desprezo pela formação superior.

É claro que nem todos os alunos aproveitam a graduação em sua plenitude, que há portadores de diplomas incapazes de atuar profissionalmente e que nem tudo se processa de maneira ideal nas diversas instituições de ensino superior. Esse cenário, no entanto, não deveria ser mote para a generalização do David, muito menos a sua experiência pessoal. Até porque, se ele tem 46 anos – conforme revela o blog que assina –, imagino que ingressou na faculdade no início dos anos 1980. Ou seja, não usufruiu do impacto que a consolidação da pesquisa e da pós-graduação provocou nos cursos de Comunicação e de Jornalismo.

Por acompanhar alunos do princípio ao término de sua formação, posso afirmar: a universidade impacta substancialmente a vida de um estudante. Para não incorrer no equívoco da generalização, reconheço: a transformação não acontece com todos, mas o malogro é menor do que o total de experiências bem-sucedidas.

Se o aluno está disposto a crescer, se mergulha nas diversas possibilidades do processo de ensino-aprendizagem, se busca ampliar seu repertório para além do previsto nas ementas das disciplinas, se tensiona esse mesmo repertório de maneira crítica, se, sobretudo, o aluno quer aprender, a universidade é o ambiente vocacionado e propício. Sozinha, no entanto, ela fracassa. O aprendizado resulta da combinação entre a decisão do universitário de querer aprender e a qualidade da instituição.

Por último, lembro que a transformação decorre não apenas do processo formal de cursar uma graduação, mas do conjunto de experiências em um dos mais intensos períodos da sua existência. Os alunos oscilam da insegurança à confiança, compartilham afetos, se desentendem, fazem descobertas. Por tudo isso, pelo conhecimento adquirido, pela vertigem que a vida provoca, mais importante do que a impressão de um primeiro dia de aula, interessa saber o que se passa na cabeça de um universitário no último dia de sua primeira trajetória acadêmica.

Vitor Necchi é jornalista e professor da Faculdade de Comunicação Social (Famecos) da PUCRS.

 

O texto do David pode ser acessado aqui.

 



Escrito por Cacto às 00h55
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   Meu umbigo é sexy e a moda se inspira em mim

Como o último texto teve um caráter, digamos, doméstico, aprofundarei esta vertente das postagens colocando mais fotos de gatinhos. Do baú da família, vieram dois monóculos, cousas antiguinhas que serviam para mirar fotografias. As duas peças estavam meio baleadas, como se pode verificar aí embaixo:



Mas o Fernandão Ximitão, amigão e retratista dos mais talentosos da crosta terrestre, deu um trato nas imagens escondidas nos modernosos aparelhinhos. Resultado: vocês, diletos e fieis 17 leitores, poderão saciar as mais recônditas e inauditas pulsões por me ver em trajes quase mínimos. Confirmem se eu era ou não era um galã mirim das águas de Mariluz:

Não sei bem ao certo o que minha irmã mirava ao lado, mas eu olhei para a câmera, confiante de que meu umbigo mui sexy causaria furor no público.

Alguns anos antes, quando eu ainda era um jovem comportado que sonhava em voar, ensaiei meus primeiros passos como piloto em um possante modelo que aterrissou na calçada da minha família. Confiram a pose do comandante:

Essa foto permite confirmar que não é de agora que eu gosto de padronagem xadrez. Sintam o charme do casaco.

Antes que eu revele mais fotos, encerro por aqui a sessão.



Escrito por Cacto às 10h29
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   Rufus e Yolanda chegaram

Eu venho correndo para casa à noite querendo saber como eles estão. Abro a porta com cuidado para não golpear as pequenas carinhas que denunciam as horas intermináveis de sono. Acaricio as nucas enquanto eles fecham os olhos e ficam mexendo a cabeça em busca do melhor afago. Dou uma geral na sala para ver se as estrepulias não causaram nenhum dano maior. Limpo o cocô e o xixi porque na vida nem tudo é L'Eau d'Issey. Reponho a comida porque crianças precisam estar bem alimentadas. Renovo a água porque eles gostam dela fresquinha. Abro a porta do quarto para ampliar o alcance da correria e da festa quando eles se engalfinham e saem rolando e pulando. Mais tarde, quando vou ler ou escrever algo, eles se aninham no meu colo, acionam o motorzinho e se perdem no tempo sem fim que pauta o afeto. Um deles acorda, espreguiça, me olha e vai escalando, escalando, escalando até atingir o topo da minha nuca, onde resolve se acomodar e dormir mais um pouco - e eu que não me mexa.

Senhoras e senhores, o Rufus e a Yolanda chegaram! As crianças passam bem. Houve pequenos probleminhas esperados para quem foi resgatado do mundo agreste das ruas, mas tudo segue bem. A temporada de visitas está aberta.

 



Escrito por Cacto às 09h46
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   Vitorssauro

A Ana Luiza, ex-aluna que trabalha em São Paulo, está escrevendo para uma revista o perfil do novo jornalista. Ela precisava fazer uma linha do tempo e saiu em busca de histórias do período em que a internet chegou às redações. Também queria conhecer um pouco mais da gincana que era fazer jornalismo antes da tecnologia simplificar alguns processos. Eis que ela me procurou, sabedora que eu sou testemunha ocular da história. Em outras palavras: velhice! Mas ok, o tempo não me assusta - pelo contrário. Na hora escrevi algumas coisas que reproduzo abaixo.

- No primeiro momento em que a internet chegou à redação, eram raros os computadores que tinham acesso à rede. O serviço foi disponibilizado apenas em um terminal por área, o do editor. Ninguém sabia muito bem todas as possibilidades, pois a internet ainda engatinhava no que se referia ao público em geral.

- O envio de fotografias, ou telefotos, era um ritual imprevisível. Como não havia câmeras digitais, os fotógrafos precisavam viajar com um pequeno laboratório a fim de revelar o negativo, que depois era colocado em um trambolho para enfim ser transmitido. Aí começava outro capítulo da novela. A engenhoca enviava o material por meio de linha telefônica, isso na primeira metade dos anos 1990, quando a telefonia ainda era um pequeno caos. No meio da transmissão a linha caía, exigindo o recomeço do processo. Se não bastasse, havia ainda a questão das tomadas. Se o hotel do Interior onde a equipe se instalava tivesse o fio do telefone fixado na parede, não servia. Hoje, os telefones são conectados ou desconectados facilmente da parede, bastando um clic. Nem sempre foi assim. O fio entrava pelo espelho da tomada e era fixado dentro da parede. Lembro que os fotógrafos mais tarimbados carregavam na bolsa um adaptador, pois nem sempre havia compatibilidade entre a flecha do aparelho de transmissão de telefotos e a tomada do telefone. Às vezes, tarde da noite, tinha que se procurar uma tomada compatível. Prefeitura, rodoviária, hotel, restaurante, casa de alguém... O envio de fotos parecia uma gincana. Caso houvesse tempo, a equipe do jornal despachava o negativo por ônibus. Normalmente contava-se com a camaradagem de motoristas. O fotógrafo passava alguns dados para a redação (nome do motorista, número do ônibus e horário de chegada) para que um motorista do jornal pudesse localizá-lo e pegar o negativo.

- Para fotografias impressas, o processo de envio mudava um pouco. A imagem era fixada em um cilindro, parecido com aqueles de mimeógrafos (sim, isso também é muito velho e todos filhos de professores conhecem muito bem). O cilindro girava rapidamente, enquanto uma espécie de scaner, parecido com um ponteiro, ia cruzando lentamente no topo, "lendo" a imagem. A transmissão também se dava por linha telefônica. E claro, ela sempre caía, e tudo recomeçava.

- Enviar textos era outra pequena epopéia na era pré-internet. Computadores portáteis, obviamente, também não havia nas redações. O repórter escrevia o texto com caneta ou usava alguma máquina de escrever disponível. Depois telefonava para a redação e ditava o texto para uma pobre digitadora que precisava dar conta da verborragia do repórter.



Escrito por Cacto às 01h23
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   Um grande circuito de diversão e entretenimento

Depois do almoço de sábado, fui à exposição Corpo humano - real e fascinante, montada no centro de eventos do Barra Shopping. Pois então... real até pode ser, mas fascinante, aí são outros quinhentos.

Sabem do que mais gostei? Dos amplos desenhos estampados em grandes panos, como se fossem uma espécie de estandarte. Pareciam desenhos de anatomia do Leonardo da Vinci. Também apreciei muito os efeitos luminosos. Pequenos canhões projetavam no chão ou em paredes contornos que aludem a formas microscópicas do organismo humano, como agrupamentos de células, alvéolos, coisas do tipo. Sendo assim, venci o trajeto da mostra acompanhado por uma mescla de constrangimento, desconforto e curiosidade.

Uma vez um velho professor de literatura, com o qual convivi em um dos meus trabalhos, comentou que se sentia mal em laboratórios clínicos, a ponto de desmaiar, bastando para isso ouvir o barulho emitido pelo contato entre os vidrinhos que receberiam seu sangue. Meu cunhado não é diferente. Mesmo necessitando, retarda ao máximo a realização de exames por conta do pânico em imaginar uma agulha rompendo seu braço. Tem gente que não pode ver sangue. Tem gente que não consegue ver mortos. Mas nada disso inspirou meu desconforto com a tal exposição que já cumpriu agenda internacional e em Porto Alegre foi promovida pelo jornal Zero Hora.

Logo no início, ossos isolados jaziam em caixas de vidro. Depois ossos unidos assumiam a forma de membros e eis que surgiu o esqueleto completo. Nos outros ambientes, o mesmo princípio organizava os... como dizer, restos humanos? Os sistemas nervoso, circulatório, digestivo e reprodutivo eram apresentados em espaços distintos. Havia mais ambientes compondo o roteiro. Em um deles, onde pequenos fetos com diferentes semanas de gestação restavam acomodados em vidros, um aviso antecedia a entrada. O texto informava o que viria pela frente e pedia que cada um avaliasse se prosseguiria ou não. Achei curioso que o alerta estivesse apenas neste ponto da exposição, e não no início. Claro, compreendo, pequenos fetos acondicionados em uma espécie de vidro de compota podem ser mais chocantes do que porções de adultos polimerizados.

Roy Glover, o médico que dirige a exposição, defende que, para se saber sobre corpos e saúde, seria mais eficaz usar corpos humanos de verdade, em vez de se valer de artefatos que os imitassem. Ele acredita que as pessoas precisam conhecer o corpo e as patologias. Talvez isso explique por que, ao lado do esquife envidraçado do pulmão enegrecido pelo fumo, estivessem uma urna de acrílico e um recado pedindo que os fumantes repensassem sobre o vício e deixassem lá seus cigarros. Uau! Quanto esperteza. Que senso de oportunidade. Até agora não entendi, no entanto, a razão de alguns visitantes terem jogado moedas no recipiente.

O que eu mais desejei saber durante a caminhada era sobre a vida dos mortos expostos em pleno shopping center. Que vida tiveram? O que faziam? Como morreram? E seus familiares, vão bem? Que tipo de vida levaram? Eram pobres, muito pobres? Vasculhando no sumário e tímido site do evento, descobri que todos são chineses mortos de causa natural "que escolheram doar seus órgãos em prol da ciência médica para fins de estudo e educação". Até aí, tudo bem. Considero muito nobre que pessoas doem seus corpos para pesquisas. No passado, cadáveres eram roubados para que prosseguissem as investigações médicas. Havendo consentimento dos mortos, quer dizer, das pessoas ainda vivas, o processo fica mais legítimo. Mas aí fazer uma exposição... sei não.

Com toda sinceridade: não creio que meu passeio ou o de qualquer pessoa entre aqueles restos humanos possa ter despertado mais consciência sobre nossos corpos ou sobre a necessidade de preservarmos a vida e a saúde. Aquilo era uma exposição, e ponto final! Não há um propósito educativo estruturado, não há mediadores, não há trabalho dirigido às crianças, não há textos além de meras legendas em cada expositor, não há conversa com especialistas. Não há nada além de um evento, de entretenimento. E é por isso que não considero legítima esta exposição, e foi por isso que um constrangimento me acometeu logo no início da mostra e ao final se acentuou. Tento não me pautar por moralismos e crenças obtusas, mas acredito que uma certa noção de respeito e dignidade seja importante para estabelecermos parâmetros em prol de uma existência coletiva.

Antes de deixar o recinto, um último recado afixado em uma parede, sem maiores destaques, avisava: "Os exemplares desta Exposição foram tratados com a dignidade e respeito que tanto merecem". Agradeço por terem me avisado. A porta de saída da mostra desemboca na praça de alimentação do shopping. Sim, juro, é verdade. Não estou brincando: ao se abandonar o ambiente de penumbra e de barulho contido da capela mortuária de corpos anônimos e insepultos, o público depara com fotos de bifes, batatas fritas e uma variedade de cardápios para todos os gostos. Quando a porta se fechou, vi estampado nela um troço vermelho qualquer... um alvéolo ampliado, um emaranhado de veias... sei lá. Na parede ao lado, a propaganda de uma lanchonete exibia um bifão suculento. À medida em que fui me afastando, aumentava minha curiosidade por saber quem seriam aquelas pessoas e se elas imaginavam que seus corpos, pretensamente doados para experiências, no futuro estariam expostos numa espécie de ante-sala de lanchonetes de um shopping, como se tudo fosse um grande circuito de diversão e entretenimento.



Escrito por Cacto às 16h51
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   Vocês têm Norte?

Eu entrei na faculdade em 1988 sem saber muito do mundo. Até sabia alguma coisa, mas eram impressões pouco organizadas em minha mente juvenil açoitada por hormônios. Noções desconexas e ainda carentes de um maior entendimento me transformavam em um radar. Eu queria descobrir, aprender, experimentar, inaugurar, esboçar, abocanhar, tremer - afinal, a vida é vertigem. Mais do que vertigem, a vida é processo, e eu vivia em um redemoinho. Mesmo - ou principalmente quando - parado, minha cabeça tratava de definir um eixo para iniciar a rotação, estabelecendo um ciclo de dias e noites que pouco tinham a ver com o relógio.

Naquele período, um dos meus ancoradouros preferidos eram as livrarias e as bancas de revista. A excitação chegava a tal nível quando eu via as lombadas e as capas que eu acalmava. Efeito curioso - tamanha era a vibração que um torpor amainava minha vida. A promessa da palavra impressa nunca me traiu. O legado de Gutenberg me movia, me atraía. Mais do que ser jornalista, eu queria ter uma livraria. Viver de livros, viver com livros, viver pelos livros. E, se possível, ganhar grana com isso. E assim se passavam as tardes, quando o carimbo do jornal ainda não havia borrado minha carteira de trabalho. Aliás, não queiram ver minha foto neste documento...

Eu batia ponto na Globo da Rua da Praia, nas várias Sulinas espalhadas por distintos endereços, na Palmarinca, na Terceiro Mundo, nos sebos da Marechal Floriano e da Jerônimo Coelho. Também circulava por outras lojas de livros espalhadas por diversos quadrantes do Centro que ainda era o epicentro de uma certa noção de vida antes dos shoppings, sempre barulhentos e insossos. Eu também me perdia no tempo nas bancas de revistas. Na Praça da Alfândega - o que houve com aquela fantástica banca? -, naquelas estruturas redondas que brotavam de tanto em tanto na Rua da Praia, nas esquinas do Bom Fim e da Cidade Baixa, na tabacaria Dunga, que ficava perto da casa da minha vó. E no aeroporto! Quando chegou a época de dar adeus e receber amigos voadores, as revisterias do Salgado Filho acolhiam o meu pouso.

Desde aquele tempo, e já se vão um pouco mais de 20 anos, eu acredito na prevalência da palavra impressa. Não faço pouco caso da internet ou de suportes digitais - muito pelo contrário -, mas eu ainda acredito veementemente no vigor da leitura que emana do papel. Sigo lendo e empilhando livros e revistas, sigo comprando livros e revistas, sigo presenteando livros e revistas. Decorrência natural, busco publicar em livros e revistas. Assim começou minha história com a Norte, uma revista bacana que o jornalista Tito Montenegro bravamente lançou há um ano e que se propõe a discutir livros, artes e ideias (ainda que sem acento, seguem sendo idéias). O texto de apresentação diz: "A Revista NORTE nasceu a partir de uma idéia: criar uma publicação que, produzida no sul do Brasil, não tivesse em sua pauta restrições aos assuntos locais. Nosso ponto de vista é sulista, mas nem por isso deixaremos de acreditar que a diversidade e o diálogo são fundamentais na busca de um norte". A frase seguinte salienta que o time de colaboradores é de primeira linha, mas o decoro e a modéstia me impedem de reproduzi-la.
Brincaideras à parte, escrevo para convidá-los a conhecer e assinar a Norte. A partir deste mês, o projeto ganha mais envergadura. Aumenta o númro de páginas e surgem algumas seções fixas. Então, caros desnorteados, é isso. Se quiserem saber um pouco mais da revista, o link está aqui. E se quiserem assiná-la, o link é este. A reprodução da capa da edição que será lançada em breve está aí embaixo. A imagem que foi trabalhada é uma cena de Santiago, do João Moreira Salles, documentário sobre o qual escrevi.



Escrito por Cacto às 12h34
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   A vida como antigamente

Na primeira mordida, ela se desmanchava na boca. Era hora de a mão desocupada correr para acudir a outra que mal conseguia conter os pedacinhos da empada que fazia sucesso nos aniversários da minha infância. Mais do que o cachorro-quente recheado com uma salsicha inteira - nada de rodelas boiando no molho - ou o negrinho feito com leite condensado cozido na panela de pressão, as empadas garantiam o sucesso das festas na casa da minha família.

Minha mãe e a Di eram exageradas, e os convidados sempre levavam para casa uma bandejinha com as delícias que intencionalmente sobravam. A Di é uma lenda que ainda hoje mora na nossa memória. Foi trabalhar lá em casa por um tempo e por lá ficou uma vida toda, a ponto de me ver abandonar as botinhas ortopédicas e virar gente grande. Reza a lenda que, na hora de ir embora, ela tinha que se abaixar para eu não a ver passar na moldura da janela. Caso eu descobrisse a fuga, mirava suas canelas com minhas botinhas de bico ralado, afinal, ela não podia ir embora e me deixar. Duvido que isso seja verdade, embora todos me garantam que sim. Mas não é sobre a minha faceta de carente violento que eu queria escrever, e sim das empadas. A Di, infelizmente, partiu, mas minha mãe seguiu fazendo as empadas. E, acreditem, elas estão cada vez melhor. Nada de gordura hidrogenada na massa, nem recheio sem gosto. O sabor e o capricho seguem os mesmos como se amanhã fosse aniversário, dia em que dezenas de pessoas lotariam a casa habitada pela minha família desde 1950. A diferença agora é que minha mãe resolveu fazer as mitológicas empadas para vender.

Na verdade, não são apenas as empadas. O cardápio das delícias que a partir de agora podem ser encomendadas inclui outras receitas que até então eram servidas apenas em nossa casa. O croquete é feito com carne de panela temperada como se fosse almoço de família e cozida na panela de ferro que pertenceu à minha bisavó. O risoles fica tão bom, mas tão bom que dá vontade de comer escondido. E tem os doces... Para fazer a ambrosia, minha mãe espera a buzina de um Passat soar. O motorista do velho veículo traz leite e ovos direto da chácara que garantem um manjar dos deuses macio e amarelo, beeeeem amarelo. O doce de figo em calda é sazonal. Agora, por exemplo, é época. Um por um ele é descascado. Na base, faz-se uma cruz com a faca para que a calda possa penetrar ao longo das horas sem fim em que ele é cozido no panelão. Neste fim de semana, a mãe resolveu fazer uma pequena - e comovente - experiência: escorreu a calda e banhou as frutas com chocolate derretido, aí pôs na geladeira, aí se criou uma casquinha, e aí... bem, é isso aí. Sem palavras. Sem palavras eu também fico com a casquinha que se forma na superfície do doce de abóbora. Não me perguntem por que, mas reza outra lenda que, durante o preparo, o panelão precisa descansar direto no chão, estabelecendo intervalos para o lento cozimento. Era assim que minha bisa fazia, é assim que minha mãe segue fazendo.

Como é época de Páscoa, a cada dia formas e formas de biscoitos de mel são produzidas. Eles têm carinha de coelho e perfume de infância. O trabalho é lento: depois de a massa estar preparada, ela precisa descansar oito horas! Dia desses, o repouso terminou lá pela meia-noite, e madrugada adentro minha mãe e minha tia ficaram assando os biscoitos.

Talvez mais delícias venham por aí... e uma coisa é certa: tudo tem gosto de casa, de família, de passado. Se a vida como antigamente tinha um sabor melhor, a idéia é trazer esse universo para o presente.

Se alguém quiser provar os salgados ou os doces que a mãe anda aprontando, é só me dizer. 



Escrito por Cacto às 02h51
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   No detalhe é que o todo se faz e o sentido aparece

Vocês já repararam naqueles brotos de samambaia que se desenvolvem em alguma fresta de muro? Adoro isso! Eu sei que pode parecer maluco, mas quando vejo o talo verde se desenrolando a partir de um reboco, eu paro e observo. Na verdade, qualquer planta que desafie a aridez de uma parede já me fascina, mas o tipo que mais encontro são pequenas samambaias, quase sempre daquelas mais fuleirinhas que se espalham em qualquer jardim. Alguma engenharia da natureza faz com que o esporo se embrete no vão. O vento, um pássaro, quem sabe formigas... Basta uma reentrância e um pouco de terra acumulada para a vida seguir seu curso. Já vi mudas viçosas saindo de canos que escoam água de sacadas. Outras menores na linha que separa um degrau do seu vizinho.

Talvez eu devesse sair garimpando estas diminutas intervenções da natureza em meio ao concreto e montar um grande mosaico. Nada programado, e o acaso seria o produtor das fotos. Na dobra de uma esquina, na imensidão urbana de uma parede, das entranhas de um cano velho ou na intimidade de um degrau eu poderia flagrar o detalhe e torná-lo tão significativo a ponto de parar pelo simples propósito de contemplá-lo e admirá-lo.

Cada vez mais acredito que no detalhe é que o todo se faz e o sentido aparece.



Escrito por Cacto às 11h05
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   Como se eu fosse um colecionador da simplicidade

Eu me perco no tempo vasculhando fotos no Orkut. Não é qualquer imagem. Corpos convidativos, cenas de filmes, ícones da música... esse universo não me interessa - pelo menos na maioria das vezes. O que procuro neste paraíso dos voyeures plugados é o bibelô, o quadro com paisagem, a foto do casamento adornando a prateleira, o guardanapo pendendo sobre a borda da televisão, o prato de maionese no centro da mesa do almoço dominical, o dedão sobressaindo-se no chinelo, a gargalhada da tia gorda, o muro descascado a estabelecer os limites do quintal onde a festa acontece, as cerâmicas compradas em promoção que substituíram o assoalho carcomido, os potinhos em cima da geladeira, a vassoura encostada rente à porta, a cortina de plástico com os vestígios do último banho, a cômoda repleta de escovas e perfumes comprados em catálogos distribuídos pela vizinha, a cadeira de plástico na varanda, o lençol estendido no varal, os bonés que promovem qualquer coisa na cabeça de senhores de barba por fazer, a rachadura da parede, as folhas de violeta plantadas em potes de margarina para gerar novas mudas, a umidade que brota do chão e tinge o reboco, as estampas sacras que reafirmam uma noção de fé...

Gosto de admirar a autenticidade, a simplicidade compulsória, a vida sem afetação, a ausência de bom gosto forjado em editoriais de moda, a vigência da criatividade, a cena prosaica. Acho que desenvolvi esta predileção no tempo em que diariamente eu fazia reportagens. Vasculhar a cidade, descobrir o subúrbio, enveredar por ruelas nunca vistas ou sequer imaginadas, ter a permissão de uma pessoa para entrar em sua casa. Eu ficava atento aos detalhes, às marcas, às recorrências do que era visto em comparação com situações pretéritas. O ambiente revela muito do habitante, e o repórter que despreza as geografias particulares acaba por despotencializar sua narrativa.

Também gosto muito da boa acolhida protagonizada por cidadãos mais simples, um traço que vigora quase como um atavismo. Pessoas sem afetação ficam lisonjeadas quando procuradas por um repórter. Algumas, claro, ficam faceiras porque têm a oportunidade de aparecer na televisão ou na foto do jornal, mas há uma outra linhagem de sujeitos que se sentem agradecidos por serem ouvidos. Já entrevistei pessoas que ficaram profundamente agradecidas pelo simples motivo de serem ouvidas. Eu pedi licença, entrei em suas vidas e escutei o que tinham para me dizer. Neste mundo de pressa e impessoalidade, onde a simplicidade está no DNA do anonimato, da quase invisibilidade, os personagens do cotidiano se enobrecem quando podem contar sua história. Aí eles querem nos agradar, tentar uma espécie de agradecimento. Oferecem café, água, um prato de refeição, uma muda, o artesanato que acabaram de fazer, uma fatia de bolo... Cada caso é um caso. Lembro de uma vez em que fui entrevistar uma agricultora. Ela sabia que eu iria, não cheguei de surpresa. Estava bem penteada e vestia uma camisa branca, muito alva. Devia ser a roupa da missa - imaginei. Conversarmos, ela me falou o que eu precisava saber, me mostrou o que me interessava. Ao final, me ofereceu um café. Não havia como recusar. Seria uma ofensa. Quando eu, o fotógrafo e o motorista entramos na cozinha, uma mesa preparada nos esperava. Pão caseiro, nata, schmier e salame feito por ela mesma. "Pode comer, moço, botei bastante alho pra matar os bichinhos..." Adoro essa frase. E o mais fantástico é que nem por um segundo sequer eu cogitei em não comer aquele salame cheio de alho para matar os bichinhos. Sentei à mesa e me refestelei com a oferta da agricultora. E até hoje me lembro dela, assim como das casas onde já me permitiram entrar e das fotos que garimpo por aí, como se eu fosse um colecionador da simplicidade.



Escrito por Cacto às 13h48
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   Inventário – mesmo que provisório (ou uma maneira de voltar ao blog...)

Pra tirar o bolor do Cacto, publico aqui o texto que fiz para uma exposição bem bacana de fotografias de um amigo/ex-aluno/fotógrafo talentoso. Passem lá! Porque os olhos precisam de provocações. Porque a vida necessita de poesia. Se não fica muito sem graça.

Inventário – mesmo que provisório

Nas 19 fotografias deste Inventário, que agora rompem o ambiente resguardado da criação para se tornarem públicas, Bruno Barreto esboça uma espécie de acerto de contas com a amplitude do material bruto de suas duas mostras anteriores. Fotografias que antes restaram inéditas agora ganham sentido a partir de uma nova perspectiva.

Todas as imagens flertam com a abstração e foram obtidas com suporte analógico. Na exposição, os agrupamentos das obras formam dípticos e trípticos. O efeito resultante da distribuição espacial das fotos busca preservar uma prerrogativa muito pessoal do autor. Na bidimensionalidade das cópias fixadas nas paredes, a combinação seqüencial das imagens sugere o movimento que o artista fazia em torno dos modelos na hora da obtenção. Isso revela as sensações e percepções próprias do instante em que o real acabava convertido em narrativa. Assim, o ensaio fotográfico opera como uma espécie de registro integrado à própria ação performática.

As possibilidades de leituras vão além. A montagem das fotografias dialoga com o universo da narrativa cinematográfica, na medida em que constrói sentidos a partir da seqüência de imagens, criando formas e movimentos impossíveis de se obter com um único quadro.

Nos trabalhos anteriores, Bruno mantinha um controle mais rígido com o modelo. Exigia, quase à exaustão, imobilidade e concentração. Essa postura se atenuou na presente seleção, mas permanecem padrões como os corpos transformados em suporte para uma variedade de substâncias depositadas sobre a pele. Outro recurso preservado foi a projeção sobre os modelos de imagens previamente registradas em slide para, depois, captar uma segunda – e definitiva – foto. Assim como os significados, são várias as sobreposições. Substâncias sobre pele. Imagens sobre pele. Foto sobre foto. Fragmentos de um inventário – mesmo que provisório.

Sobre a exposição:
Galeria dos Arcos – Usina do Gasômetro (Av. Pres. João Goulart, 551, Térreo)
Visitação de 21 de novembro de 2008 a 20 de Janeiro de 2009 (de terças a domingos, das 9h às 20h)


Escrito por Cacto às 13h38
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   Nossas vidas adquiriram uma nova configuração

Na hora dolente em que os agentes da funerária saíram da casa da minha família, na madrugada da última segunda, 20 de outubro, o breu era atenuado pela lua ao som de sabiás, que estavam a mil com o prenúncio da manhã. Foi impressionante ouvi-los naquele momento, quando dava vontade de cometer algum desatino para ver se a realidade pudesse adquirir um novo curso. Pode soar meio bobo o que vou dizer, mas me pareceu uma bela homenagem da passarada. Quando uma professora de música deixa definitivamente a morada onde viveu 58 anos e onde montou uma escola que abrigou centenas de alunos de piano e acordeão, nada mais justo que a natureza prestasse uma espécie de tributo derradeiro com alguns dos seus mais afinados e entusiasmados cantores. Eu acompanhei sozinho aquele cortejo enviesado. Disse para todos da minha família saírem, irem para a cozinha. Queria poupá-los, mas não me poupei - até porque alguém tinha que atender aos profissionais contratados. Segui os dois funcionários que acomodaram numa maca o corpo franzino da minha vó protegido por um lençol. Parecia um casulo em trajetória contrária. Nele, a vida já não era mais latente. A crisálida que saiu do quarto e cruzou os cômodos, quando rompida, não teria uma promessa de vida. E eu segui atrás, torcendo para que o médico estivesse enganado, que fosse tudo uma grande confusão. E quando o corpo acabou erguido para desaparecer no vão da caminhonete, no meio daquele disparate, tive meus passos interrompidos no momento em que bati minha cabeça na porta erguida do veículo. Atordoado pela dor e pela outra dor, recuei e vi que minha família, postada na porta da casa, assistia à partida de nossa matriarca.

A vó ficou hospitalizada de domingo até sábado. Na noite de sexta, fui dormir mais uma vez com ela. Dormir, claro, é modo de falar. Grande parte da noite passei acordado, acompanhando o trabalho dos auxiliares de enfermagem ou velando para que as coisas seguissem bem. Se por ventura eu chochilasse, dava um pulo no sofá e me levantava rapidamente, a fim de verificar se ela estava bem, se respirava, se precisava de algo. Lá pelas tantas, acomodei a cadeira próximo à cama e lá permaneci, atento. Houve um momento em que fiquei triste. O contexto todo se mostrava complicado, difícil, pouco promissor. Para relaxar, apoiei os braços na grade do leito. Em seguida, acomodei a cabeça na altura do cotovelo. Olhando para minha vó e sua fragilidade, olhando para nossa história de intenso amor, comecei a chorar. Um choro calmo, quase resignado. Um choro cadenciado pelo soro que tentava revigorar o corpo frágil. Uma gota pingava do frasco, uma outra brotava em meu olho. Nesse momento, percebi que uma lágrima escorria na face de minha vó. Nesse diálogo fluído e ao mesmo tempo sereno, percebi que a lógica de nossa vida se alterava. Instantes depois, me aproximei, comecei a alisar seu rosto e disse: "Vó, eu gosto muito da senhora. Eu amo a senhora". Desconhecia o quanto ela entendeu ou não, se me ouviu, e voltei a sentar. Um pouco depois, ela sussurrou algo inaudívei. Foi preciso posicionar o ouvido bem próximo aos lábios dela para decifrar o que falava. E eu ouvi, claramente, sentindo o calor de sua fala na pele da minha orelha: "Eu te adoro, meu filho". E assim, nutridos pelo afeto declarado, acho que dormimos. E na manhã seguinte, sábado, ela teve alta.

As coisas não seguiram muito bem. No domingo, voltamos para o hospital. Passamos toda a tarde lá. À noite, os médicos disseram que não havia razões para ela ficar internada e retornamos para casa. Acomodada na cama, sua respiração estava pesada. Havia um ronco, um chiado. Chamamos uma amiga da família que é auxiliar de enfermagem e que tentou aspirar aquilo que se acumulava e afetava a respiração. A vó suava. Muito. Trocamos a roupa e os lençóis. E ela foi ficando mais calma. E nós, também. Achamos que ela começava e relaxar e teria uma noite tranqüila. Até fomos à cozinha comer algo, já que passamos o dia todo quase em jejum. Depois da meia-noite, já na segunda-feira, estávamos todos reunidos em torno da cama, quietos. Ela nos olhava. Fechou os olhos. Não sei exatamente em que momento, mas fez-se um silêncio. Cessaram nossas vozes e o ronco do peito. Houve um momento em que todos se olharam, como a esperar que alguém fizesse algo. Sentei na cama. Aproximei minha mão do nariz pra ver se ela respirava. Fiquei confuso. Diagnostiquei que ela ainda respirava. Assustado, enlacei a cabeça da vó com um braço e, com a mão que estava livre, batia repetidamente em seu rosto. "Vó, tudo bem? Vó?" E nada. Pedi que minha mãe fizesse respiração boca a boca, para ver se ela reagiria. Toquei o braço da vó, mas estava frio. Pedi que telefonassem para a equipe de atendimento de emergência. Eles chegaram muito rápido, acho que em cinco minutos, mas antes minha mãe já havia dito: "Pronto, cumpriu a missão". Os médicos só confirmaram aquilo que já sabíamos, aquilo que era previsível, aquilo que não queríamos. À 1h15min, foi atestado o óbito da vó. A partir daquele momento, nossas vidas - a minha e da minha família - adquiriram uma nova configuração. Até agora, não sei bem qual é.



Escrito por Cacto às 01h29
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   A nudez da minha vó

É impressionante como a nudez senil acaba sendo relativizada. Nos últimos dias, em que tenho me dedicado com mais intensidade a alguns cuidados com minha vó, que está hospitalizada, a fragilidade do corpo dela me marcou bastante. Mais do que isso, mais do que vê-la como um passarinho aninhado sobre a cama, perceber a intimidade revelada foi algo que por alguns momentos me tocou. Na hora do banho improvisado, prevendo que ela ficaria nua, me afastei do leito e fiquei parado na porta, esperando, mas como estavam com dificuldade de elevá-la para acomodar a fralda, me chamaram. Prontamente fui, ergui a vó, os auxiliares de enfermagem concluíram a operação, voltei a deitá-la e novamente me afastei. Fiquei encucado: por que me mantive à distância? Não tenho a menor dúvida que por uma simples razão: respeito. Minha vó nunca foi uma mulher carola - embora sempre tivesse fé e vivesse a sua religião - ou moralista ao extremo - embora ostentasse, com convicção, certos preceitos. Mas havia um recato, um pudor muito claro em relação ao corpo desnudo. Lembro de vê-la se vestindo enquanto eu estava no quarto dela, mas no máximo era a troca de um vestido, de uma camisa. O que de fato evidenciaria a nudez ficava sempre preservado. Acho que o distanciamento de nossas gerações também alimentava o recato: uma vó, um neto. Tenho amigos e amigas que comentam que seus pais e mães transitavam pelados em casa, com naturalidade. Sempre achei que com avós, ainda mais com os nascidos perto da alvorada do século passado, isso seria mais difícil. Então, por conta disso tudo é que tenho impregnado naquilo que me faz sujeito um profundo respeito ao que concerne à nudez da minha vó. Menos por mim, mais por ela. Mas como atualmente ao substantivo nudez precisa ser acrescido o adjetivo senil, tudo acaba reconfigurado. Chega um momento em que os outros sabem avaliar o que é melhor ou necessário para o bem estar de alguém. No final das contas, acho que a própria longevidade acaba atenuando o recato, o pudor. Não vejo nenhum esboço de constrangimento em seu rosto sulcado e flácido. Talvez seja uma espécie de resignação, típica de quem acata os desígnios de uma vida longeva que pode não ser eterna na dimensão mais óbvia, mas que segue existindo e ecoando na memória - essa sim, lastro de tudo que é eterno.



Escrito por Cacto às 10h39
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   Preconceito e exclusão podem ser combatidos com detalhes

Juízes são seres peculiares. Abrigados em togas sóbrias ou acomodados em cadeiras de espaldar alto, operam como senhores do destino alheio. Julgam, arbitram, decidem. Mas entre eles não rola muito esse papo de diversidade, por mais que a sociedade seja diversa. Os magistrados gays, por exemplo, tratam sua vida privada como algo que deva ser escondido. Ao dizer isso, não quero sugerir que usassem uma toga tingida pelas cores do arco-íris, mas bem que poderiam, juntamente com os colegas sensíveis às questões de gênero e outras tantas, aos poucos tensionar a Justiça para garantir direitos mais amplos e igualitários em um mundo onde não deveria haver espaços institucionalizados para a intolerância.

Em relação à falta de diversidade nas mais diversas cortes, me intrigava o fato de que o acesso à magistratura é condicionado a um concurso público, mas não havia vagas reservadas a portadores de deficiência, como ocorre em qualquer processo semelhante para provimento de outros cargos. Eis que agora as coisas mudam. Na última terça-feira (7/10), atendendo a uma provocação do Ministério Público Federal, o Conselho Nacional de Justiça estabeleceu que concursos públicos para juiz deverão reservar de 5% a 20% das vagas a portadores de deficiência. Antes de a decisão vigorar, os tribunais de todo o país precisam aprová-la.

Vai ser bacana de ver cadeiras de rodas deslizando pelos tribunais. Fico imaginando as outras adaptações que ocorrerão em razão dos novos magistrados. Isso é sinal de respeito à diversidade. Se antes raramente se percebiam tantos portadores de deficiência, não é porque eles inexistiam. Muitos eram mantidos em casa por famílias envergonhadas ou sem recursos. À medida em que os preconceitos e os tabus começaram a atenuar, algumas instituições criaram mecanismos para a inclusão. Em um grande evento organizado pela universidade onde eu trabalho destinado a alunos de escolas de Ensino Médio, no meio da correria da gurizada, cadeiras de rodas aumentavam a movimentação daquelas jovens fábricas de hormônios que perambulavam de um lado para o outro. Em outra universidade que atuei, uma vez organizei um evento que se propunha a apresentar o mundo da pesquisa para alunos de escolas. Uma das atividades consistia nos estudantes darem uma volta de lancha em um lago a fim de conhecer algumas das experiências realizadas por biólogos. Mas e o que fazer com o cadeirante que mal movia os braços? Simples: colete salva-vidas - a propósito, todos usaram - e os providenciais braços fortes dos colegas e dos monitores da universidade que trataram de acomodar o garoto na lancha. Lembro até hoje da felicidade dele quando o vento bagunçou seu cabelo durante o deslocamento.

São pequenas atitudes que começam a alterar o cenário em que vigora o preconceito e a exclusão. Basta as pessoas terem sensibilidade ou comprometimento. O famoso Drauzio Varella, recentemente, perdeu uma chance. Diminuta, mas era uma oportunidade de evidenciar que duas pessoas do mesmo sexo também podem iniciar uma relação afetiva, como se fosse algo natural - o que, de fato, é. Era uma série sobre o interior do corpo humano que o Fantástico começava a apresentar e que, naquele dia, abordou o despertar da sexualidade entre adolescentes. Lá pelas tantas, o médico que escreveu de maneira sensível sobre os horrores da penitenciária do Carandiru disse na televisão, para todo o Brasil, algo mais ou menos assim: "E quando um jovem se sente atraído por alguém do sexo oposto...". A frase não foi, literalmente, essa, mas a oposição entre os gêneros ficou clara na fala de Drauzio. Se ele tivesse suprimido o detalhe, estaria garantido na narração - mesmo que sutilmente - o direito de dois garotos ou de duas garotas descobrirem o tenso e intenso universo do sexo e dos sentimentos.

Escrito por Cacto às 11h49
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   Um semestre num fim de tarde

Neste sábado, às 17h, tentarei condensar um semestre da disciplina de Jornalismo Literário numa conversa que ocorrerá no Botequim das Letras (Félix da Cunha, 1.143, perto do Moinhos Shopping), um café/bar legal que tem em Porto Alegre e onde pode se encontrar livros bacanas. Pensando bem, não é nada disso. Vai ser um bate-papo sobre coisas que todos gostamos: jornalismo, literatura, livros, revistas e o que resulta da aproximação disso tudo. Abaixo, o convite feito pela Giovana Villanova Maciel, que é a responsável pelos livros do espaço e pela programação. A imagem ficou pequena aí... mas dá pra ter uma idéia do que se trata.



Escrito por Cacto às 16h21
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   Um pouco de humor, um pouco de poesia - acho

O humor
Tem dias que minha vó não quer comer, muito menos tomar os remédios. Haja paciência! Numa noite, horas avançadas, minha mãe me telefonou. Exaurida, sem mais argumentos ou forças, pediu que eu fosse lá tentar dar os medicamentos que são necessários. Fui e demorou uma meia hora até ela consentir. Ficou evidente que resolveu tomar o comprimido para se ver livre do chato que a importunava. Antes de eu prosseguir com a história, é importante frisar que as vidas da minha mãe e da minha tia estão concentradas nos cuidados com a matriarca nonagenária. Por mais dedicação e zelo que encontram para seguir na maratona, existem momentos em que tensão e impaciência pairam no quarto. Pois num dia desses, em meio ao tumulto e à recusa da vó em se medicar, minha mãe se ajoelhou e enfileirou algumas lamúrias, pedindo, por favor, que minha vó ajudasse e tomasse o remédio. Então, como se nada estivesse acontecendo, a senhora da casa se vira para minha tia e sentencia: "É tudo teatro" - e apontou para a filha impotente e cansada. Antes que o acesso de riso estourasse na minha mãe, ela teve que sair do quarto. E a família desde então conta com mais uma história para seu repertório.

A poesia
Um colega me contou que a avó dele também teve Alzheimer. Natural do Líbano, aos 20 e poucos anos se mudou para a Argentina, onde permaneceu uns 30 anos, até se radicar no Brasil. Uma das características da doença é que a memória recente vai desaparecendo, restando as lembranças mais pretéritas. Então primeiro ela parou de falar português. Comunicava-se apenas em espanhol. E um dia o castelhano saiu de cena e deu lugar ao árabe. No estágio avançado da doença, era no Líbano, na pátria primeva, na infância e na adolescência que a memória encontrava alguma conexão possível, algum sentido.



Escrito por Cacto às 17h12
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   Prefiro os vira-latas

Não entendo pessoas que devotam aos seus cachorros tratamentos excessivos, como se humanos fossem. Até entendo, mas acho estranho, exagerado. E alguém poderia dizer: o que tu tens a ver com isso? É verdade, cada um faz o que quer e eu não tenho nada que me meter na vida dos outros. Mas da última vez que estive em São Paulo, não pude deixar de achar ridículo uma dondoca empurrando um carrinho de nenê no shopping Higienópolis com seu quadrúpede dentro vestindo uma fralda - aliás, é impressionante que naquele shopping o acesso aos animais seja liberado. Não vou chegar a bradar o panfleto musicado do Eduardo Dusek - "troque seu cachorro por uma criança pobre" -, mas há algo de estranho, ou sintomático, na humanização dos animais promovida por algumas pessoas.

Essas parcas linhas aí em cima talvez foram escritas apenas para dizer que eu adoro cachorro vira-lata e que acho muito bacana quando, na ponta da guia de um transeunte qualquer, está um cusco. Ontem mesmo passei por um cara bem vestido, trajes esportivos, provavelmente aproveitando a folga para passear. Ao seu lado, faceiro, bonito e bem tratado, um cão sem raça definida. Outra coisa que me deixa contente é ver um catador de lixo para reciclagem empurrando seu carrinho e, atado ao veículo, um guaipeca. Não tão cuidado, porque o dinheiro mal dá para tratar o próprio sujeito, mas não é um animal solto, largado. O dono é tão preocupado com seu companheiro que o mantém atado ao carrinho, para que não se perca, para que não fuja, para que fique sempre por perto.

Cachorro vira-lata é mais simpático do que os irritantes poodles, por exemplo. Essa raça sempre me irritou, e é claro que minha sobrinha tem um espécime deste ser complicado. Cada vez que eu vejo ele tendo seu chiliques me dá uma baita saudade do Jujuba, do Cyborg e do Rex, os cães de raça não definida que viveram tanto tempo que bastaram eles para acompanhar minha infância e minha adolescência.

Escrito por Cacto às 11h57
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   A invenção da superioridade – o ufanismo como projeto identitário do gaúcho

"O velho e onipresente ufanismo gaúcho – que muitos tentam legitimar evocando uma noção peculiar de patriotismo – fez parte de alguns debates pautados pelas denúncias de corrupção que nos últimos meses acaloraram a cena política do Rio Grande do Sul. Fosse em segmentos da imprensa tradicional ou numa prosaica roda de chimarrão, percebia-se um lamento acompanhado de espanto: como é possível tanta ladroeira, tanta ilegalidade em um estado reconhecido pela retidão de seus políticos, pela honestidade de seu povo? No desdobramento da lamúria, sobressaía o sentimento de que este estado meridional e seus habitantes são melhores do que os outros. A onipresença deste orgulho excessivo e ornado de bombacha deveria inspirar questionamentos mais recorrentes sobre a identidade gaúcha, a maneira como ela foi forjada e, sobretudo, os efeitos desse processo na sociedade. Seria ingênuo pensar em mudanças, mas seria no mínimo interessante, se não importante, que alguns lampejos de lucidez emergissem da vaga ufanista que cada vez mais se apossa da gauchada."

Este parágrafo inicia um ensaio que escrevi e estampa a capa da mais recente edição da revista Norte, que será lançada nesta sexta-feira (26/9), às 19h, na Palavraria (Vasco da Gama, 165). Na ocasião, eu e o psicanalista Mário Corso iremos debater o tema do texto. Espero vocês lá!

Escrito por Cacto às 23h32
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   Por que silenciei

Sabem por que não tenho escrito? Porque não quero falar da minha vó, dos seus 93 anos e dos dias conturbados que ela e nós andamos vivendo. Filmes que vi, as bobagens da Martha Medeiros, o ufanismo gaúcho em tempos de 20 de setembro, o governo bizarro da Yeda, o jornalismo, coisas prosaicas do dia a dia... nada me inspirava a retornar aqui. Cada vez que pensava em publicar algo, qualquer pulsão criativa era canalizada para algo relacionado à minha vó, como se, ao expor minha vida privada, eu pudesse de alguma forma sublimar o desconforto com o prenúncio de algo que pode acontecer amanhã, em um mês, em dois anos. O que há de novo? Um agravamento do Alzheimer, conforme o neurologista. Mesmo assim, felizmente ela segue reconhecendo a todos de casa. É um detalhe, mas não consigo imaginar quão estranho e doloroso será um dia entrar no quarto da minha vó e não ser reconhecido. Mesmo com a debilidade física e com a ocorrência de momentos de aparente transtorno das idéias, mesmo que ela queira ir para casa - com o detalhe de ela estar na mesma casa que habita desde 1950 -, mesmo que por vezes chame pelos pais, evidenciando que todos somos crianças quando frágeis, mesmo com tudo isso ela sabe muito bem quem nós somos. Numa das duas recentes madrugadas em que minha mãe, sobressaltada, chamou eu e minha irmã, temendo a iminência de algo mais grave e definitivo, minha vó ficou num estado sonolento. Esmorecida, quase inconsciente. Quando esboçou alguma reação, quando conseguiu estabelecer um precário diálogo, minha mãe disse pra ela: "Mãe, olha, o Vitor está aqui... veio lhe ver... vai dormir aqui hoje". E a vó, olhos fechados, com a fala meio enrolada, afirma: "Ah, que bom, gosto muito dele". E é por esta declaração em meio ao torpor da crise, e é por tudo que ela representa em minha vida, e é por causa da oscilação de saúde e humor, e é, sobretudo, pela vida que se equilibra em dias de fragilidade que não consigo pensar em muitas outras coisas para escrever aqui. Posso soar piegas, posso parecer acossado, posso tratar de algo que não diz respeito a vocês...

Para aqueles que têm me questionado sobre o silenciamento deste blog, acho que com esse texto explico. Tentarei voltar mais seguido. E agradeço pelo interesse.


Escrito por Cacto às 01h04
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   Em cena, de novo - ainda bem

Estamos em época de Porto Alegre em cena!

Lembro da primeira edição, lá em 1994, quando o século ainda era outro. Foi um susto. A capital da província meridional nunca tinha visto tanta movimentação em torno de teatro. Todas as salas da cidade estavam ocupadas com espetáculos. Filas e mais filas para se comprar ingressos. Depois das apresentações, a função seguia. Afinal, era festa, era noite, era cultura. Naquela época eu trabalhava na Zero Hora. De início, o jornal não deu muita bola para o projeto. Numa reunião de editores, ficou claro: ZH não soube avaliar a força do Em cena e não dimensionou corretamente a cobertura. Rapidamente foi feita uma mobilização na redação para recuperar o tempo e repórteres foram a campo ver o que se passava nos palcos, na cidade.

Como é um festival grande, com produções locais, de outros estados, de outros países, há uma diversidade de portes e qualidades, o que é muito legal. Já vi muita merda, mas muita coisa bacana. Aliás, muita coisa indispensável pude conhecer nesses 15 anos. O Rubem Corrêa assustadoramente gigante no papel do filósofo Althusser em "O futuro dura muito tempo", de Márcio Vianna, e a Vanda Lacerda no papel de Hèlene, a esposa assassinada pelo próprio companheiro. Os mineiros do grupo Galpão, dirigidos por Gabriel Villela, que se apropriou de elementos da cultura popular brasileira para encenar "Romeu e Julieta". "La Ilíada", montagem de um grupo boliviano dirigido por César Brie apresentada num armazém do cais do porto. Eu, com meus preconceitos, não dava nada por esse espetáculo. Foi uma das coisas mais fantásticas e emocionantes que já vi, teatro na pele, visceral, atualizando o poema épico grego com personagens e situações da política latino-americana em tempos de ditadura. A companhia de dança Sankai Juku, de Ushio Amagatsu, do Japão, e seu delicado/vigoroso "Kagemi", expressão contemporânea do Butô. A Pina Bausch. A Norma Aleandro em "La Srta de Tacna". A importante, histórica e merecida vaia que a Denise Stoklos recebeu no Salão de Atos da UFRGS. O show do Goran Bregovic, um compositor ensandecido que eu conheci nas trilhas dos filmes do Kusturica. "Boca de ouro" e "Cacilda!", do Zé Celso. O Madredeus e a voz de Tereza Salgueiro. "Orestea – Uma Commedia Orgánica?", do italiano Romeo Castellucci. A descoberta inolvidável da Maria João, cantando descalça e encabulada no palco do São Pedro, dissimulando uma voz e uma gana descomunais. E tanta coisa mais...

Ontem à noite foi a vez de ver ao vivo Laurie Anderson. Eu tinha um dever cívico-histórico-cultural comigo mesmo de vê-la. Quando eu entrei na faculdade, essa artista multimídia era uma das referências do momento. Performance, aparatos tecnológicos, música eletrônica com vídeo em pleno anos 1980. Não tinha muita noção do que encontraria pela frente. Um monte de aparato? Muita imagem e som? Que nada... foi quase um recital. Laurie e seu violino eletrônico, suas programações e três músicos. Velas no palco. Roupas pretas. Apenas. E um contundente e atualizado discurso político entoado ao longo de quase todo o espetáculo. Ela não critica - de maneira ora sutil, ora irônica - apenas com o patético Bush, mas com os Estados Unidos em si. O governo bélico e invasor, os cidadãos preconceituosos, o corporativismo, o cinismo travestido de discurso de especialista para justificar qualquer tipo de insanidade ou arbitrariedade. Não foi um show de arrebatar platéia. Não teve a catarse de outros inícios de Em cena. Mas foi um discurso que todo americano - e todas as pessoas - deveriam ouvir/ver.


Escrito por Cacto às 12h04
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   Um dia eu dançarei com os pessegueiros do Kurosawa

Era uma vez um dia qualquer da minha infância em que eu estava comendo pêssegos. Pêssego em versão original, não a compota. A fruta mesmo, com casca meio aveludada, meio amassada quando a polpa já estivesse madura. Como é de conhecimento de todos vocês, humanos saudáveis criados em contato com a natureza, no miolo tem um caroço. Não é uma sementinha como a da uva ou uma porção intrometida como aquele filete no meio da maçã. O caroço do pêssego, rugoso e rígido, é grande, além de ser pontiagudo nas extremidades. Pois não me perguntem como, muito menos por que, mas naquele dia citado no início desta reminiscência eu engoli um caroço de pêssego. Desde então, a cada manhã eu espero ver um ramo ou um broto intumescido se esgueirando pelas minhas narinas em busca de luz.

Quem viu o imperdível "Sonhos", do Kurosawa, entende a razão de eu querer me juntar aos pessegueiros na dança melancólica que os espíritos das árvores protagonizam. Se não faz sentido esta derradeira frase, vá ver o filme.

(Tudo bem que a imagem no youtube é um coco, mas aqui dá pra se ter uma idéia do que o Kurosawa fazia.)



Escrito por Cacto às 09h54
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   Fogaça toma sol nos molhes de Rio Grande vestindo fardão de imortal enquanto uma guria me chama de grosso (ou como misturar tudo em um único título)

==>Sempre achei que os comentários de leitores sobre fotos ou textos publicados na ZH eram fruto de algum rompante do público. O cara gostava de uma imagem, escrevia o elogio e mandava para o jornal. O mesmo valendo para os textos... e aí, se caísse na graça de algum editor, acabava tendo seu elogio publicado. Pois dia desses uma guria do jornal me telefonou perguntando se estava tudo bem com minha assinatura, já que havia pouco eu reclamei de problemas na entrega. Aproveitando a ligação, ela perguntou o que tinha me chamado a atenção na edição daquele dia. Como eu não havia lido atentamente o jornal ainda, a primeira coisa que lembrei foi a foto de uns lobos-marinhos refestelados nos molhes de Rio Grande. A imagem era bacana mesmo. Pois dias depois me liga outra fulaninha perguntando se eu não queria dar uma declaração sobre a foto que, dias antes, eu destaquei, aí minha fala seria publicada, aí meu nome ia junto, aí... Agradeci, educadamente, mas recusei a oferta. Acho que a mocinha foi pega de surpresa. "O senhor não quer que sua declaração seja publicada?" Isso mesmo, não queria. "Mas por quê?" Ora, o que eu poderia dizer pra ela? Tentei argumentar qualquer coisa, que eu não estava a fim, que eu não pretendia ver meu nome no jornal, que... Mas não adiantou. Nada convenceu a garota. Talvez ela não compreenda por que raios um mal humorado não quer publicar seu nome em ZH. Pois no jornal de domingo saiu novamente a fotinho dos bichos lagarteando em Rio Grande, lá na base da página 2, acompanhada de declarações de duas leitoras. E eu respirei aliviado em perceber que meu nome não constava do material.

==>Sem muito entusiasmo, leio uma que outra notícia referente à Academia Brasileira de Letras (ABL). Talvez o suficiente para não ficar totalmente alheio aos agitos literários dos imortais. Pois a cadeira que pertencia à Zélia Gattai tem novo ocupante: o jornalista Luiz Paulo Horta. E na última frase da notícia, descubro algo até então inédito para mim: o acadêmico recebe R$ 15 mil mensais e um acréscimo de R$ 1,5 mil por presença a cada reunião semanal. Com tudo isso, juro que eu não reclamaria da temperatura do chá. Até vestiria o fardão. Oh, se vestia...

==>E o Fogaça está em primeiro lugar... Fiquei meio desolado quando vi este resultado nas pesquisas para a corrida rumo à prefeitura de Porto Alegre. Mas ainda tenho esperanças. Não faz muito tempo que as pesquisas revelaram que 30% da população desconhecia o prefeito da cidade.

==>Depois da aula, faminto, cansado e com o nariz congestionado, rumei ao ponto de táxi. Civilizado que - tento - ser, parei no espaço que se deve parar a fim de esperar o carro. O veículo chegou e demorei um instante para embarcar, pois me despedia de um colega. Quando fui abrir a porta da frente, uma guria já estava entrando na outra. Mais atônito do que cavalheiro, sussurrei: "E a fila?". Ela me encarou como se fosse a pessoa mais correta, convicta e ultrajada do mundo e proclamou: "Grosso!". Antes de responder qualquer coisa, eu já estava entrando no carro seguinte... É preciso ter energia pra ser grosso.

Escrito por Cacto às 03h41
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   Meu personal tem bariguinha, e isso é comovente

Vocês devem estar lembrados, meus 17 leitores persistentes e longevos, que em novembro de 2006 o Mal chegou perto de mim. Foi quando a primeira trombeta do apocalipse soou e eu fui levado para um tanque fétido onde quase transbordava a versão contemporânea do enxofre (relembre em http://cacto.zip.net/arch2006-11-05_2006-11-11.html). O fato é que eu sobrevivi. Pois agora, passados quase dois anos, a Besta voltou a rondar minha vida. Atemorizando os dias deste mundo de existência finita, a segunda trombeta do apocalipse soou. Aham! E a verdade mais lancinante e crua é que nestes dias presentes, antes mesmo que um chinês se eleja presidente dos Estados Unidos, antes mesmo que seja confirmado que há algo de podre no Palácio Piratini, antes mesmo que o Dantas diga tudo o que sabe e acabe com o Brasil, antes disso tudo um rapaz sorridente, querido e simpático passou a se pronunciar no meu porteiro eletrônico todas terças e quintas.

Com uma força e uma pressa súbitas, quando os relógios ainda distam pouco tempo da aurora, ele se anuncia como se trouxesse alegrias, prosperidade, fortuna, presságios positivos, saúde. Ele chega tal qual um emissário do Bem portando boas novas em seu alforje. Ele entra no meu lar e faz eu me espichar até o limite da tortura, como se meus tendões fossem romper na velocidade de uma crina que se solta do arco do violino. Ele toma conta da minha sala e me joga sentado no chão, empurrando meu dorso em direção aos pés, na tentativa de esfacelar a liga de minhas vértebras. Não satisfeito, o rapaz sorridente me entrega pequenas hastes metálicas com uma circunferência cravada em cada extremidade e me exige movimentos repetidos e sincronizados, sem dar a mínima atenção para o suplício de minh'alma. Ao terminar esta seqüência, ainda me elogia. Sim, o facínora me elogia... Sugere que minha musculatura é boa - será que o torturador cogita edulcorar suas ações com galanteios? - e que meu alongamento - eufemismo para rompimento - das costas é muito bom. Insatisfeito com o porte dos flagelos impostos, me tira de casa e me leva a uma pista de adestramento de escravos. Enlaça meu peito com uma cinta negra que sustenta um aparelho que emite sinais sonoros quando meus batimentos cardíacos estão muito baixos ou acentuados demais. Esse artefato se comunica com um bracelete fixado em meu pulso. Ele tenta explicar para que serve, mas de nada adianta. Sei que se trata de um localizador de fugitivos. O rapaz sempre saberá onde estou e onde estarei.

Ao final da tortura, ao final da sevícia, quando mais uma etapa do apocalipse se cumpriu, curiosamente abraço o emissário do Mal e agradeço. Ele se apoderou de minha consciência, ele me faz pensar de maneira inversa. Porém, neste momento em que escrevo, neste acesso súbito de fugaz sanidade, neste curto lampejo de lucidez consigo lembrar o que vem se passado nas manhãs de terças e quintas. Mas a verdade é uma só: ele se apoderou de tal forma da minha razão que me faz crer que todo o flagelo é positivo, que tudo o que ele faz é para o meu bem.

Há um dado curioso. O que me deixa comovido, profundamente comovido mesmo, é que meu personal (jamais pensei que diria isso: "meu personal!") tem uma barriguinha. Sim, todo mundo tem barriga, mas vocês entenderam o que eu pretendi dizer... No seu abdômen, nada de gominhos ou carência de gordura. Nada de frisos! Ele tem uma barriguinha. Pequena, simpática, mas ela está lá, visível. E isso é no mínimo reconfortante. Se um personal saudável e sorridente nutre uma pacata e diminuta barriguinha, por que eu, reles vítima do apocalipse, não poderei dispor de uma também?

E com licença que agora preciso ir. Meu personal pediu que eu usasse um abrigo em dias frios. Como não disponho deste tipo de fantasia, vou às compras. Melhor não contrariá-lo.

Escrito por Cacto às 12h54
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   Formatura Jornalismo 2008/1 - Famecos

(No sábado, ocorreu a formatura dos alunos de Jornalismo da PUCRS/Famecos e eu era o paraninfo. Foi uma noite muito bacana. Fiquei feliz, fiquei tenso, fiquei emocionado. Algumas pessoas pediram que eu disponibilizasse meu discurso. Então aqui vai ele...)



Nossa existência é pautada, em grande parte, por ritos. Habitantes de países onde o frio impera saúdam a primavera e sua promessa de dias mais amenos com festas coloridas e alegres. O nascimento e a morte inspiram rituais tão necessários para que possamos dimensionar a vida que surge e para entender a que se extingue. E isso me lembra o Caetano Veloso… Há alguns anos, quando eu tinha a idade de vocês e os shows ainda ocorriam no Gigantinho, o irmão da Bethânia disse que algumas pessoas homenageiam seus mortos colocando retratos nas paredes. Ele, no entanto, compunha e cantava para se lembrar das pessoas que lhe são queridas.

Cada povo estabelece seus ritos, cada família perpetua seus costumes e cada pessoa assume ou não a tradição, o simbolismo. A universidade, talvez no seu momento mais solene e importante que se repete semestralmente, organiza este rito de formatura cheio de sentidos e expectativas. Vocês, eu e meus colegas protagonizamos esta tradição, vestindo estes trajes tão singulares. Os familiares de vocês, os amigos, todos vivem e renovam aqui o rito da colação de grau, como se um único segundo, o instante em que o nome de cada um de vocês foi pronunciado tivesse a força de oficializar: pronto! A partir de agora, vocês são jornalistas.

Por tudo isso, pela força da ancestralidade, pelo vigor do simbolismo que se vive aqui, eu agradeço este convite e esta homenagem. Sou um professor que não dissocia o ensino e a aprendizagem de uma relação pautada pelo humanismo, pelo afeto, pela troca, pela cumplicidade. E se cada vez mais tenho incertezas, vocês me dão pelo menos uma certeza: acompanhá-los nestes últimos anos foi algo importante e frutífero, que ecoou na vida de vocês.

Este tempo que se encerra agora pautou-se por um tema que nos une: o jornalismo. Portanto, é inevitável que ele surja novamente aqui. Não se trata de uma aula, afinal, chega de aulas, já foram muitas – pelo menos por enquanto. Quero falar de questões que se relacionam a uma certa noção de jornalismo e de como eu cheguei a este universo que compartilhamos.

Talvez um roteiro oportuno a seguir seja a mensagem que escrevi para vocês e que se encontra no convite da formatura. Eu não sabia muito bem o que dizer, mas com o prazo estourando, sentado num café, esbocei num guardanapo o seguinte texto, que ditei ao telefone para um dos integrantes da comissão de formatura:

“Eu acredito – ainda – no jornalismo. Eu acredito em um jornalismo que não pretende ser a verdade, mas se empenha e tem escrúpulos para contar uma verdade. Eu acredito na força que as palavras têm para representar o mundo de maneira mais humanizadora. Eu acredito num jornalismo que defende a vida e o respeito entre as pessoas. Também acredito na força de um detalhe e no poder transformador do jornalismo. Eu acredito, sobretudo, em vocês”.

Quando vi o convite, percebi que o texto revela muito de como eu gostaria que o jornalismo fosse. Neste mundo tão caótico, tão apressado, tão injusto e preconceituoso, nesta sociedade em que governos e seus comparsas assumem condutas criminosas, neste sistema onde interesses econômicos se sobrepõem a questões humanitárias, neste país onde a mídia é tão concentrada na mão de poucos e com freqüência derrapa na ética e na qualidade, mesmo assim, e por tudo isso, eu ainda acredito no jornalismo.

A minha crença no jornalismo começou a se esboçar intuitivamente quando eu ainda era criança e sequer conseguia dimensionar a complexidade da profissão que futuramente escolheria. Talvez minhas primeiras reportagens, meus primeiros registros do mundo, dos acontecimentos, do tempo presente eu tenha feito lá pelos meus 7 anos, ou algo próximo disso. Naquela época, havia na minha casa alguns tacos de parquê utilizados como suporte para pintura artesanal. Eu era fascinado por aquelas peças de madeira que transformava em pontes, edifícios, trens e, sobretudo, reportagens. Com caneta, eu escrevia um monte de coisas nos tacos. Fatos ocorridos, o que eu achava sobre certas coisas, a história da minha família... A estratégia que eu adotei consistia em espalhar os relatos por vários lugares: no porão, na gaveta do criado-mudo do meu vô, no fundo do roupeiro... Naqueles anos 70, eu tinha certeza que o mundo acabaria, que alguma bomba dos soviéticos ou dos americanos encerraria a vida no planeta. Os parquês escritos, aqueles rudimentos de reportagem, eram uma tentativa de preservar a minha história e a do mundo. Tempos depois, assim como vocês, acabei virando jornalista. Pena que os parquês se perderam nos desvãos do tempo.

Esse mesmo tempo me mostrou que o jornalismo é muito mais do que um mero registro. O que fazemos trata-se de uma representação do mundo, uma leitura do real sujeita a toda ordem de influência e pressão. O produto de nosso trabalho não é “a” verdade, mas “uma” verdade possível. Porém a minha maior descoberta foi perceber o papel que o jornalismo desempenha nas sociedades. Muito mais do que um texto ou uma imagem que relatam um acontecimento, o jornalismo é um complexo sistema que incide substancialmente nas nossas vidas. O jornalismo tem a capacidade de pautar grande parte daquilo que sabemos do mundo e, sobretudo, a maneira como sabemos – o que não é pouca coisa.

Por tudo isso, pelo papel que o jornalismo e suas diversas configurações ocupam em nossa vida, pela maneira como a mídia, num sentindo mais amplo, opera subjetivações na forma como nos apropriamos do mundo, é por tudo isso que eu deposito em vocês uma crença. Eu espero que da consciência e das narrativas provenientes de vocês surja uma prática jornalística comprometida com um mundo melhor, mais justo, mais ético, mais solidário. Refuto totalmente uma eventual alegação de que estou sendo ingênuo ao professar minha fé na capacidade de vocês humanizarem o jornalismo. Se pareço, mais do que ingênuo, radical ao conclamá-los para a humanização do jornalismo, é porque o nosso tempo, o nosso mundo requerem ações enfáticas em prol de uma existência coletiva mais decente, mais digna.

Eu espero que o trabalho de vocês, nas mais distintas configurações de mídias, suportes e formatos, estabeleça uma necessária diversidade de olhares, pois o mundo não pode ser pautado apenas por lógicas hegemônicas e restritivas. Eu espero, sobretudo, que vocês se comprometam na defesa intransigente da vida, do respeito e da dignidade. É por isso que na mensagem registrada no convite eu encerrava dizendo que eu acredito, sobretudo, em vocês.

Eu também acredito que vocês saem desta universidade transformados. Ao afirmar isso, não quero simplesmente alardear virtudes da Famecos. Além do conhecimento que vocês construíram aqui nesta casa, além da formação específica para atuarem profissionalmente, afirmo que vocês saem diferentes porque estes costumam ser anos latentes de significados e mudanças. Com 38 anos recém feitos, e convivendo diariamente com alunos há 14 anos, vejo que os 8 semestres que passei na universidade, assim como a permanência de vocês na Famecos, constituem um tempo de maturação, de descoberta, de colheita.

Em vocês, vejo a mim e meus colegas de faculdade. Éramos tão inseguros, por mais que compartilhássemos uma certa onipotência ou uma presunção de que sabíamos das coisas. Mas, mesmo assim, nós nos ajudamos e nos construímos mutuamente, talvez sem perceber, como se houvesse um acordo tácito em nome do amadurecimento. Cada um com sua fragilidade, seus medos, suas muitas dúvidas, sua prepotência de adolescente, mas isso não impediu que um fosse referência para o outro, atalho para descobertas, garantia de revelação, terapeuta de boteco, cúmplice na madrugada.

Quando começou a convivência das aulas, despontaram as descobertas. Música, cinema, bebidas, shows, livros, afetos, sentimentos, traições, amores, política, bobagem, sacanagem, teatro, Feira do Livro, restaurantes, fins de semana na praia, teorias, aulas, consciência, preconceito, alienação, jornalismo, jornalistas legais, jornais ridículos, produção de vídeo, festas... Nós brigávamos, ríamos, discutíamos, bebíamos, planejávamos, sonhávamos.

Tempos depois, eu jantava na casa de um colega e ele deu uma boa definição para nossa faculdade: ela foi um útero. Acho que sim, um útero. Mas um útero sem o peso da maternidade, porque psiquiatra é muito caro. Um útero-usina, um útero-incubadora. E se algo parecido se passou aqui nos últimos anos, não são apenas vocês que saem diferentes. Nós, professores e funcionários, permanecemos, mas tenham certeza que tão transformados quanto vocês, por obra de vocês. A vida é processo, a vida é vertigem, e vocês são responsáveis pela vital tensão que provoca e dá sentido a tudo o que fazemos.

Se até agora falei de jornalismo e da vivência na faculdade, antes de encerrar quero ousar cometer alguns conselhos. Se quando comecei a lecionar pouquíssimos anos me separavam dos alunos, hoje arrisco considerar que o tempo que há entre nós pode ter me dado um pouco de experiência que humildemente, e amorosamente, gostaria de dividir com vocês.

Não se levem muito a sério. Pessoas que se levam a sério demais e que não riem de si são muito chatas. Isso não quer dizer desleixo consigo mesmo. Falo de leveza, de se viver a vida em um tom ameno, sem prepotência, sem arrogância, sem onipotência.

Aprendam a perdoar. Um amigo, um familiar, um colega. Rancor e mágoa são péssimas companhias. É difícil perdoar, às vezes isso requer tempo, muito tempo, mas não tenham dúvida que a vida fica mais leve quado se consegue perdoar.

Sejam solidários. Sejam éticos. Abusem da sensiblidade. Reconheçam os limites. Ousem ser felizes. Não temam ter coragem. E antes que isso vire um manual fajuto de auto-ajuda, paro por aqui, contando uma historinha familiar.

Em maio minha vó completou 93 anos. Eu me criei ouvindo ela dizer: Deus te abençoe. Sempre. Na hora de dar o beijo de despedida, quando eu viajava, antes de desligar o telefone. Deus te abençoe. Não tenho a mesma fé que ela orgulhosamente construiu para si. Não tenho muita certeza da fisionomia deste Deus que ela crê. Mas não precisaria. Com o tempo, esse “Deus te abençoe” adquiriu um conjunto de novos sentidos. Eu tenho certeza que quando minha vó pronunciava “Deus te abençoe, meu filho”, ela queria dizer: eu te amo. Eu te amo e quero que tudo corra bem contigo. Eu te desejo uma vida boa, um futuro tranqüilo, uma vida feliz. Deus te abençoe! Eu te amo e fico feliz com a tua felicidade. Eu te amo e sempre estarei te acompanhando.

Neste momento, a única coisa que me ocorre dizer é: Deus abençoe vocês.

Vocês agora ganham o mundo, e nós ganhamos a saudade.

Obrigado.
(Vitor Necchi)


Escrito por Cacto às 12h39
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   Do francês casse-tête, literalmente "quebra-cabeça"

Não sei se foi o frio - cactos preferem o calor. Talvez o excesso de trabalho, as pilhas de textos para corrigir. Um certo desânimo, por que não? Um bissexto questionamento sobre a validade de manter este blog. Seja lá o que for, o fato é que faz um tempinho que não apareço por aqui. Diariamente pensava em voltar, mas havia outras prioridades. Pois o frio aumentou - mesmo que o Estado esteja pegando fogo. E deve doer muito receber uma porrada no corpo gelado. Hoje cedo, bati o dedo na mesa do escritório. Doeu muito. Muito mesmo. É sério, não é frescura. Com os olhos fechados, com a mão aninhada no meio das pernas, com o corpo curvado, permaneci alguns segundos concentrado num único e vital esforço: fazer a dor cessar.

O choque do meu dedo esfriado por uma manhã gélida contra a madeira maciça da mesa me fez lembrar do coronel Mendes, novo comandante da Brigada Militar do governo Yeda Crusius. Ele é linha dura, e se orgulha disso. Ele dá porrada. Ele é valente. Ele vai para a linha de frente. Ele é destemido. Ele não tolera desacato ou desordem, muito menos baderna. Ele não fica em gabinete. Prefere as ruas, lado a lado com a tropa, elevando o ânimo dos policiais no cumprimento do dever. Entre os deveres, está uma espécie de tolerância zero contra as ações dos movimentos sociais. E vendo as fotos de pessoas sangrando, a perturbadora dor matinal que me desconcertou se esmaeceu. Levar uma porrada de um PM insuflado pelo comandante, receber o impacto do cassetete de um policial cumpridor das ordens do coronelão da Yeda é algo que deve doer muito. Duas dores: a dor física de quem tem seu corpo golpeado numa manhã muito fria - como a de ontem - e uma dor mais subjetiva, de quem verte sangue por estar participando do protesto contra um governo que insiste em se levar a sério quando pouco ainda há para justificá-lo.

Cassetete é uma palavra originada do francês casse-tête, literalmente "quebra-cabeça". Se a explicação semântica é insuficiente, se as palavras soam frágeis, nem pensem em pedir ajuda para o Mendes. Com ele não tem moleza. Vai que para ilustrar a incompetência das palavras ele saque o instrumento de trabalho e faça uma demonstração gratuita na tua cabeça, caro leitor. Estes são tempos frios. Estes são tempos perigosos. Estes são tempos difíceis. E ter um cara como o Mendes no lugar onde ele está só tornarão estes tempos mais sombrios. Se as ruas deixam de ser espaços de expressão, se a tática do governo é barrar o avanço de qualquer passeata que ruma ao Palácio Piratini, é porque alguma coisa muito séria está acontecendo.



Escrito por Cacto às 13h27
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   Nada de porão ou machado

Primeiro foi o cara que raptou uma garota e a deixou presa durante anos no porão de sua casa. No mês passado, descobriu-se que Joseph Fritzl manteve uma filha trancafiada, também no porão de sua casa, durante 24 anos. O monstro fez mais: violentou a moça e teve sete filhos com a própria filha, sendo que três também viviam confinados. E nesta quarta-feira, outra revelação proveniente da Áustria, assim como as outras duas atrocidades: um cara foi à polícia e confessou ter assassinado com golpes de machado a mulher, a filha, os pais e o sogro. Alegou que queria poupar a família da vergonha, já que ele faliu.

Não sei quanto a vocês, mas não pretendo visitar nenhum austríaco que tenha porão ou machado em casa.

Escrito por Cacto às 00h54
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   Egos inflamados + carroceiro fake + dignidade

Egos inflamados não convivem na mesma fronteira

Nunca prestei muita atenção no Fronteiras do Pensamento, evento que desde o ano passado pretende se converter em espaço de estudos avançados por conta dos renomados conferencistas que traz para Porto Alegre. O aparente desprezo deve-se, num primeiro momento, à minha atividade profissional. Sou um professor de várias disciplinas concentradas no turno da noite. Portanto, quase nunca consigo participar de eventos noturnos que não sejam as aulas. Quando é anunciada a realização em Porto Alegre do espetáculo de algum artista que eu aprecie, imediatamente tento descobrir em que dia da semana cairá, num reflexo movido por uma quase sempre vã esperança de poder ir. Se é no fim de semana, comemoro, embora os preços cada vez mais pornográficos dos ingressos acabem por inibir meus impulsos. O mesmo vale para o Fronteiras - o compromisso com os alunos impede qualquer possibilidade de eu participar. Com o desenrolar do megaevento, outros motivos, de natureza totalmente subjetiva, trataram de inibir cada vez mais meu entusiasmo pela função toda. Se, a princípio, era um mecanismo de preservação, já que eu não poderia mesmo participar, a cada edição ia esmaecendo alguma nesga de interesse que pudesse persistir. Os tipos de comentários que os participantes faziam após a noitada, o perfil médio do público, a comoção na mídia - não esqueçamos que há anúncios nas páginas de cobertura do evento... Tudo isso começou a me incomodar. Cansei de ver figuras rasas tecendo comentários empolgados sobre as discussões mas, paradoxalmente, o que menos discutiram foram as idéias, e sim o caráter histórico do evento, a efervescência, a produção, as pessoas... E só. Mais do que o conhecimento, a partir das conferências permanecia a moldura, o holofote. O barraco que rolou entre os egos do Gerald Thomas e do Fernando Arrabal foi mais uma evidência de que algo não faz sentido. A polêmica não emergiu das idéias, do confronto entre dois artistas, dois intelectuais, dois pensadores. A polêmica nasceu do chilique de dois caras. Sintoma de que há algo de equivocado no time escalado, no formato, na pretensão.

A bobagem do colunista travestido de carroceiro

Uma das maiores bobagens que já vi na imprensa gaúcha foi a história do Paulo Sant'Ana se travestir de carroceiro. Por quê? Qual a razão? Qual a eficácia? Qual o resultado? Sinceramente, não sei. Consigo entender quando um repórter participa de uma determinada situação, acompanha um processo, testemunha uma tarefa para, depois, criar uma narrativa sobre uma certa noção de realidade. Não gosto de jornalistas que omitem sua identidade, não suporto jornalistas super-heróis que se transformam em notícia, assim como acho câmera oculta e microfone escondido recursos de duvidosa validade ética. Pois o Sant'Ana guiando uma carroça, mais do que uma tentativa de evidenciar a questão dos carroceiros, me pareceu uma aposta equivocada. Sem falar que o enfoque em torno do tema em nada mudou. Muito se fala dos transtornos no trânsito e dos - imperdoáveis - maus-tratos a que são submetidos os animais, mas pouco se evidencia as circunstâncias que impelem milhares de sujeitos a ganhar seu sustento catando lixo com carroças.

Ainda o Tuio...

No texto publicado pela Zero Hora sobre a morte do Tuio Becker, uma informação bem nas linhas finais dizia que ele deixava irmãs e o Wanderlei, companheiro de mais de 40 anos. Não esperava que o jornal publicasse isso no obituário. Fiquei surpreso e contente. Foi uma manifestação de respeito ao Tuio, ao seu casamento de décadas e, sobretudo, uma evidência de que algumas coisas começam a mudar, mesmo que lentamente.


Escrito por Cacto às 03h35
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   Bahia + Havana = noite do último sábado

Quando um show é baseado em um disco já lançado, de antemão sabe-se do que se trata, pois há um repertório garantido para o espetáculo. Mesmo assim, sempre fico com expectativa quanto ao que ouvirei. Como o álbum da Maria Bethânia e da Omara Portuondo é curto, pouco mais que 40 minutos, certamente deveria haver mais canções na apresentação das duas neste sábado, se não seria estelionato, ainda mais com os preços cada vez mais polpudos cobrados pelos ingressos. Pois com as cortinas fechadas, a banda formada por brasileiros e cubanos - assim como a nacionalidade das cantoras - deu início às duas horas de beleza e sinais do que seria a noite. Logo em seguida, com os panos ainda cerrados, o vozeirão da baiana ressoou pelo teatro. A boca de cena foi desvelada e surgiu uma sempre vestida de branco Bethânia a cantar "Cio da terra", iluminada por tons azuis. Que imagem! Que voz! Uma celebração.

"Cio da terra"! Caramba... por onde iria a seleção? Além do disco que a dupla gravou, o programa enveredou por belezuras antigas que marcaram a carreira das duas. De Bethânia, teve "Cálix bento", "Gente humilde", "Partido alto", "Negue", "O ciúme", "Doce/A Bahia te espera", "Escandalosa", "O que será?". Omara, chamada de Billie Holiday cubana, trouxe do Buena Vista Social Club delícias como "Dos gardenias". Em cena, elas se alternavam em seqüências individuais e parcerias. A senhora de Havana, pouco afeita as canções brasileiras vertidas para o espanhol, em boa parte da noite se valeu das letras. Sua voz, em alguns momentos, saía como se fosse uma frase emendada na outra, sem parar, sem respirar... um murmúrio, um gorjeio, uma onda... parecia um mantra, um salmo, como fazem desde sempre as velhas negras pelas vielas de Cuba. Das duas, era a mais desenvolta, fora do roteiro. Estava se divertindo e feliz, mesmo que no início parecia que não agüentaria o tranco. Talvez por isso a euforia de todos quando ela ensaiou uns passinhos requebrados e sacudiu os ombros ao som dos músicos.

Bethânia dispensou as letras, menos em "O que será?", mas, mesmo assim, em determinado ponto da música ela desprezou a folha e a largou no ar, num movimento dramático, como boa parte de sua atuação. Ela não canta... ela incorpora. Tanta religiosidade, tanto misticismo, tanta Mãe Menininha pra cá e pra lá, tanto amuleto, é tanta divindade que ela mesma se tornou uma espécie de divindade. Descalça no palco, desliza na ponta dos pés, rasga o vão com movimentos repetidos do braço curvado, arruma a farta cabeleira grisalha e, antes de se retirar, toca o assoalho e fica parada, em algum transe, alguma prece, algum rito particular testemunhado pela platéia lotada e ensandecida pelo bis.


Escrito por Cacto às 18h56
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   Bom dia!

Uma cafeteira fumegando, avisando que a poção está pronta. Um pão crocante. A casca estala quando é rompida, e o miolo denso resiste inteiro quando a faca espalha uma espessa camada de boa manteiga. Cantando pela casa, um disco recém descoberto da Cecilia Bartoli. Lá fora, o sol ilumina esta cidade pós-dilúvio. Só posso dizer para vocês: bom dia! Para completar, logo mais irei na casa da minha vó, que hoje completa 93 anos.

Escrito por Cacto às 10h58
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   Eu transbordava de felicidade com meu amigo Tuio Becker

Quando comecei a trabalhar no Segundo Caderno, de certa forma já era bem conhecido do Tuio. Logo que entrei na Zero Hora, ainda estudante de Jornalismo, eu atuava como auxiliar de pesquisa. Nessa função, eventualmente selecionava material para subsidiar textos do então crítico de cinema do jornal. Depois que viramos colegas de editoria, por algum tempo sentei bem perto dele. Entre uma pauta e outra, era com ele que papeava. Quando eu levava chocolate, era com ele que dividia a barra, e invariavelmente o Tuio tinha que ir para o bar tomar café. Eu ia junto, claro. Quando eu tinha 24 anos – e lá já se vão quase 14 anos... –, resolvi morar sozinho. Comentei com o Tuio, e ele me disse que tinha um apartamento de um quarto para alugar no prédio dele, na rua Sarmento Leite. Acabamos virando vizinhos. O apartamento dele era bem bacana. Todo um lance de escada foi incorporado ao imóvel para maquiar o número de andares, evitando assim que fosse colocado elevador no prédio. O resultado é que, além do apartamento em si, o Tuio tinha uma bela escadaria dentro de casa. Em cada degrau havia livros, mais livros e livros. Alguns objetos de arte e mais livros. Uma escadaria de livros! Achava o máximo aquilo. Quando comecei a me ensaiar de maneira mais pretensiosa no fogão, Tuio foi um dos meus primeiros comensais, sentado à minúscula mesinha que eu tinha na cozinha, já que mobília era o que menos se encontrava na sala. Depois do almoço na Zero Hora, íamos vasculhar o balaio de livros e filmes usados da loja dos Mensageiros da Caridade, na Ipiranga.

 

Eu ficava meio sem jeito de perguntar sobre filmes para ele... imaginava que todo mundo fazia isso e ele deveria achar um saco. Mas como resistir? Principalmente quando se tratavam de obras antigas e clássicos. Ele sabia tudo. Sabia dos bastidores. Sabia das filmagens. Sabia contextualizar, avaliar. Sabia, sabia, sabia. Espécie de oráculo, a ele o pessoal do Segundo Caderno recorria sobre todos os assuntos, já que ele não era homem de uma arte só. Permanentemente bem humorado, mas dono de uma lingüinha ácida e oportuna. Pequenos chicotes verbais irresistíveis.

 

Depois que ele se aposentou do jornal, eu e uma amiga, a Rejane, editávamos uma revista online chamada Redemoinho. Resolvemos convidar o Tuio, o cara que iluminou a cinematografia de muita gente durante anos, para escrever na nossa publicação. E não é que ele aceitou? E ainda ia nos levar o texto no apartamento da Santo Antônio, onde montamos nossa redação improvisada, e nós babávamos a cada história, a cada comentário, a cada estalo se sua língua.

 

Eu não tenho bem certeza quando o Tuio morreu. Se em algum momento qualquer nos últimos anos, quando o Alzheimer lhe tragou para um universo de esquecimento total, ou na noite passada, quando, finalmente, ele descansou. Sempre que eu pensava nele, sempre que lia algum escrito do passado, sempre que contava uma história dele ou sobre ele, sentia um pesar, um arremedo de luto, uma pequena dor que brota quando lembramos de alguém querido que partiu. Hoje, quando soube da morte de fato do Tuio, senti uma angústia, um desconforto, uma tristeza requentada. Soube tarde demais... soube na hora em que já não era mais possível participar do velório, da despedida. Fiquei meio chocado, paralisado, olhando o relógio. Queria reverter o tempo para ainda poder me despedir. Queria reverter o tempo até uma noite qualquer na Sarmento Leite, quando eu transbordava de felicidade com meu amigo Tuio Becker.



Escrito por Cacto às 21h25
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   Algumas coisas sobre fatos das últimas semanas

Quem é amigo de picareta, picareta é. Ou não?

Corrijam-me se estou sendo exagerado, mas vocês não acham meio difícil de engolir esta história de que se a criatura é amiga do cara, mesmo que ele seja um salafrário, mentor de um esquema de roubalheira geral, notório picareta, pouco importa se ele é criminoso? Se é amigo, não há nenhum problema em tomar chope com ele, mesmo que ele seja ladrão? Comparações não costumam ser boa tática, muito menos quando se refere ao próprio autor do texto, mas me intriga isso. Olho para meus amigos e, sinceramente, não tenho criminosos ao meu redor. E por quê? Porque sou seletivo. Pode ser um critério tácito, um mecanismo presumido, quase inconsciente, mas não convivo, não quero me relacionar com gente falcatrua. Se descubro algo deste teor, perco o encanto, me encolho, saio de cena. O resultado é que meus amigos não dão desfalque de R$ 40 milhões, nem estão envolvidos em delitos menores. Por isso, senhora governadora e seu entorno todo de assessores, secretários etc., não me venham com este papinho de que sou amigo dos meus amigos mesmo que eles tenham praticado algum crime e seguirei sempre ao lado deles. O mesmo vale para o senhor do Tribunal de Contas do Estado que vai se solidarizar com outro picareta do esquema do Detran na própria casa do cara e acha que não tem nada demais nisso. Ou algo existe de mais encriminador, ou essa turma precisa escolher melhor os amigos, até mesmo em razão dos comprometimentos assumidos em razão dos cargos e postos que ocupam.

Estou exagerando ou não?

 

1000 balões e um crânio cheios de gás hélio

O cara a essa altura deve estar morto. Se não, coitado, deve estar apavorado, já que o socorro ainda não chegou. Mas francamente: o que tinha na cabeça aquele padre que se pendurou em mil balões em total desatenção aos mínimos critérios de segurança? Na verdade, eram 1000 balões e um crânio cheios de gás hélio. Essa provável morte é um absurdo total. O que leva uma criatura despreparada a se meter numa enrascada dessas? O quê?

 

A fã e o fortão

A governadora da gauchada foi para os Estados Unidos. Conforme ZH, ela estava bem entusiasmada com a possibilidade de se encontrar com o governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger. Acho que será comovente. Fico feliz com esse passeio. Tomara que ela se divirta bastante. Tomara mesmo. Se ela for esperta, trará uma foto autografada para colocar na sua casa nova. Aquela comprada por R$ 700 mil logo depois que se encerrou a campanha, e parece que com o apoio do Lair Ferst, o mesmo do chope que derrubou o secretário competente e querido por todos.

Eta, turminha boa!

 

Os donos da mídia se reuniram

Nesta semana houve uma reunião em Brasília para discutir alterações na Lei de Imprensa e, entre outras coisas, as ações judiciais movidas contra veículos. Falaram de temas importantes pra chuchu, como cerceamento da liberdade dos veículos e autocensura dos profissionais. Participaram os donos da RBS, do Estadão, da Globo, da Folha e da Band. Pelo menos são os que eu me lembro. Não sei se esqueci algum nome... mas que todos eram donos, ah, isso eram. E é justamente isso que considero estranho. Ou sintomático.



Escrito por Cacto às 17h22
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   O dia em que extraterrestres invadiram Porto Alegre

Quem já atuou ou atua em jornal sabe que a sexta-feira pode durar bem mais de 24 horas, e não há Jack Bauer que consiga reverter os ponteiros - até porque o relógio dele é digital. Quando eu trabalhava na edição da Geral, na Zero Hora, a jornada começava lá pelas 13h e nunca terminava antes da meia-noite, podendo entrar madrugada a dentro. Primeiro nos dedicávamos à edição de sábado e depois, à de domingo. Embora houvesse momentos em que os dias se sobrepunham, tantas eram as coisas a se fazer. Na verdade, rolava uma grande loucura. A edição de um jornal é um processo altamente industrial. A cada intervalo de tempo, tantas páginas precisam ser finalizadas na redação para que outros setores dêem continuidade ao processo. Por isso se corre muito, por isso o relógio é crucial, por isso os jornalistas se estressam e se escabelam - o que não é bem o meu caso, se é que me entendem, caros 17 leitores. Se não fosse assim, se não houvesse o chamado fluxo de páginas, o pessoal que faz o parque gráfico funcionar não teria como finalizar uma edição inteira ao mesmo tempo.

Quando se terminava a preparação do jornal de sábado, normalmente o que tem menor número de páginas da semana, se respirava um pouco mais. Alguns iam tomar café no bar ou engolir um sanduíche, até porque jantar é coisa de gente normal. Cinema à noite? Ha-ha-ha! De novo: HA-HA-HA! Festa na casa de amigos? Quando se chegava, ou estavam na sobremesa, ou o avançado nível de alcoolismo evidenciava que se perdeu o melhor da noite. Para quem ficava na redação, lá pelas tantas começava o festival de bobagens. Quase todos na Geral entravam numa catarse e não paravam de falar besteira, rir, contar piada, rir de novo, lembrar infâmias alheias e as próprias também. Se não fizéssemos isso, seria árduo demais aguentar o trabalho em plena noite de sexta-feira ou madrugada de sábado. Às vezes nos empolgávamos tanto com a alopração que os sisudos de outras editorias faziam shhhhhhhhhhhhhh. Mas chegava um momento em que passava a euforia e nos compenetrávamos, talvez um tanto tristes, e percebíamos que o mais sensato era ficar quieto e encerrar logo aquela função toda.

Às vezes eu saía tão cansado do jornal que não sobravam forças pra enfrentar a noite, mesmo que um festão estivesse me esperando. Se fosse pra casa, então, aí mesmo não fazia nada. Houve uma noite em que eu pretendia tomar banho, me perfumar, colocar uma roupa legal e rumar para o pecado. Tolinho... antes do banho, deitei na cama alguns segundos. Acordei um pouco antes das 8h. Se corresse, dava tempo de pegar o início da missa.

Mas voltemos à redação. Quero contar sobre a noite em que os discos voadores atacaram Porto Alegre. Eu já estava naquele momento do mau humor, pós-euforia. Nada mais me interessava, a não ser terminar a edição das duas páginas dominicais sob minha responsabilidade. O telefone tocou, atendi de maneira mecânica, mecanicamente falei alô e ouvi:

- Meu filho, tem um disco voador perto do Iguatemi.

Lembro que baixei a cabeça, apoiei a testa na mão, fechei os olhos e balbuciei:

- Como?

- Tem um disco voador perto do shopping.

Mergulhei num silêncio dramático demais, a ponto de a aflita senhora perguntar, no outro lado da linha:

- Meu filho, está me ouvindo?

Ainda por cima ela me chama de "meu filho"... Vaca! Toda gentil na hora de dar trote.

- Disco voador? - arrisquei confirmar.

- A-ham! Dois, na verdade. Ficam de um lado pra outro. Vocês precisam vir aqui.

Num derradeiro ato de polidez, pedi seu nome e disse que iríamos mandar uma equipe. E boa noite. E obrigado pela informação, minha senhora.

Voltei para minhas duas páginas. Texto pra cortar, legenda da foto pra terminar, título, destaque, linha de apoio... e o telefone tocou de novo. E eu atendi de novo. E um outro terráqueo acometido de um súbito desejo de fazer galhofa com um operário da imprensa disse pra mim:

- Cara, tem disco voador voando aqui nas bandas do Iguatemi.

Estão de sacanagem, justo comigo... Bando de babacas! Qual dos meus amigos, qual colega de jornal que saiu lá pelas cinco da tarde e agora está exercitando sua verve humorista?

- Disco voador, é? Sei...

- Cara, é sério. Tu tem que acreditar, meu...

- Sei...

- Vocês vão vir pra cá?

- É possível... é possível... vou falar com minha chefe.

Nestas horas, sempre é bom empurrar a decisão, ou pelo menos uma suposta decisão, para o chefe. Pelo menos o babaca vê que tu és um chinelo que não manda nada e pára de encher o saco.

Alguns minutos depois, outro telefonema. E mais um. E outro. Puta que pariu! Parem as máquinas! Chamem Orson Welles! Chamem a imprensa: Porto Alegre está sendo atacada por discos voadores. Que uma velha louca ligasse numa sexta-feira para o jornal dizendo que viu um disco voador, tudo bem, dava pra entender, afinal, os carentes gostam de conversar com jornalistas. Se um babaca telefonasse pra dizer a mesma coisa, ele é um imbecil. Mas se mais duas, três, quatro, cinco, seis, vejam bem, SEIS pessoas de diferentes endereços procurassem o jornal pra dizer que viram discos voadores, terráqueos, se preparem: o apocalipse se avizinha! Na boa, algo estava acontecendo. E o jornal precisava averiguar o que era.

Fui conversar com a Rosane Tremea. Ou com o Ricardinho... não estou bem certo. Talvez os meus dois chefes estivessem lá. Claro, riram da situação, mas fazer o quê? E se Porto Alegre estivesse tendo a honra, a prerrogativa de ser invadida por discos voadores? Aí, pela primeira vez na história deste planeta, intrépidos jornalistas poderiam noticiar o ocorrido. Eta, nós!

Havia um repórter de plantão. Fui até ele e disse:

- Cara, tem uns discos voadores lá no Iguatemi... vai ver o que é.

Ele deu um sorrisinho... mas entendi o que ele pensou. Em respeito aos leitores com menos de 18 anos, não reproduzirei.

- É sério, vai lá. Mais de cinco pessoas ligaram dizendo que viram disco voador perto do shopping. Não deve ser, mas vamos lá.

Claro que o "vamos" significava "vai". E hoje, quase dez anos depois, percebo que soou muito trouxa eu dizer "não deve ser...". Óbvio que não era nada. Mas e se fosse? O repórter percebeu que não era piada. Resignado, pegou o bloco, a caneta e saiu. Falei com o fotógrafo de plantão. Ele foi mais entusiasta quanto à possibilidade de flagrar os verdinhos azucrinando a gauchada. Tanto que logo pegou o equipamento e saiu em busca dos extraterrestres.

Pra terminar a história da invasão de discos voadores em Porto Alegre, vamos aos fatos. Naquela época, um dos lugares mais badalados na noite era o Dado Bier, quando o inferninho das gaúchas produzidas em série tal qual catálogo de tintura pra cabelo ainda funcionava na avenida Nilo Peçanha. Naquela noite, eles estavam usando dois holofotes, canhão de luz... sei lá como se chama aquilo. Enfim, eles projetaram os fachos para o céu e ficavam oscilando a luz de um lado pra outro. Tudo muito lindo, tudo muito festivo, tudo muito especial. E nós, jornalistas provincianos de uma cidade provinciana, todos desacostumados com a última moda dos festejos noturnos, fomos fazer uma reportagem sobre a noite em que os ETs saqueariam a capital dos gaúchos.

Acho que publicamos uma pequena foto e algumas linhas sobre o acontecido. Havia um fato. Ok, um fatinho... mas havia. Pelo menos os leitores ficaram sabendo da nova bossa das festas que agitavam a província.

Por último: sim, ok, reconheço que a história do relógio lá no início beirou a infâmia... mas quando pensei nela esbocei um pequeno sorriso feito guri que se acha esperto ao contar uma piada. Sorry.



Escrito por Cacto às 11h22
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   Professor, o que é pênis?

"Professor, o que é pênis?"

O semblante sério e respeitoso do aluno me desconcertou: ele estava falando sério. Ele não sabia o que era pênis e desejava (palavra perigosa neste contexto) ouvir minha explicação. Mas há horas em que o riso, ou melhor, a gargalhada surge como única reação possível. E foi o que aconteceu... eu e toda a turma estouramos os pulmões em uma grande gargalhada na aula. A essas alturas não havia mais decoro e compostura a manter - tinha que rir mesmo da pergunta. Quando consegui articular uma única frase, ressalvei: "Ninguém mostra pra ele!". A turma renovou o estoque de risos exacerbados, ao mesmo tempo em que alguém segredou ao questionador qual era o objeto que correspondia à palavra pênis. Os tons vermelhos que se apoderaram da face morena e imberbe dele evidenciaram que sua dúvida priapesca restava morta.

Para a cena anterior fazer sentido, preciso esclarecer que o aluno desconhecedor das sinuosidades do imenso capítulo fálico da língua portuguesa era chinês. Em 2007, quase 20 universitários procedentes do país que depois de amanhã vai colonizar o mundo todo vieram estudar na PUCRS por conta de um intercâmbio. Um semestre na Faculdade de Letras, outro na Faculdade de Comunicação Social, onde leciono. Nas primeiras aulas, tinha impressão de que eles não entendiam nada do que eu dizia. Para facilitar o entendimento, eu tentava falar mais devagar, escrevia as palavras mais importantes no quadro, repetia as frases... mas algo me dizia que nem tudo era compreendido. Com o tempo, parte do grupo começou a se mostrar mais situado.

Além das dificuldades com o idioma, havia um hiato no repertório. Nomes, obras e situações que aparentemente qualquer universitário do mundo conheceria eram citados e causavam surpresa nos chineses. Numa aula sobre crítica de cinema, comentei sobre Bergman e Woody Allen - e eles nunca tinham ouvido falar. Noutra, lembrei do Frank Sinatra - jamais ouviram a voz dele, muito menos conheciam o perigo dos olhos azuis. E por aí vai. Mais do que serem provenientes de uma cultura distante da ocidental, o que conta para tanto desconhecimento, imagino, é o embargo promovido pelo governo às informações, o controle sobre o ensino e a mídia e, claro, a censura. Mas foi a pouca intimidade com a língua, quero dizer, com o idioma que renderam boas histórias nas aulas. Como o lance do pênis...

Eu falava sobre precisão nos textos jornalísticos e a necessidade de averiguarmos todas as informações. Aí contei uma história do meu tempo de Zero Hora. No lançamento do filme "Boogie Nights" (1997), do Paul Thomas Anderson, o jornal dedicou duas páginas num caderno dominical à saga do ator pornô dono de um instrumento de trabalho beeeeem avantajado. Acho que media 33 centímetros, algo assim, mas tanto faz... qualquer número próximo disso já seria impressionante - para não dizer outra coisa. O fato é que o autor de um dos textos colocou uma medida, e na matéria ao lado o outro jornalista tascou uma dimensão diferente. Uma das editoras que mandava na redação fez um longo e interessante arrazoado sobre precisão jornalística. Legal mesmo, mas pairava um ar bizarro e estranho sobre a história porque o ponto de partida daquele pequeno tratado sobre exatidão era o tamanho do pau de um ator pornô. Foi essa história que eu contei em aula e que levou o chinesinho a proferir, com toda inocência, a surpreendente pergunta: "Professor, o que é pênis?".


Escrito por Cacto às 13h39
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   Já se passaram 11 anos

No meio da conversa trivial do domingo trivial após o almoço trivial, minha mãe comentou um detalhe sobre a ida dela ao cemitério, quando mais uma vez cumpriu o rito de visitar, limpar, arrumar - homenagear - o túmulo do meu vô, pai dela. Não me lembro exatamente o que foi dito a seguir. Paralisei com a constatação de que eu havia esquecido a data da morte do vô. O meu vô. O cara que cumpriu o papel de pai, de vô, de animador, de apoio, de parceiro, de porto. Sim, de porto - por mais clichê que a comparação possa ser -, daqueles totalmente seguros, onde eu podia atracar sem erro, sem dúvida. E eu esqueci o dia quando se completaram 11 anos de sua morte.

Uma das coisas que mais me incomodam é a dificuldade em se poder confiar plenamente, totalmente, incondicionalmente em alguém. Pela minha vida já passaram pessoas em quem eu pensava poder acreditar e confiar para sempre, mas em uma esquina qualquer o encanto se quebrou. Com meu vô era diferente. Hoje, neste momento em especial, percebo que ele era tão iluminado, tão especial, tão meu amigo, tão apaixonado por mim, tão feliz com a minha presença, tão atento, tão zeloso que fico tocado só de pensar nisso tudo. Mais difícil do que amar é querer bem. Meu vô era uma pessoa que queria bem as pessoas. E eu não tenho a menor dúvida e inflamo os dedos para escrever que ele me queria muiiiiito bem. Era uma entrega total, incondicional, recíproca.

Era o vô quem me entregava a mamadeira na cama, pra eu poder ficar mais tempo deitado em dias frios. Era ele quem fazia sardinha com cebola pra eu comer no início da noite. Era no café com leite forte dele que eu molhava meu pão. Ele engraxava todos os dias meus sapatos do colégio. Quando um motorista dormiu no volante, subiu na calçada e me atropelou, foi ele quem agarrou o cara pelo braço e o arrastou até a polícia. Era o vô que levava massinha (um pão meio doce que era vendido na padaria da esquina) para mim e meus amigos no intervalo da sessão dupla do cinema Miramar, nas tardes de domingo. Ele transformou pedaços de madeira em uma cidade miniatura onde eu trafegava com os carrinhos de madeira igualmente construídos por ele. Orientado por ele, eu pesquei 105 sardinhas na ponte que une as margens do rio Tramandaí. Atento ao universo particular dele, aprendi a prestar atenção na voz "colossal" do Nelson Gonçalves. Com ele aprendi que não se rouba. Aprendi sobretudo que se deve ser honesto. Convivendo com meu vô, aprendi a importância de se ser generoso e cordial. Aprendi a tomar chimarrão. Aprendi a ser amado.

Por tudo isso, foi com espanto que percebi o esquecimento da data de sua morte. Fiquei assustado com o distanciamento, com os desígnios da passagem do tempo. Como pude esquecer? Na minha frente, neste momento, neste exato momento de emoção, vejo num porta-retrato a foto que flagrou seu corpo magro assando churrasco na praia e eu, com sete anos, a olhar compenetrado a função toda. Essa foto é plena de memória. Eu sempre rondava meu vô, vivia em torno dele, queria estar com ele. Na imagem, ele está meio de lado, acomodando o espeto. Eu, de costas, baixinho, observando. Ao lado dele. Junto dele.

Em minha casa, existem vestígios do meu vô. Além da foto no porta-retrato, há a foto da parede, a foto em outro porta-retrato, e mais outra. Para muito além das imagens que brotam da emulsão, meu vô vive nas suas ferramentas de marcenaria que recolhi na casa da família e trouxe para a minha. Sobrevive na pasta de documentos, entre eles o atestado de óbito. Mas o Rosauro Necchi sobrevive, sobretudo, num sentimento muito peculiar, muito singular que me sugere cada vez mais, a cada dia, o significado e o sentido de se ter uma família, para bem longe das imperfeições e dos ranços que desfalcam esses grupos. Pensando no meu vô, percebo uma noção de continuidade, de ancestralidade. E isso, de certa forma, me justifica, me explica, me dá sentido e, por último, me acalenta. E o tempo parece menos agreste, menos árido, menos árduo, mesmo que já tenham se passado 11 anos.



Escrito por Cacto às 00h04
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   Leia e passe adiante

Livro não pode ficar parado, nem revista. Ambos nasceram para ser lidos. Se ficarem no armário, mofam. Na prateleira, criam pó. Por isso a Faculdade de Comunicação Social (Famecos) da PUCRS lança no dia 24 de abril o projeto "Leia e passe adiante". A iniciativa começa durante as comemorações da Semana do Livro, mas seu caráter será permanente.

A idéia é simples. Alunos, professores, funcionários ou quem circular pela faculdade leva uma publicação, cola na capa o selo da campanha e deposita o volume numa prateleira instalada no saguão do prédio. Depois, todo o material fica à espera de um futuro leitor. Qualquer pessoa pode pegar. Qualquer pessoa também pode trazer novos livros ou revistas para dar continuidade ao processo. Vai chegar um momento em que os títulos retirados retornarão à estante, confirmando a vocação das publicações: estarem em permanente movimento. Afinal, livros e revistas foram feitos para correr mundo.

Os organizadores pretendem que se que se estabeleça um regime de autogestão, portanto, não haverá controle. A estante abrigará as mais diversas obras. Livro acadêmico, de fotos ou romance. Poesia, ensaio, conto. A revista do último mês, até mesmo a do ano passado - os consultórios médicos são a prova de que revista não fica velha.

O selo traz impressa a frase "Leia e passe adiante" e ficará disponível na própria estante, a fim de que os participantes da campanha o fixem nas publicações na hora em que entregarem o material. O desenvolvimento dessa peça, do cartaz e do folheto que divulgam a iniciativa coube ao Laboratório de Tendências, e o projeto será administrado pelo Laboratório de Eventos, ambos vinculados à Famecos. Informações sobre a campanha serão publicadas neste site.



Escrito por Cacto às 14h10
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   Marlon Brando, rogai por nós!

Tá nos jornais: as empresas que querem cobrir o território gaúcho com lavouras de eucalipto, acácia e pinus, graças ao apoio irrestrito do governo do Estado, ganharam a queda de braço com os ambientalistas. Ontem, o Conselho Estadual do Meio Ambiente aprovou o chamado zoneamento florestal, que define limites (ah?) para o plantio industrial de árvores. Em nome da verdade, é bom que se diga que o documento vai implantar uma espécie de oba-oba com aroma de eucalipto. A proposta original da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) defendia que as plantas exóticas plantadas ocupassem no máximo 50% de uma propriedade. Até o mês passado, discutia-se no Conselho um limite de 30% em cada uma das 45 regiões em que foi dividido o Estado, sem teto por propriedade. Sabem qual o teor da proposta aprovada? Não há percentuais pré-determinados. Assim sendo, Stora Enso, Aracruz e VCP Celulose - as três maiores empresas interessadas na questão, donas de projetos que somam US$ 4,5 bilhões - podem plantar quantas árvores quiserem. O texto aprovado fala que cada caso terá uma avaliação específica... Desta forma, o governo garante que abusos serão coibidos. O documento que defende os interesses da governadora Yeda Crusius ainda menciona que o autor deste blog tem a cara e o corpo do Marlon Brando por ocasião das filmagem de "Um bonde chamado desejo". Interessados em conhecer meu portfolio audiovisual podem passar nas locadoras mais próximas de sua casa ou garimpar no Youtube.

Os ambientalistas alegam que a supressão dos limites libera a expansão das lavouras de árvores exóticas, o que pode causar sérios danos ao ecossistema nativo. O cultivo desenfreado alegra o raciocínio contábil da governadora, mas ameaça a sobrevivência de plantas e espécies animais em razão do elevado consumo de água por parte das árvores usadas na produção de celulose. Também reduz o espaço para circulação dos animais. Mas num Estado falido e governado de maneira arbitrária, de que valem argumentos ecológicos?

Marlon Brando, rogai por nós!



Escrito por Cacto às 12h42
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   A coragem e a importância da entrevista de Mário Corso

Acompanho com interesse o que a imprensa tem publicado sobre o suicídio do garoto Vinícius Gageiro Marques, o Yoñlu, que se matou com a ajuda de internautas quando tinha 16 anos, em 26 de julho de 2006, e transmitiu seu ocaso em tempo real. Minha atenção decorre do absurdo da história e também da curiosidade em saber como a mídia lida com a cobertura de um suicídio, tema tabu e habitualmente sem espaço na cobertura jornalística. A história ganhou visibilidade quando ZH publicou uma primeira reportagem, fruto de um intenso e cuidadoso debate interno para saber se o episódio viria à tona e de que maneira. Mais do que noticiar um suicídio, a idéia era fazer um alerta: atenção, adultos, atenção, pais, vocês sabem o que se passa quando as crianças ficam horas e horas imersas na internet? É claro, a internet não é a vilã, não deve ser satanizada a priori, mas não há dúvida de que ela é o ambiente onde pessoas sacanas, amorais, criminosas e perversas agem. Isto não é papo careta, isto é o mundo real. Por mais que se fale em virtualidade etc., a internet e seus sujeitos são tão reais quanto um pedófilo que age em um apartamento mofado.

Voltando ao Vinícius. Apareceu uma outra leva de material na imprensa quando descobriu-se que o garoto deixou um legado de 60 músicas gravadas que originaram um CD com 23 faixas. Houve cobertura em ZH e nas revistas Rolling Stones, Época e Aplauso (Aliás, não entendo por que o tema foi capa da Aplauso... não vejo problema em darem espaço ao assunto, mas capa, depois que o assunto já foi amplamente noticiado? Parece-me um erro de avaliação.) Fico pensando se não há uma tendência, neste caso, a se criar um mito, um herói, algo do tipo. A morte tem o poder de relativizar feitos da vida, sublimar erros ou dar um tratamento hiperbólico para personalidades e obras. Talvez algo parecido possa estar ocorrendo... Talvez o Gabriel, futuro orientando, responda a isso, já que ele pretende construir sua monografia sobre o tema.

De tudo o que saiu na imprensa, destaco aqui a entrevista que a Eliane Brum fez com o Mário Corso, psicanalista que tratava o garoto, publicada na edição de 11 de fevereiro da revista Época. A seqüência de perguntas e repostas é surpreendente. Revela um profissional lúcido, pesaroso, humano, saudoso e, sobretudo, corajoso por se expor, afinal, ele trata na entrevista sobre um paciente que se matou. Corso aceitou falar porque queria dar amplitude a um crime cometido por meio da internet, porque pretendia fazer um alerta, porque teve valentia e lucidez para dar luz a uma história tão eivada de horror e componentes ainda desconhecidos para boa parte das pessoas. Quem quiser ler a versão expandida da entrevista, no site da Época, clique aqui.



Escrito por Cacto às 12h13
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   Cada um faz o que quer com os dedos

Alguém sabe me explicar por que grande parte dos rapazes fotografados faz pose com os dedos? É, eles projetam a mão para frente, separam alguns dos dedos e esboçam uma cara que sugere "estou fazendo pose pra foto". No fundo, acho meio patético... mas e daí, né? Cada um faz o que quer com os dedos.

Escrito por Cacto às 11h34
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   Apaguem a tocha!

Maravilha: a tocha olímpica teve de ser apagada duas vezes no percurso planejado por Paris em razão das manifestações contrárias ao mando chinês no Tibete. Maravilha! Fala-se muito na força do esporte em unir os povos e tal. Pois sim, Jogos Olímpicos e Copa do Mundo são, na verdade, uma mega-über-hiper-farra dos anunciantes e dos comitês organizadores. Essa praga se espalha até mesmo para as versões mais minguadas. Alguém ainda se lembra da farra de dinheiro do Pan? Alguém sabe me dizer se algo vai ser feito contra os desmandos e as falcatruas do comitê que tramou o Pan no Brasil? A agora ainda vai ter Copa do Mundo por aqui... Consigo imaginar a felicidade dos Teixeiras da vida e sua corja da CBF. Mas voltando às Olimpíadas do chinaredo: já que a tocha é algo meramente simbólico, então que seja apagada, que seja molhada! Quando tudo é uma grande palhaçada, quando o papo de paz mundial soa tão pueril e raso, quero mais é que os símbolos dimensionem um pouco da farsa.

Escrito por Cacto às 12h34
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   Antonieta foi decapitada, e eu quase quase fui demitido

Li em ZH que a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz está completando 30 anos, aí me lembrei de uma reportagem sobre esse grupo de teatro que quase me rendeu uma demissão do jornal. Nunca fui demitido sem querer. Nas ocasiões em que acabei desligado de algum emprego, foi conseqüência da minha vontade de sair, mas naquele longínquo 1993 quase perdi o controle da situação.

Era um domingo de fevereiro. Na época eu trabalhava no Segundo Caderno e estava escalado para cobrir a estréia de Se não têm pão, comam bolo, espetáculo de rua que o Ó Nós Aqui Traveiz apresentou no Parque Farroupilha. A encenação mostrava a penúria na qual o povo vivia no período que antecedeu a Revolução Francesa. A intenção era evidenciar que a situação tinha paralelo com o Brasil de então.

Segunda-feira, dia da publicação do meu texto, quase que também foi a data de minha estréia no time de desempregados. O Augusto Nunes, diretor de redação de ZH na época, odiou o que escrevi. Mais do que tudo, ele detestou o tom, as evocações, as referências. Relendo o texto, confesso que não o faria da mesma forma hoje, mas gosto de saber que enfureci o Augusto por alguns momentos. Acabei não indo pra rua. Acho que, no conjunto, pesou a meu favor o restante de minha atuação no jornal. Mas foi um dia e tanto... eta se foi...

A peça era uma criação coletiva do grupo e nela atuavam Arlete Cunha, Kike Barbosa, Rogério Lauda e Sandra Possani. A Revolução Francesa - quando a rainha Maria Antonieta disse "se não têm pão, comam brioches" ao saber que o povo passava fome e acabou perdendo a cabeça na guilhotina - inspirou o tema da montagem. O espetáculo começava com a identiticação dos personagens. Juvêncio saiu do Nordeste e encontrou no Paraná a trapezista Dorvalina. O casal partiu para São Sebastião do Caí e lá conheceu Formosa e Garaldinho do Chiqueiro. Os quatro então montaram uma trupe que começou a viajar pelas metrópoles contando histórias. Como o causo de "uma tal rainha Antonieta que mora num palácio e o povo, na sarjeta".

Acho que minha quase demissão começou a ser delineada já na abertura do texto: "A tão falada modernidade não conseguiu varrer a fome do Brasil, apenas escondeu-a embaixo de pontes e viadutos. Um de seus atos foi camuflar a miséria que a Tribo de Atuadores Ói Nós Aqui Traveiz escancarou para quem assistiu ao espetáculo de rua Se não têm pão, comam bolo (...)". No meio, escrevi, sobre o andamento do espetáculo: "Os saltimbancos da Terreira, após decidirem pela morte de Antonieta, buscaram na roda formada pelo público um voluntário para desferir o golpe da guilhotina. Antes do surgimento do algoz, um dos muitos meninos de rua, que perambulam pedindo dinheiro ou pão velho, ajudou os saltimbancos a depositarem na guilhotina o real pescoço do boneco que representava Antonieta". E para quem pensasse que a decapitação encerrava a peça, um dos atuadores bradou: 'Mas a história continua. A justiça não se faz com o horror. Esse ato cruel não adianta. A miséria que existia é a mesma de hoje em dia. Liberdade, igualdade, fraternidade'. A cabeça rolou, mas o povo que era pobre, pobre continua".

Agora, mais do que a abertura do texto, o que quase pavimentou meu caminho até o Departamento Pessoal foi este trecho:"Por mais que Marx esteja distante das vitrinas ideológicas ou que o considerem démodé, a Terreira propôs que a luta de classes resiste, principalmente no porão do planeta: o Terceiro Mundo. A miséria não morreu, cada vez engorda mais com a fome de milhões de brasileiros". Escrevi mais algumas coisas... mas admito que são bobagens que não vale a pena transcrever.

Deste episódio, o que mais me marcou, além da quase demissão, foi o silenciamento de quem editou o texto. O editor é uma espécie de cargo de confiança no jornal e tão responsável pelo que se publica quanto o repórter. Mas, em ocasiões como a que descrevi aqui, o erro, ou o que os chefes supõem ser um erro, é atribuído unicamente ao repórter que, quase sempre, acaba responsabilizado. Sozinho! Isso tudo me marcou tanto que, quando virei editor e algo dava errado, eu dividia a responsabilidade com o repórter.



Escrito por Cacto às 16h22
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   Eu devia ter subido o morro de novo

Ando meio nostálgico... ok, perdão pela obviedade. Recomeço: ando meio nostálgico em relação a textos antigos que escrevi quando ainda era repórter da Zero Hora. A responsabilidade é da Júlia Timm, que planejou fazer uma reportagem sobre a procissão do Morro da Cruz, em Porto Alegre. O trabalho será publicado na revista que edito com os alunos do sétimo semestre. Quando ela apresentou a pauta, logo lembrei de uma história que seguidamente aparecia nas reuniões da editoria Geral, da ZH. Um bom repórter precisaria ter feito, pelo menos, três coberturas: motim no Presídio Central, festa de Navegantes e procissão do Morro da Cruz. Naquela época eu era editor. Antes, já havia saído às pressas da redação pra ver que confusão acontecia no maior presídio gaúcho. Também já tinha me esbaldado retratando a fé que, em pleno calor de 2 de fevereiro, tira de casa milhares de pessoas que vão homenagear a padroeira de Porto Alegre. Faltava o Morro da Cruz... então percebi que era uma perfeita oportunidade para voltar à rua. Como ninguém estava muito a fim de fazer a empreitada de subir quase 2 quilômetros morro acima acompanhando os fiéis, me escalei para trabalhar na Sexta-Feira Santa. Fui, tomei um torrão, me cansei, mas no sábado que antecedeu à Pascoa de 1997 o jornal publicou um dos textos que eu mais curti fazer.

Ele começa assim: "A aparição de três anjos montados em pernas-de-pau avisa a comunidade do Morro da Cruz que a mais importante, emocionante e conhecida história do Cristianismo estava para ser encenada num pobre lugar de Porto Alegre. Como ocorre desde 1960, os moradores do morro apresentaram ontem à tarde o espetáculo A Paixão de Cristo - Procissão do Morro da Cruz". Mais adiante, escrevi: "Antes que o diretor de teatro Camilo de Lélis comece a narrar o espetáculo, os arautos angelicais abrem caminho entre o público espalhado à frente do Santuário São José do Murialdo. As crianças se maravilham com os anjos de nariz de palhaço, corpo de boneca de pano, pernas gigantes e asas de querubim". Outro trecho, que se refere ao desenvolvimento da caminhada: "As ruas se agitam com as milhares de pessoas que se espremem entre os cordões das calçadas. Cachorros latem em volta dos atores e dos fiéis. Janelas se abrem, emoldurando rostos que liberam preces inaudíveis. Crianças correm de um lado para o outro e desafiam os fortes homens que isolam com uma corda os atores durante a caminhada. Os chicotes estalam. Parecem de verdade - às vezes machucam mesmo. Os dois prisioneiros condenados junto com Jesus de Nazaré lançam-se contra o público para abrir caminho. A gurizada desafia, avança, recua".

Perto do final, contei: "Na primeira parada, Cristo encontra sua mãe. Maria (a excelente atriz Lígia Rigo) dá o mais silencioso, o mais doloroso, o mais sofrido e o mais derradeiro beijo em seu filho atraiçoado. A despedida é abortada por um legionário romano que puxa os cabelos de Cristo para recomeçar o calvário. Na segunda parada, Verônica se solidariza com a penúria do Mestre e enxuga com um pano o sangue e o suor que tingem a face do condenado. Sua imagem fica gravada no trapo, e Verônica o sustenta como um estandarte do sofrimento".

Aí finalizei: "No alto do morro, Cristo é crucificado. Neste momento, e durante toda a escalada, as cenas chegam turvas aos olhos emocionados de parte das pessoas que foram testemunhas dos últimos momentos do Redentor. Quando o Nazareno ressurge, foguetes estouram no topo do morro. Moradores libertam pombos no pátio dos seus barracos. Todos aplaudem. O padre brada 'Viva Jesus, vida o povo de Deus, viva o Morro da Cruz". Termina fazendo uma elegia à comunidade do morro, que padece com o estigma da violência, mas é autora de um dos mais belos ritos religiosos e culturais de Porto Alegre".

Depois de reler minha reportagem, fiquei com remorso de não ter acompanhado a Júlia na escalada.

(Obrigado, Carol, por ter localizado o texto no arquivo do jornal.)



Escrito por Cacto às 17h08
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   Irritação porto-alegrense

A primeira-dama do município de Porto Alegre cantando "Porto Alegre é demais" nas propagandas da rede Zaffari - que são criadas pela agência de propaganda de um parente dela - durante a semana de comemoração do aniversário da cidade. E não é de agora...

Pode haver algo mais irritante?

Escrito por Cacto às 01h44
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   O mundo transmutado em fábula como possibilidade de redenção

Katarina, em seu blog (palestinadoespetaculo.zip.net) e em sua fala fulgurantes, já havia bradado aos espíritos menos incautos: prestem atenção no filme "O labirinto do Fauno" (2006), de Guillermo Del Toro. Com atraso, apenas ontem assisti ao DVD. O filme se passa na Espanha de 1944, quando o ditador Franco já havia vencido os grupos republicanos de esquerda, embora houvesse focos de resistência encrustados nas matas e cavernas. Conforme escreveu Katarina, a Guerra Civil Espanhola foi a última em que as pessoas lutavam não por dinheiro, petróleo ou território, mas por um mundo livre. Se somente esse mote não fosse suficiente para fazer da obra indispensável, há que se dizer que suas qualidades fílmicas são vastas. Fotografia, roteiro, interpretações, música, montagem, direção de arte... O que se vê é uma criação autoral, singular, elaborada, densa, provocativa, tocante, metafórica, alegórica, fantástica. Cada vez mais devemos prestar muita atenção em obras que tenham a chancela de três mexicanos: o diretor deste filme, Alejandro Gonzáles Iñárritu e Alfonso Cuarón (também produtor de "O labirinto...").

Ofélia é uma garota que acompanha a mãe grávida e fragilizada até o interior, onde encontra o padrasto, um capitão fascista. A missão do militar é eliminar o foco de resistência na região. Na casa, encontra apoio e acolhida com a empregada. Acossada pelos fatos e pela indiferença e hostilidade do homem que era forçada a chamar de pai, Ofélia, uma apaixonada por contos de fada, estabelece uma dupla realidade. Ao vasculhar as redondezas, guiada por um tipo de louva-a-deus que se transforma em fada, descobre um antigo labirinto que conduz, através de uma trilha subterrânea, até um velho Fauno. Ele desvela a ancestralidade da garota: uma princesa que desapareceu do Reino das Fadas. E se antes da lua cheia ela executar três tarefas apresentadas pelo ser mitológico, tem a chance de recuperar sua posição e reinar ao lado do pai. Este universo aparece durante todo o filme de maneira paralela e, por vezes, sobreposta à outra realidade em que Ofélia se encontrava, pautada pela brutalidade das ações do capitão - apoiado pelos ricos e pela Igreja - em exterminar os resistentes. A garota era o ponto de convergência entre os dois mundos, e esse jogo, a tensão entre as distintas esferas, se estende até o final, quando o público mais uma vez, uma derradeira vez, se vê confrontado com duas possibilidades, duas noções de real - afinal, real é o que cada um toma por real, né?

Talvez um dos aspectos mais interessantes do filme sejam os mecanismos emocionais, puramente subjetivos que as pessoas precisam urdir para sobreviver à adversidade, ao arbítrio, ao horror, à guerra, à liberdade podada. E se os sujeitos são crianças, o mundo transmuta-se em fábula como possibilidade de redenção, de sublimação.

Katarina disse em seu blog que, tomada por um ímpeto professoral, queria encher um ônibus de alunos e levar todos a assistir ao filme. Na verdade, ela escreveu muito mais: "(...) me deu um certo instinto de professorinha de colégio, a encher um ônibus escolar e levar todos os meus amigos de esquerda, inclusive os que foram torturados pelas ditaduras, para ver, como uma prova de que não devemos tremer por dentro diante da eternidade da forma da verdade, da liberdade e do compromisso". Como a programação dos cinemas hoje é outra, conclamo, inspirado pela Katarina: peguem na locadora, comprem o DVD. Vejam "O labirinto do Fauno" e descubram os descaminhos de Ofélia/da Espanha em busca da liberdade.

Escrito por Cacto às 12h50
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   Nem uma legítima ilusão à la Martha salvaria o país invadido

Martha, aquela mesma, em crônica recente escreveu que costumava evocar o Tibete como metáfora para tranqüilidade, absoluta paz, introspecção, suavidade, felicidade plena, compreensão mútua etc., enquanto o Timor Leste representaria o oposto. Ha-ha-ha.

No segundo parágrafo, ela avisa que o pequeno território está no noticiário internacional em razão da ofensiva chinesa que tenta abafar os protestos dos tibetanos contra a invasão iniciada em 1950 pelo país que logo mais vai sediar os Jogos Olímpicos. No terceiro, arrisca: "Quem conhece bem a história tumultuada do Tibete sabe que essa ilusão de ele ser um país transcendental é apenas isso, uma ilusão - mas quem de nós não precisa de uma ilusãozinha de que a paz sobrevive em algum lugar? Quando vi as imagens de monges chutando vidraças e atirando pedras em edifícios públicos, pensei: o mundo acabou mesmo. Monges tomados pela raiva! Revoltados! Agindo como estudantes da UNE em 1968! Como dói o desfacelamento de um estereótipo.".

Se ela tenta sugerir que sabia, de fato, o que se passava no Tibete, como manter uma ilusão, um estereótipo em relação a algo tão delicado quanto a invasão de um país por outro, quanto a aniquilação de uma cultura, quanto o silenciamento de um povo na marra, no cacete? A situação é tão delicada, Martha, que os últimos jornalistas estrangeiros que ainda trabalhavam na região foram expulsos do Tibete para que o mundo não saiba o que se passa lá. Milhares de chineses armados se dirigiram ao local para conter os protestos, que brotaram em diversos pontos além de Lhasa, a capital. E a ONU, esta organização tantas vezes protagonista de atitudes risíveis e inócuas, como se estivesse comandada por titereiros transnacionais, não vai conseguir quase nada, pra não dizer nada, pois a China é membro permanente do seu Conselho de Segurança, o que lhe garante veto. Ou seja, nenhuma resolução condenando a repressão chinesa aos protestos tem chances de aprovação. E como o potencial lucrativo oriundo dos 1,3 bilhão de consumidores chineses vale mais do que a agonia dos pouco mais de 1 milhão de tibetanos budistas, qual país está a fim de se indispor contra a economia que mais cresce no mundo? Neste caso, nem uma legítima ilusão à la Martha salvaria o país invadido.

Escrito por Cacto às 18h46
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   Um jornalismo insubordinado aos manuais de instruções

Não quero diminuir o espaço ou a importância do jornalismo praticado conforme modelos tradicionais, embora o empobrecimento dos textos, o nível raso das apurações e a incipiência das pautas sejam mais perceptíveis em redações com experiências mais canônicas, principalmente nas de grande porte. Feita a salvaguarda ao lead, à pirâmide invertida e quejandos, quero enaltecer as múltiplas possibilidades de um jornalismo insubordinado aos manuais de instruções.

Nas várias disciplinas que ministro na universidade, preciso ensinar desde os rudimentos da forma mais elementar de notícia até experiências narrativas mais elaboradas. Na segunda possibilidade, busca-se um olhar menos padronizado e engessado desde a formulação da pauta, a maneira como se lê o mundo e se recorta a realidade, passando por um exercício de reportagem, uma apuração mais atenta, sensível, aprofundada e sem pressa, até chegar a uma escrita que dimensione e contextualize os fatos na grandeza que eles têm e merecem e que também busque nas palavras a amplitude de recursos permitidos pelo idioma. Sem escorregar para pieguices e maneirismos.

Nos últimos semestres, busco sensibilizar os alunos para estas questões, principalmente com a criação, na faculdade onde leciono, de uma disciplina específica para se discutir e praticar jornalismo literário. Tento provocá-los, instigá-los, entusiasmá-los para a diversidade das possibilidades do jornalismo. Fugir da obviedade e da mesmice tão perceptíveis nas pautas. Respeitar as pessoas e a real dimensão dos acontecimentos. Agir sem intolerância e preconceito para com o outro, o diferente, o menor. Tratar o texto não como um formulário, mas como a cartografia de uma vida, de um fato, de um fenômeno, de um pensamento, de uma tendência, de uma lembrança. Às vezes fico em dúvida no acerto das opções que faço, no alcance das aulas e das provocações... mas se tivesse certeza as coisas estariam perdidas.

Ontem, discutindo as pautas da revista feita pelos alunos do 7º semestre, falava da diversidade de maneiras de se contar uma história e lá pelas tantas senti necessidade de prolongar a discussão por outras veredas. O que distingue o jornalismo da literatura? O que faz um texto ser reportagem? A ética! Mais do que formato e suporte, o que distingue o jornalismo de outras formas e experiências narrativas é a relação ética estabelecida com o objeto, com os sujeitos envolvidos, com os acontecimentos. Mesmo que por vezes a palavra ética pareça esvaziada de tão enaltecida e decantada, é de ética que cada vez mais o jornalismo precisa.

Escrito por Cacto às 15h53
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   Um debate que nos aproxima

O celular toca. Um número de São Paulo. Achei que pudesse ser algum banco querendo me infernizar e atendi sem muita convicção. Então ouço um senhor de voz possante e singular me cumprimentando e logo se apresentando: era o Joaquim Palhares, diretor da Agência Carta Maior.

Acho fantástico os mecanismos das relações, das convergências. Há algo maior que aproxima certas pessoas e grupos. Penso neste momento na comunidade de blogs que tentam pensar o mundo em bases dissonantes da dominante - e lembro de imediato o RS Urgente, do Marco Weissheimer, e uma recente descoberta, O biscoito fino e a massa, do Idelber. Penso nos blogs que estão transformando a natureza da indústria fonográfica, um movimento que teria uma análise muito simplista se fosse chamado de pirataria. E no meio disso tudo o Palhares me liga, do nada, em meio a uma tarde morna de Porto Alegre, engatando um monólogo entusiasmado sobre a necessidade de discutirmos a mobilização da mídia alternativa e o quanto é importante envolvermos os estudantes no debate. Enquanto eu o ouvia, tive a certeza de que ele gesticulava em sua sala, em São Paulo. Impossível um homem de esquerda como ele falar sentado ou sem romper o ar com seus movimentos que atendem ao impulso do seu cérebro articulado. Esses caras são empolgados. São emocionantes.

Pois bem, vamos ao que interessa: na próxima quinta-feira, dia 20 de março, às 18h30min, haverá um encontro para discutir a mídia alternativa. A função toda ocorrerá na sede do Diretório Central de Estudantes da UFRGS (Av. João Pessoa, 41). Participará do encontro o próprio Palhares, que vem a Porto Alegre no rastro de um movimento nascido recentemente e cujo relato está no site da Carta Maior.

É feriado na PUC, então felizmente poderei ir. Espero vocês lá, caros e queridos alunos. Não haverá chamada, mas seria bem bacana - pra não dizer importante - que vocês fossem.



Escrito por Cacto às 11h51
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   O Cacto deu fruto

Há alguns meses publiquei neste blog um texto no qual eu fazia uma aproximação entre dois filmes aparentemente distantes: "O segredo de Brokeback Mountain" e "Tropa de elite". Depois disso, um dos atores que viveu o idílio com o outro caubói morreu e o longa-metragem brasileiro ganhou o prêmio máximo no Festival de Berlim. Achei que era um bom mote para estender minha idéia e, no final da história, nasceu um artigo. Pois ele vai ser publicado no próximo número da revista NORTE. A publicação, que chega ao número 3, é uma iniciativa bem bacana do Tito Montenegro e sua editora, a Arquipélago. Está lá no site: "NORTE é resultado de uma idéia, meses de trabalho e a imprescindível colaboração de um time de jornalistas, escritores, ilustradores, fotógrafos e designers. A idéia era criar uma revista que, produzida no extremo sul do Brasil, não tivesse em sua pauta a restrição aos assuntos locais. Nosso ponto de vista é sulista, pode-se dizer, porque é daqui que assistimos o mundo dar suas voltas, mas nem por isso deixaremos de acreditar que a diversidade e o diálogo são fundamentais na busca de um norte".

O lançamento do número 3 da NORTE será na próxima segunda-feira, 24 de março, às 19h, na Palavraria (Rua Vasco da Gama, 165, em Porto Alegre). Eu tenho aula, mas assim que terminar vou para lá. Quem quiser e puder, faça o mesmo. E quem quiser saber o que teve na edição anterior, dá uma olhada no site (www.revistanorte.com.br).




Escrito por Cacto às 21h36
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   Em respeito às sincronias

(Na minha leitura diária de alguns blogs, vi um texto que me lembrou de um outro feito por mim. Fui atrás dele e quase ocorreu uma epifania. Se eu tivesse relido não hoje, mas daqui a uma semana, seria o dia em que se completariam exatamente dois anos da escrita. O que isso significa? Nada, é verdade. Tolice de quem está atento para as sincronias. Mas com sou atento a sincronias, republico aqui o texto.)

A cartografia do passado tem gosto de goiaba

O cheiro é familiar. O mormaço do início da tarde preenche o ar com um cheiro azedo, azedo adocidado, um cheiro de natureza podre. A reação despertada pela minha memória olfativa é tão intensa e inusitada que preciso parar a fim de identificar aquele estímulo. Tiro o protagonismo do nariz e volto a ler o mundo com os olhos, embora o mundo pretérito siga traduzido em cheiro. É uma goiabeira, uma robusta árvore que espalhou seus frutos maduros sob o diâmetro de sua copa. O tecido amarelado rompido pela queda desnuda o miolo rosado que impregna o ar com um aroma acre da minha infância. O ar tornado denso pelo dia de sol tem camadas e mais camadas de odor e distintos níveis de lembranças. Sufocado pela experiência imprevista, afogado na atmosfera emanada do fruto ancestral, me aproximo do campo bordado por esferas imperfeitas e me ajoelho, num ato de contrição ao que fui. O golpe no solo provocado por minhas pernas dobradas estraçalha algumas goiabas. O sumo rugoso faz meus joelhos deslizarem pela grama e, impulsionado pelo movimento, pelo mergulho, pelo reencontro, estiro meu corpo adulto no verde manchado. Fecho os olhos. Tranco a respiração. Respiro. Tranco novamente. Torno a respirar. Paro. E sigo nesta alternância. Bloqueio o ar. Libero o ar. Sim. Não. Sim. Não. E quando me basto apenas com o ar aprisionado nos pulmões, viro um tacho, um tacho em formato de corpo, e transformo em pasta escura o ar que respirei neste frutado campo elíseo. O ar vira goiabada, irriga minha carne e se apodera de mim. E quando me percebo restabelecido, e quando meu sangue assume a cor do conteúdo dos velhos potes adornados por tecido quadriculado, passo a me deslocar. Meu corpo encolhe gradualmente até eu me igualar à estatura das larvas brancas que se confundem com a massa rósea dos frutos tombados. E numa perfeita simbiose com os bichinhos, mergulho na polpa de cheiro forte e percorro uma cartografia do passado.



Escrito por Cacto às 15h25
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